Idlio na montanha
Wanting
Penny Jordan




Sabrina Edio de Frias n 02


Race Williams, como todos os homens, perseguia uma mulher at subjug-la, lev-la para a cama e reduzi-la a um simples objeto de prazer. Mas com Helen ele jamais
faria isso. H muito tempo ela decidira que no daria nada de si a homem algum. No iria permitir que ningum derrubasse suas defesas, conquistasse seu corpo e seu
corao, para depois deix-la sozinha e infeliz.
Mas como escapar ao fascnio de Race Williams, se ela estremecia diante de seu olhar, se j estava to apaixonada por aquele homem fascinante?







Digitalizao e Reviso: Nelma



Sabrina Edio de Frias
2 histrias

Idlio na montanha
Penny Jordan

O conde italiano
Mary Lyons




Copyright: Penny Jordan

Titulo original: "Wanting"

Publicado originalmente em 1984 pela Mills & Boon Ltd.. Londres. Inglaterra

Traduo: Dulce de Andrade

Copyright para a lngua portuguesa: 1985
Nova Cultural - So Paulo - Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na Linoart Ltda.
e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S.A.



      CAPTULO I

       - Race Williams vai estar l, hoje  noite. Como ser que ele ? Um homem de trinta e quatro anos  muito jovem para ter o controle de uma seo documentria
inteira. Sabe que ele foi um reprter, antes de comear a escrever?
       - E Terry sabe dessa sbita adorao pelo seu novo chefe? - Helen Martin perguntou  prima, sorrindo.
       As duas garotas no poderiam ser mais diferentes. Enquanto Jennifer era pequena, delicada e loira, Helen tinha um metro e setenta e oito, cabelos negros e
espessos, e olhos verdes, alongados, que lhe davam uma sensualidade cigana e fotografavam maravilhosamente bem. Era praticamente impossvel abrir uma revista sem
v-la, e ela j se acostumara com a reao dos outros  sua extraordinria beleza.
       H trs anos, desde os vinte e um, Helen vinha trabalhando como modelo e ultimamente comeara a imaginar o que o futuro lhe reservava. No momento, estava
na lista das modelos mais cotadas para a promoo de uma nova marca de cosmticos de luxo, mas sua grande paixo sempre fora escrever. Durante os ltimos anos, coletara
um extenso material para seu livro e agora s precisava de tempo para escrev-lo.
       - Terry disse que Race fez muitas perguntas a seu respeito - Jennifer continuou.
       Terry era o diretor de arte da companhia de televiso para a qual Jennifer trabalhava, uma emissora independente, de tima cotao no mercado, que recentemente
contratara Race Williams, um profissional de excelente reputao no campo dos documentrios. Ele fora reprter da Fleet Street, antes de comear a escrever romances
de fico e se dedicar  filmagem de documentrios.
       Apesar de ser dois anos mais nova que a prima, Helen era a mais amadurecida das duas. Ela vivia com Jennifer, seus tios e os primos gmeos, desde que perdera
os pais numa avalanche nos Andes, aos treze anos de idade. Uma perda que nunca deixara de lamentar, pois sempre se sentira uma estranha no ninho, sendo to mais
alta que os parentes. Sua altura sempre fizera com que se sentisse vulnervel. Na escola, fora vtima de brincadeiras cruis por ser a mais alta da classe e estava
a ponto de desenvolver um complexo, quando conhecera Brad.
       Brad! Conhecera-o aos dezessete anos, quando estudava para os exames finais do segundo grau. Ele j estava na universidade, e ela mal pudera acreditar quando
a convidara para sair. Brad fora seu primeiro namorado, o primeiro rapaz a lhe dar ateno, e sob essa ateno ela desabrochara.
       Sua tia ficara contente, mas preocupada. Helen lembrava-se muito bem dos conselhos que ela lhe dera uma ocasio, para no levar Brad muito a srio. Naturalmente,
no a ouvira. Brad tinha lhe dito que a amava, e, em sua inocncia, acreditara nele, abrindo-lhe o corao e a mente, contente por deix-lo ditar o passo de seu
relacionamento. Nunca participara das conversas cochichadas de suas colegas sobre sexo, e Jennifer, em quem poderia ter confiado, j partira para a universidade.
Brad fazia-lhe caricias leves, de vez em quando, e ela se convencera de que ele no ia alm porque a amava.
       Deus, como era ingnua!
       Descobrira a verdade, por acidente. Brad a levara a uma festa, na casa de um amigo, e em certo ponto ela fora  cozinha, atrs de um copo d'gua. Encontrara-o
l, conversando com um dos outros rapazes, e j ia cham-lo, quando ouviu o rapaz perguntar:
       - Quem  a nova garota? No  o seu tipo, com toda aquela altura! Que tal , na cama?
       Como havia corado, embaraada pela franqueza do rapaz! Mas nada a preparara para a crueldade da resposta de Brad.
       - Quem se importa? - ele dissera, com ar de pouco caso. - Pessoalmente, prefiro mulheres pequenas e delicadas, mas Helen vai receber uma fortuna, quando fizer
vinte e um anos. Daqui at l, pretendo me casar com ela. De vez em quando, posso me divertir com as mulheres do meu tipo.
       Ela no ficara para ouvir mais. Era verdade que receberia uma boa herana aos vinte e um anos, e saber que Brad s a queria por isso fora uma plula difcil
de engolir. No mostrara o quanto estava magoada, quando ele a levara para casa. Na verdade, jamais contara a ningum o que ouvira, mas a mgoa crescera em seu ntimo,
marcando-a e dando-lhe foras para dizer a Brad, com ar frio e indiferente, que no queria mais sair com ele.
       Naturalmente, Brad havia insistido, mas ela permanecera firme, embora s Deus soubesse o quanto isso lhe custara. Ela o amara, confiara nele. revelara a ele
seus pensamentos e esperanas mais profundos, certa de que seus sentimentos eram correspondidos. Mas a experincia lhe servira de lio; jamais cairia noutra.
       Fora Neil, seu primo, quem lhe dera a idia de ser modelo. Ele era um timo fotgrafo, que j vencera vrios concursos locais, e, confiando no julgamento
dele, ela havia procurado uma das melhores agncias de modelos do pas, onde fora contratada de imediato. S para si mesma admitia que sua feroz determinao de
vencer fora causada pelo menosprezo de Brad, pela vontade que tinha de mostrar a ele e ao mundo que era desejvel. E mostrara.
       Naqueles trs anos, recebera inmeros pedidos de casamento e propostas, mas no se emocionara com nenhum deles, pois no vinham de homens que a amassem, e
sim de homens interessados apenas na satisfao dos prprios desejos. Eles podiam disfarar, usando belas frases e elogios, mas ela conhecia a verdade. E agora Jennifer
vinha lhe dizer que Race Williams andara fazendo perguntas a seu respeito.
       No que estivesse surpresa. Como modelo, acostumara-se com o interesse que despertava nos homens. Mas s ela sabia que, por trs da aparncia fria que mostrava
ao mundo, ainda era a mesma garota vulnervel que se mantivera nas sombras, ouvindo seu amado destruir seus sonhos.
       - O que Race Williams queria saber? - perguntou  prima. As duas estavam jantando, e ela levou o copo de gua  boca, para fugir ao olhar de Jennifer.
       - Ah, as coisas de sempre: se voc era comprometida, etc, etc. Terry deve ter lhe dito que somos primas... - Vendo a expresso de Helen, Jennifer avisou,
ansiosa; - Race no  como os homens com quem voc costuma sair, Helen. No vai poder fazer com ele o que faz com os outros.
       - E o que eu fao com os outros?
       - Ora, voc sabe muito bem: primeiro, o encorajamento, depois, a rejeio. Desde Brad, nunca houve um homem em sua vida que despertasse suas emoes. Mas
voc deixa todos pensarem que est apaixonadssima, depois foge.
       Helen franziu a testa ao ouvir a descrio pouco atraente, porm verdadeira, de suas aes.
       - Eu no estou criticando - Jennifer garantiu -, s estou dizendo que Race Williams no  igual aos outros. Ele  duro, Helen, e no a deixar escapar sem
castigo. Por isso, se est planejando fazer com ele o que faz com os outros, pense melhor.
       - Eu no estou planejando nada.
       E era verdade. Helen sempre permitia que os homens tomassem a iniciativa em tudo, s lhes mostrando seu desprezo quando tinha certeza de que o mereciam. E
eles eram sempre iguais; todos to egoisticamente seguros de si e de sua rendio total, que mereciam o tratamento que lhes dava.
       - Quando vai sair o resultado do contrato Rio? - Jennifer perguntou, mudando de assunto.
       - Acho que dentro de uma semana, no mximo. Agora, a deciso est entre quatro modelos, e eu sou a nica morena.
       - E provavelmente vai ser a escolhida. Voc combina to bem com a imagem que eles querem promover.
       Helen concordava com a opinio da prima e j decidira que aquele seria seu ltimo trabalho como modelo. Depois, pretendia se dedicar a seu livro. J houvera
uma boa dose de especulao no mundo da moda, sobre aquele contrato, e ela era, de longe, a favorita.
       - Hora de nos aprontarmos - anunciou Jennifer, levantando-se da mesa.
       A festa daquela noite era para celebrar o aniversrio da emissora de TV e a contratao de Race Williams. O convite de Jennifer dava direito a um acompanhante,
e Helen concordara em ir com ela. Afinal, um dos acionistas da TV tambm era acionista da Rio, e um pouco de relaes pblicas no iria mal. No que Helen costumasse
usar sua beleza ou seu corpo para impulsionar sua carreira. Era a inviolabilidade de seu corpo e de sua mente que lhe dava o poder de destruir o sexo masculino;
sua fora vinha do fato de, secretamente, desprezar o sexo oposto. Contente por Brad no lhe ter tirado a virgindade, ela pretendia permanecer assim, no dando nada
de si a homem algum, pois dar significa ser magoada em troca, e j sofrera o bastante.
       Em seu quarto, Helen examinou-se no espelho, com cuidado profissional. Seu rosto e seu corpo eram de uma sensualidade extrema e vendiam bem qualquer produto
que anunciassem, mas por dentro ela era completamente diferente. Por dentro, tinha tanto calor e sensualidade quanto um bloco de gelo, e era isso que lhe tornava
to fcil vingar-se do sexo masculino. Com apenas um olhar para seu rosto e corpo, os homens a classificavam de "fcil". No entanto, nada poderia estar mais longe
da verdade, e, com tempo e graus variveis de humilhao, todos descobriam seu erro. Aperfeioara um mtodo de "coloc-los" em seu lugar, que feria profundamente
o ego masculino. E o melhor era que eles nunca avisavam a prxima vtima, nunca admitiam a prpria humilhao, deixando-a livre para repetir o processo quantas vezes
quisesse.
       Sempre sorria, divertida, quando lia o nome de seus "amantes" nos jornais, pois era essa sua reputao que a protegia dos homens que poderiam considerar sua
virgindade um desafio to grande, a ponto de acharem vlido recorrer ao estupro, para venc-la.
       O vestido que escolhera para aquela noite era de jrsei preto e fino, com um decote que revelava o incio de seus seios, na frente, e estendia-se at a base
de sua espinha, nas costas, colando-se a seu corpo como uma segunda pele. Calcinhas de seda negra eram a nica coisa que usava por baixo.
       Ento, Race Williams andara fazendo perguntas a seu respeito... Helen rememorou o que sabia dele: as colunas de mexericos adoravam-no, sempre citando-o como
o acompanhante de mulheres lindas, atribuindo-lhe a reputao de terminar seus "casos" assim que elas comeavam a aborrec-lo.
       Seria um prazer humilhar um homem como aquele, que tratava o sexo oposto com tanto menosprezo. Talvez ele at j a encarasse como uma nova conquista, desejando,
como todos os outros, a fachada que ela apresentava ao mundo, a beleza que adornava as capas de revistas, o prazer de aparecer ao lado de uma mulher que era notcia,
de possu-la e subjug-la ao seu poder machista.
       - Helen, voc est pronta? - Jennifer chamou do outro lado da porta, interrompendo seus pensamentos. - O txi deve estar chegando.
       Depressa, Helen terminou a maquilagem e escovou os cabelos, deixando-os soltos sobre os ombros.
       - Ainda bem que Terry gosta de mulheres loiras e pequenas - Jennifer exclamou, quando ela abriu a porta. - Voc est de tirar o flego de qualquer um!
       Sob o olhar admirado da prima, Helen colocou as sandlias de salto alto, imaginando qual seria a altura de Race Williams. De saltos, ficava com mais de um
metro e oitenta, e era sempre divertido ver a primeira reao dos homens a isso. Sabia que alguns consideravam sua altura excitante, encarando-a como uma espcie
de amazona na cama, e, de incio, ela tinha o cuidado de no desiludi-los.
       -  melhor pr o seu casaco de pele - Jennifer disse. - A temperatura l fora estava comeando a cair, quando cheguei. Como detesto janeiro e fevereiro! -
acrescentou, estremecendo. - E o pior  que ainda estamos no comeo de janeiro!
       Rindo, Helen abriu o armrio e pegou seu casaco de raposa prateada, presente dos tios, no ltimo Natal. Jennifer recebera um de raposa azulada, que combinava
melhor com sua tez clara. Presentes maravilhosos, que davam s duas um ar magnfico.
       O estdio de televiso ficava a vrios quilmetros do apartamento, e elas o encontraram totalmente iluminado, com o ptio de estacionamento cheio de carros
caros, de marcas de prestgio. Brinquedos masculinos, necessrios para lisonjear o frgil ego de seus donos.
       O porteiro reconheceu Jennifer e cumprimentou-a com um sorriso, mas foi em Helen que seu olhar se demorou, expressando admirao.
       - Outra conquista - Jennifer murmurou, quando entraram no elevador. - Ah, no me olhe assim! Eu no sou tola, Helen. Sei que voc no liga a mnima para os
homens com quem sai. E tambm sei que quando todos supem que voc esteja vivendo trridas noites de amor com eles, est a salvo em sua cama, sozinha. - Vendo a
expresso da prima, ela acrescentou: - No quero me meter, Helen, mas acho que est procurando encrenca. Um dia, vai aparecer um homem capaz de mexer com os seus
sentimentos, e que com certeza vai acreditar na sua reputao. Quando ele descobrir a verdade, talvez j seja tarde demais.
       - No perca seu tempo se preocupando com isso, Jen. Eu sou sexualmente imune ao sexo oposto. Falando claro, eu sou frgida.
       - Voc  frgida ou tem medo? Posso ser dois anos mais velha, mas ainda me lembro do quanto voc era tmida e sensvel, na adolescncia. Aquela garota no
desapareceu por completo. Conheo voc e sei que j est planejando a queda da prxima vtima, mas tome cuidado para os papis no se inverterem. No se esquea
de que Race Williams  um osso duro de roer! '
       - Eu nunca vou atrs de ningum, Jen. Se Race Williams me quiser, ter que vir atrs de mim.
       - E quando isso acontecer, voc o humilhar, como fez com todos os outros. Helen, eu venho observando voc. Tem se sado bem, porque nenhum deles quis admitir
a verdade, mas Race Williams no  desse tipo. Ele  duro e tem gnio forte; no joga de acordo com as regras e, nele, a civilizao no passa de um verniz.
       - Voc est bem informada, hein?
       - Ouvi os rumores, e Terry  amigo dele. Freqentaram Oxford juntos.
       - Azar de Terry - Helen murmurou, num tom que fez a prima erguer as sobrancelhas.
       Naquele momento, as portas do elevador se abriram, e as duas saram, dirigindo-se ao escritrio de Jennifer, uma saleta no fim de um longo corredor. L, Helen
tirou o casaco, esperando pacientemente enquanto a prima verificava a maquilagem, sem lanar um nico olhar ao prprio rosto.
       - Pronto! - Jennifer anunciou, terminando de aplicar o batom. - Pedi a Terry para guardar uma mesa e lhe disse mais ou menos a que horas amos chegar. Talvez
ele j tenha uns drinques  nossa espera.
       Helen conhecia bem Terry Brady. Jennifer havia descartado um homem atrs do outro, at encontrar Terry, por quem jurava que havia se apaixonado  primeira
vista. Ela ainda no tinha certeza se seus sentimentos eram retribudos, mas estava decidida a dar a ele toda oportunidade de descobrir.
       No instante em que entraram no estdio superlotado, Helen localizou Terry. Ele estava a uma mesa com outro homem, que de imediato levantou a cabea e fixou
os olhos em seu rosto, como se tivesse recebido um aviso de sua chegada. Inexplicavelmente, ela se sentiu tomada por uma onda de calor, que se espalhou por seu corpo,
deixando-a com a sensao de no ter mais energia. Embora ele estivesse longe demais para ser visto com clareza, gravou-se em sua mente a impresso de um rosto moreno,
com feies msculas e arrogantes, cabelos negros e mos longas, queimadas de sol. Acompanhando, veio a percepo chocante e inegvel de que ele acabava de despi-la
por completo com o olhar, acariciando cada centmetro de pele revelada.
       - D para voc ver Terry? - Jennifer perguntou, na ponta dos ps.
       - No, mas acabo de ver um velho amigo, com quem gostaria de conversar. Por que no vai atrs de Terry? Eu encontro vocs depois.
       - Eu preferia que voc viesse comigo, Helen. - Jennifer fitou-a, meio embaraada, e acrescentou; - Race perguntou a Terry se voc vinha e sugeriu que ficssemos
juntos. Ele deve estar esperando por ns e...
       - Pensei que voc tivesse me prevenido contra esse tal de Race.
       - Eu a preveni contra tentar faz-lo de bobo. Ele s pediu para conhecer voc...
       - Provavelmente pensando em me levar para a cama - Helen completou, com toda franqueza. - Olhe, sinto se isso vai deixar vocs numa situao embaraosa, mas
no pretendo ser manipulada. Procuro vocs mais tarde, depois que tiver falado com Don.
       Ento, Race Williams queria conhec-la... Uma onda de raiva invadiu-a, ao se lembrar do modo como a olhara o homem que estava com Terry. S podia ser Race
Williams, e uma coisa era certa: no seria levada a passar a noite com ele. Se ele a queria, ento que aprendesse pelo mtodo mais difcil, como os outros antes
dele, que teria que dar duro tentando consegui-la. E que Race Williams a desejava, no havia a menor dvida. Vira isso no olhar que ele lhe lanara, um olhar ferozmente
sexual, onde havia uma possesso que a fizera arrepiar-se de medo, embora no soubesse por qu. Afinal, ele no passava de um homem, e j manejara outros como ele,
antes.
       Jennifer saiu  procura de Terry. Enquanto Helen dirigia-se ao bar, foi detida meia dzia de vezes por homens que a reconheceram. Respondeu aos elogios e
perguntas que recebeu com um sorriso frio e langoroso, sem perceber que era o langor sob o gelo que lhes incendiava o sangue e excitava a masculinidade. Do alto
de seus saltos, foi fcil manter a mesa de Terry sob uma discreta vigilncia. Race Williams estava de costas, e ela o viu levantar-se quando Jennifer se aproximou.
Terry franziu a testa ligeiramente, depois olhou em torno.
       Pobre Terry! Tomara que sua ausncia no o prejudicasse. J decidira que iria embora, assim que conseguisse chamar um txi. Quanto ao porqu desse impulso
de fugir, em vez de ficar e lutar, preferia no pensar nele.
       De repente, Helen viu Race Williams levantar-se e desaparecer, provavelmente  procura do bar. Aliviada, soltou a respirao que estivera prendendo, sem perceber.
Aquela era sua oportunidade de escapar.
       Escapar? No estava sendo dramtica demais?
       Encontrou o escritrio de Jennifer sem dificuldade, no se dando ao trabalho de acender a luz, ao entrar. J estendia a mo para o casaco, quando sentiu os
cabelos da nuca se arrepiarem e girou o corpo com um gesto brusco, dando exatamente com o homem que queria evitar.
       Ele era mais alto do que imaginara, tendo pelo menos um metro e noventa, e parecia perfeitamente  vontade recostado na porta, com os braos cruzados sobre
o peito, bloqueando sua sada.
       - J vai?
       - Estou com dor de cabea - ela respondeu sorrindo, num tom casual e agradvel. E acrescentou, com uma indiferena proposital; - No nos conhecemos, no ?
       Ele acendeu a luz, permitindo que ela visse o sorriso zombeteiro que lhe retorcia os lbios.
       - Bela tentativa, Helen, mas no funcionou. Voc sabe quem eu sou, exatamente como sei quem voc . Terry me contou muitas coisas a seu respeito.
       - Terry?
       - , eu lhe perguntei. Como v, faz tempo que quero conhec-la. Voc  uma linda mulher, extremamente desejvel... Gostaria muito de ir para a cama com voc.
       Helen disfarou a raiva que fervia em seu ntimo.
       - Mas no estou lhe contando nenhuma novidade, estou? - Race Williams prosseguiu, em voz baixa e sedutora. - Voc soube disso no momento em que me viu, esta
noite. O que no entendo  por que fugiu de mim. Porque voc est fugindo, no est? - Riu baixinho, quando ela no respondeu. - Est me dando uma vantagem psicolgica,
Helen. Por que tem medo de mim?
       - Eu no estou fugindo nem tenho medo de voc - Helen replicou friamente.
       - Ento volte ao estdio e dance comigo. Algo me diz que seremos capazes de nos mover muito bem, juntos.
       Ela se forou a ignorar o sentido sexual do comentrio.
       - Ouvi dizer que se candidatou ao lugar de modelo da Rio. Quer mesmo esse contrato?
       Helen ergueu as sobrancelhas, surpresa com a rpida mudana de assunto.
       - Claro que sim. Se eu no o quisesse, no teria me candidatado.
       - E voc  a favorita, embora a competio seja dura. D para ver por que. Tambm ouvi dizer que  escritora.
       O olhar de Helen endureceu. Jennifer e sua lngua de trapo! Detestava que pessoas estranhas  famlia tomassem conhecimento de seu sonho de ser escritora.
       - Eu me interesso por muitas coisas - respondeu com cautela.
       - O meu sexo  uma delas, segundo me disseram. Voc passa homens em revista como outras mulheres passam meias.
       - Talvez eu goste de escolher.
       - Ento me escolha!
       De repente. Race eliminou a distncia que os separava, e Helen tomou conscincia do calor que o corpo dele emanava, do desejo presente nos olhos cinzentos,
que a percorriam da cabea aos ps. O medo assolou-a de uma forma que nunca experimentara antes, mantendo-a paralisada sob as mos que deslizavam por sua pele, forando-a
de encontro ao corpo masculino numa intimidade indesejada, obrigando-a a tomar conhecimento do desejo que o dominava, quando seus quadris se encontraram. No deveria
ter procurado o escritrio de Jennifer sem antes se certificar de que no seria seguida. Ali estavam sozinhos, e no tinha meios de lutar contra ele.
       - Quero voc Helen - Race Williams repetia sem parar, como se essas palavras possussem o poder de faz-lo acreditar que tinha o direito de tomar o que queria.
       Helen sentiu o corpo enrijecer, fugindo do dele, e o medo ps-lhe um gosto estranho na boca. Ento, Race inclinou a cabea, e ela percebeu que ia ser beijada.
Forando-se a relaxar os msculos contrados, livrou-se dos braos dele com um safano e pegou a bolsa, dirigindo-se  porta.
       - Mas eu no quero voc! - disse-lhe, a raiva substituindo o medo. Como se atrevia ele a achar que a tinha  disposio, para satisfazer o desejo que sentia?
- Homens como voc me do nojo! Se quer uma boneca para brincar, v comprar uma Barbie. Sou exigente com os homens que partilham minha vida.
       - No foi isso que ouvi dizer. - Nos olhos dele era visvel uma mistura de raiva e frustrao sexual to intensas que chegava a assustar. - Eu quero voc
e vou t-la...
       - Nunca! - Helen explodiu, abrindo a porta e correndo para o hall dos elevadores.
       Pressionando o boto de chamada, olhou por cima do ombro, quase esperando ver Race atrs de si. Mas no havia sinal dele. Na certa ainda estava tentando se
recuperar do golpe que sofrera em seu convencimento.
       Que arrogncia a dele, pensando que bastava querer para que ela casse em seus braos! Seria essa a conduta normal das outras mulheres? Havia nele uma sensualidade
evidente, uma virilidade bruta que muitas mulheres podiam achar atraente, mas que ela considerava repulsiva ao extremo, at mesmo amedrontadora. Jennifer tinha razo,
ao preveni-la contra ele. Race Williams no era homem que pudesse manipular e largar de lado, sem sofrer as conseqncias de seus atos.

       Helen ainda estava acordada, quando Jennifer chegou.
       - Sinto muito, Helen - ela se explicou -. mas Terry prometeu apresentar voc a Race. Ele ficou furioso quando eu apareci sem voc. Saiu  sua procura.
       - E me encontrou. J  hora de algum mostrar a esse sujeito que ele no pode conseguir tudo que quer simplesmente exigindo - Helen respondeu. E vendo a expresso
da prima, acrescentou: - Sossegue, eu dou muito valor  minha pele, para tentar.
       - Ele quer voc, Helen, e no vai desistir. Me fez tantas perguntas a seu respeito! Deu at medo. Race  quase obcecado por voc. Talvez fosse melhor voc
sair com ele, deix-lo ver como , na realidade... Por trs dessa mscara de modelo. Ele gosta de mulheres sofisticadas e se souber como voc ...
       - Pare! - Helen exclamou, cobrindo a cabea com o lenol. - No quero ouvir mais nada sobre esse homem. Nada!

      CAPTULO II

       O telefone tocou, assustando Helen. Ela estivera tensa o dia inteiro, tudo por causa de Race Williams. O desejo que vira nos olhos dele deixara-a nervosa,
no por ser algo de novo em sua vida, mas por sua intensidade.
       Atendeu ao quarto chamado, sentindo-se aliviada ao ouvir a voz de seu agente, do outro lado.
       - Boas novas, Helen! Voc acaba de ser chamada para outra entrevista com o pessoal da Rio. Um dos diretores, desta vez. Vou lhe dar o endereo. Querem que
voc esteja l s trs horas em ponto. Acho que suas chances aumentaram; nenhuma das outras foi chamada.
       Desligando, Helen foi se vestir. Deveria estar contente, mas sentia-se apenas inquieta, impaciente com aquelas entrevistas constantes. Gostaria de estar livre
para ser ela mesma, no uma imagem comercivel. Mesmo assim, escolheu com cuidado a roupa que iria usar. A Rio Cosmticos fabricava artigos para mulheres glamourosas,
e era essa a imagem que deveria projetar.
       O tailleur preto, de saia justa, tinha um casaquinho que seguia as linhas de seu corpo, abrindo-se ligeiramente abaixo da cintura, num modelo muitssimo elegante.
Com ele, usou uma blusa de seda branca e meias de seda Dior. O toque final foi dado por um chapeuzinho de vu negro, cuidadosamente arranjado sobre seus cabelos
escuros, presos num coque baixo.
       Jennifer, que estava de folga naquele dia, chegou das compras quando Helen saa de casa.
       - Meu Deus! - ela exclamou, notando a aparncia sofisticada e sensual da prima. - Posso saber para qu tudo isso?
       Helen contou-lhe.
       - Hum, voc vai ganhar nota dez por esta roupa, principalmente se a entrevista for com um homem. Ela deixa bem claro que voc deve estar com roupas de baixo
muitssimo sexy.
       Helen entendeu o que Jennifer queria dizer, replicando que era essa mesmo a idia.
       O endereo que recebera ficava em Mayfair, e um criado abriu a porta quando tocou a campainha, conduzindo-a a uma sala de espera to assptica quanto um consultrio
mdico. A distncia, podia-se ouvir o som de uma mquina de escrever, e ela se sentou, tentando se concentrar na entrevista. J passara por meia dzia delas. Rio
era um novo conceito em matria de cosmticos, e seus diretores pareciam incapazes de chegar a um acordo sobre o tipo de rosto que desejavam, para promover seus
artigos.
       *Quinze, dez minutos se passaram, e seus pensamentos voltaram-se para a noite anterior. Raiva e tenso renasceram em seu ntimo quando se lembrou da atitude
de Race Williams. J encontrara muitos homens que achavam que as mulheres existiam apenas para seu prazer e detestara todos eles. Race Williams no era diferente
deles, s mais explcito em suas intenes, com um ego monstruoso que o fazia acreditar que seria sempre recebido de braos abertos. Principalmente por mulheres
do tipo que pensava que ela fosse.
       Estranhamente ressentida com isso, Helen olhou as horas. Por que a estariam mantendo a espera? Impaciente, levantou-se e abriu a porta. O hall estava vazio,
o som da mquina de escrever mais alto. Talvez tivesse se esquecido dela.
       Sem se dar tempo para pensar, marchou para a porta atrs da qual podia ouvir a mquina de escrever, bateu e abriu, levando um choque ao ver o homem sentado
 escrivaninha.
       - Desculpe o atraso, Helen. Achou que eu tinha me esquecido da nossa entrevista?
       - Voc?! Mas o que est fazendo aqui? Eu...
       - Voc veio para ver um dos diretores da Rio, ou seja, eu. - Race Williams levantou-se e deu a volta  escrivaninha, recostando-se nela, com os braos cruzados
sobre o peito, enquanto estudava Helen. - Uma roupa muito bonita, mas no to provocante quanto a que estava usando ontem  noite. Precisa pr aquele vestido de
novo, para mim. O pouco que havia dele me fez ficar louco de vontade de tir-lo de seu corpo.
       Helen viu o olhar masculino pousar em seus seios e sentiu, furiosa, a reao espontnea de seu corpo. No precisou olhar para baixo nem ouvir o riso grave
e satisfeito de Race Williams, para saber que seus mamilos achavam-se claramente delineados contra o tecido fino de sua blusa.
       - Voc me fez vir at aqui, enganada - acusou, num tom hostil. - Eu...
       - De jeito nenhum. Eu sou um dos diretores da Rio, com aes suficientes para faz-la pegar o contrato, se...
       Helen fitou-o, incapaz de acreditar que no tinha imaginado a ligeira pausa, incapaz de aceitar o fato de que ele ia mesmo dizer o que desconfiava.
       - Se...?
       - Desde ontem  noite, andei fazendo uma pesquisa a seu respeito, Helen, e me convenci de que comeamos nosso relacionamento com o p esquerdo. No entanto,
se eu lhe prometer o contrato com a Rio, tenho certeza...
       - De que conseguir me persuadir a ir para a cama com voc, no ? - Helen completou, controlando-se com dificuldade para no replicar aos gritos.
       - Ah, eu no me expressaria de um modo to cru assim! Vamos dizer que voc no  to dura quanto sugerem os boatos, e que seu bom corao a levaria a acalmar
meu... desejo?
       Deus do cu, era inacreditvel!
       - Falando claro, voc me dar o contrato, se eu for para a cama com voc. Por quanto tempo?
       - Pelo tempo que for necessrio.
       Ou seja, pelo tempo que ele levasse para se cansar dela. Um tremor de raiva percorreu-a. Como Race Williams se atrevia a insult-la assim? Como se atrevia
a achar que estava  venda? S a vontade de descobrir o quanto ele a desejava levou-a a continuar.
       - E se eu concordar? Como posso saber que...
       Race olhou para o telefone.
       - Posso arrumar tudo agora mesmo, desde que me d uma pequena prova de sua sinceridade, em primeiro lugar...
       - No  possvel que esteja falando srio!
       - Estou sim, no duvide. Voc fugiu de mim ontem  noite, Helen, depois de deixar claro o quanto antipatizava comigo. Voc me rejeitou publicamente. Terry
sabe... Jennifer sabe. No sou homem que goste de ser humilhado.
       Se era esse o caso, ele no deveria pensar que ela pura e simplesmente cairia em seus braos!
       - Voc precisa do contrato - Race continuou. - Como modelo, atingiu o auge, e a Rio lhe dar o que precisa para passar o resto da vida bem.
       Obviamente, Race Williams no sabia que Helen tinha dinheiro e podia se dar ao luxo de jogar aquele contrato na cara dele.
       - E se eu no concordar em ser sua... amante, no terei o contrato.
       - Garota inteligente!
       - Mas por que eu?
       - Por que no? O que tinham todos os outros homens da sua vida que eu no tenho?
       Ele nunca acreditaria, se lhe dissesse a verdade.
       - Ora, vamos, Helen! Que diferena pode fazer um homem a mais? E pense nas vantagens que isso lhe traria!
       - O que me surpreende  voc estar disposto a ir to longe - ela murmurou, tentando ganhar tempo para raciocinar. - Nunca pensei que um homem como voc tivesse
que lanar mo de tais artifcios para conseguir companhia feminina.
       - Normalmente, no preciso e s estou pressionando voc agora porque no gosto de ser feito de bobo. Todos viram o modo como me evitou, ontem  noite. - O
rosto masculino endureceu. - E metade dos convidados sabia que eu tinha arrumado tudo para sermos apresentados. Alm disso - ele fitou-a de alto a baixo -, eu quero
voc.
       Mas no vai ter-me. Helen estava com essas palavras na ponta da lngua, mas se dominou. Continuaria a fazer o jogo dele por algum tempo, deixaria que pensasse
que vencera, e ento... Uma vozinha interior avisou-a de que estava brincando com fogo, mas no lhe deu ouvidos.
       - Acho que no posso mais duvidar disso murmurou, num tom ronronante.
       - E eu farei com que me queira, tambm.
       Seria possvel que ele acreditasse mesmo nisso? Helen quase riu alto, nesse ponto, pelo menos, estava segura.
       - Acha que  capaz?
       - Claro que sou.
       Que arrogncia, a dele! Era de espantar qualquer um.
       - Vamos deixar de joguinhos, Helen. Normalmente, no me sinto atrado pelo seu tipo de mulher, mas voc tem algo que me fascina, que me faz ficar louco para
possu-la.
       - Fico imaginando o que os outros diretores da Rio diriam, se soubessem da oferta que me fez...
       Race riu.
       - Se est ameaando de contar a eles, no perca seu tempo. A verdade, Helen,  que a escolha deles j foi feita e no caiu em voc. Como maior acionista,
posso faz-los mudar de idia,  claro. - Race fez uma pequena pausa, antes de acrescentar:
       - Se voc for lhes contar, eles na certa vo achar que sua queixa  resultado de puro despeito.
       Seria verdade? Mas, de um jeito ou de outro, o que importava? Gostaria de ter aquele contrato, mas no a ponto de se vender por ele.
       - Voc me d algum tempo para pensar?
       Ele tornou a rir, sacudindo a cabea.
       - Prometi a mim mesmo que a levaria para a cama ontem  noite, Helen, e no gosto de ser frustrado. Quero sua resposta agora. E ns dois sabemos que vai ser
sim, no ? Voc  ambiciosa demais para recusar.
       Dominando a raiva, que agora estava em ponto de ebulio, Helen replicou com clareza e cuidado:
       - Pela ltima vez, no h nada que possa me oferecer, que me convena a ir para a cama com voc! Nunca vi um homem to convencido, to arrogante! No preciso
do contrato da Rio! Mesmo que precisasse, no o aceitaria nesses termos. Como se atreve a fazer chantagem comigo? Quem voc pensa que ...
       - Eu vou lhe mostrar quem eu sou!
       Race agiu to depressa que a pegou de surpresa, agarrando-a pelos pulsos com uma fora impossvel de ser resistida. Sentindo-se extremamente vulnervel, Helen
percebeu que fora longe demais. E enquanto ele a segurava com mos de ferro, aprendeu o significado exato da palavra medo. Incapaz de raciocinar, presa de um pnico
intenso e primitivo, lutou freneticamente para se libertar, s conseguindo com isso excit-lo ainda mais.
       Quando seu corpo tocou o dele, afastou-se bruscamente, chocada com as emoes que a assolaram. Emoes desconhecidas e, ao mesmo tempo, profundamente familiares,
como se uma parte de seu ser sempre tivesse sabido que elas existiam, encarregando-se de mant-las rigidamente presas. At aquele momento...
       Seus olhos encontraram-se com os de Race, que de imediato mudaram de expresso, tornando-se mais observadores, inquisitivos. Numa resposta primitiva ao toque
masculino, seu corpo comeou a tremer. O que estaria acontecendo com ela? Detestava Race Williams e tudo que ele personificava, no entanto...
       As mos dele desceram por suas costas, acariciando-as. Tentou reagir, lembrando-se de que aquele homem s queria puni-la, mas seu corpo negou-se a ouvir.
O momento em que Race Williams a tocara tinha sido o incio de um pesadelo, quando todas as suas foras caram, derrubadas no por ele, mas por sua reao a ele.
Race Williams continuava a representar tudo que mais detestava, mas numa coisa estava certo; ela tambm o queria!
       - Helen.
       Ela ergueu os olhos, ofegando ao senti-lo pressionar seu corpo ao dele, enquanto traava o contorno de seus lbios com a ponta da lngua, antes de tom-los
num beijo ardente e profundo. Sua cabea girou com a intensidade de seu desejo, subitamente fora de controle. Nunca um homem a fizera sentir-se assim. E o pior era
que nem gostava dele!
       Race achou os botes de sua blusa, abrindo-a com dedos impacientes, e seu murmrio de protesto s serviu para lhe dar acesso ao interior de sua boca. Num
ltimo esforo, ainda tentou lutar contra o chamado insidioso do desejo, mas nada conseguiu. O toque de Race era uma chave mgica, que abria todas as portas que
sempre mantivera fechadas, contra o sexo oposto.
       Mas no estava sozinha em seu desejo. O que comeara como expresso de raiva havia mudado depressa, e para ambos. A excitao masculina era evidente no calor
do corpo junto ao seu, no brilho dos olhos que a examinavam, nas linhas da boca que abandonou a sua, para murmurar roucamente:
       - Meu Deus, no acredito! H um minuto eu queria torcer o seu pescoo, mas agora s consigo pensar em ter voc na minha cama, queimando junto a mim, me desejando
como eu a desejo. Porque voc tambm me deseja, no , Helen?
       Talvez Helen pudesse encontrar foras para resistir, naquele momento, se Race no tivesse inclinado a cabea para beij-la no pescoo, enquanto lhe acariciava
os seios com uma das mos. O que estava fazendo era errado, como clamavam todos os seus instintos. Todos, menos o que bradava mais alto, exigindo satisfao total.
Seu corpo, h tanto tempo reprimido, ignorou os sinais de perigo lanados por seu crebro. Quando Race deixou-a para fechar as cortinas, permaneceu onde estava,
oscilante, o olhar fixo na tora que queimava na lareira. Mesmo sem olhar, soube o momento exato em que ele parou s suas costas.
       Gentilmente, seu casaco e chapu foram removidos, e Race virou-a de frente para si, murmurando, com um sorriso;
       - Ainda prefiro o vestido que voc usou ontem  noite.
       Helen abriu a boca, mas ele tapou-a com os dedos.
       - No, no diga nada. Ontem  noite, quando vi voc, achei que era a coisa mais excitante que j aparecera em minha vida. Desejei-a tanto que seria capaz
de possu-la ali mesmo, naquele momento. Ento voc fugiu, e nenhuma mulher foge de mim, Helen. - Um brilho perigoso surgiu nos olhos masculinos. - Nenhuma mulher
me faz de bobo, como voc fez. Eu quero voc, e voc tambm me quer. Eu sei.
       Era esse o problema; ela tambm o queria. Tanto, que tremia da cabea aos ps, incapaz de pensar com lgica ou coerncia, totalmente concentrada no homem
 sua frente e na emoo que se espalhara por seu corpo. Deixou-o remover sua blusa, no protestando nem quando sua saia juntou-se ao resto de suas roupas, no cho.
Sentiu as mos dele tremendo, ao soltarem seu suti de renda, e no momento em que elas envolveram seus seios, desejo e angstia misturaram-se em seu ntimo. Involuntariamente,
fechou os olhos quando ele inclinou a cabea e substituiu as mos pela boca, incendiando seu corpo, fazendo-a tremer como uma folha ao vento, ao pux-la de encontro
aos quadris e mostrar-lhe o quanto estava excitado.
       - Voc faz com que eu queime por dentro. Helen - ouviu-o murmurar num tom rouco. - Sinta!
       A camisa de Race estava aberta, e ao passar as mos pela pele mida exposta, Helen arqueou o corpo, respondendo instintivamente ao movimento rtmico do dele.
Seu crebro avisou-a de que estava sendo levada muito longe, muito depressa, mas a intensidade de sua reao confundiu-a, fazendo-a ignorar a voz da razo, enquanto
seu ser se fundia ao dele, no calor do desejo mtuo.
       Mas o senso comum intrometeu-se por um instante, quando virou a cabea e viu-o absorto em explorar seu pescoo, mordiscando aqui e ali a pele macia. O medo
invadiu-a. O que fazia ali, permitindo que aquele homem a acariciasse daquele modo? No o conhecia, no gostava dele!
       Tentou se afastar, mas ele desceu as mos para seus quadris, mantendo-a presa, a cabea morena junto a seus seios, liberando uma gama selvagem de sensaes,
que apagou todo o resto. No protestou, ao ser carregada para o sof diante da lareira.
       Por um longo tempo, Race limitou-se a fit-la, examinando devagarinho cada centmetro de sua pele, at faz-la queimar com o ardor dessa explorao. Ento,
murmurando algo com urgncia, comeou a acariciar suas coxas, levando-a a apertar os punhos e agitar-se com prazer de encontro a ele.
       Helen abriu os olhos para ver Race tirar o jeans e deitar-se a seu lado. Por um momento, enrijeceu, amedrontada com a fora do corpo dele, mas o calor da
lngua que a acariciava e a sbita mudana no ritmo da respirao masculina mostraram-lhe que a carcia excitava-o tanto quanto a ela. Em resposta, pressionou o
corpo ao dele, deslizando as unhas pela pele morena, num carinho que o fez gemer e procurar seus lbios.
       - Estou ardendo por voc, Helen - escutou-o dizer em voz no muito firme, de encontro  sua pele. - Nunca uma mulher me excitou tanto! Faa amor comigo...
Voc no imagina a necessidade que tenho de sentir suas mos e boca em meu corpo. Ontem  noite, quando fui para casa, no consegui dormir, s pensando em voc,
desejando voc!
       Race moveu-se contra ela. e Helen sentiu a urgncia dentro dele. Seu corpo respondeu como se tivesse vontade prpria, aconchegando-se ao dele, enquanto seus
dentes mordiam-lhe o ombro. Ondas violentas de desejo percorriam-na de alto a baixo, e com os sentidos tomados pela viso, o cheiro, a voz de Race, ela comeou a
ansiar pela possesso final.
       - No posso esperar muito, Helen - ele a avisou, movendo o corpo com propsito, em sua necessidade e urgncia.
       Foram essas palavras que a fizeram voltar abruptamente  razo, dando-lhe a percepo exata da situao em que se achava. Com um movimento brusco, afastou-se
dele, ciente da incredulidade, frustrao e raiva que o acometiam.
       - Algo por conta - lembrou-o, mal reconhecendo a prpria voz. - Foi isso que voc pediu...
       Um palavro ressoou pelo ar, chocando-a com seu significado explcito. Com a respirao alterada, ela se vestiu, obedecendo ao instinto que lhe dizia para
fugir antes que fosse tarde demais, ignorando a vozinha interior que lhe garantia que j era muito, muito tarde.
       Alcanou a porta antes que Race pudesse det-la, quase se chocando, no hall, com o criado que a deixara entrar. O que iria ele pensar daquilo tudo? Ou j
estava acostumado com mulheres semidespidas saindo do escritrio de seu patro? Teria Race usado com outras a mesma ttica que empregara com ela?
       A idia deu-lhe enjo de estmago. Como pudera permitir que ele a tocasse daquele modo? O que lhe acontecera? Detestava homens como ele, odiava ser tocada,
e nos braos dele, no entanto... respondera como uma mulher passional!
       Tinha que haver uma explicao racional para isso. Sua reao s podia ter sido ocasionada pela zanga. A raiva era uma emoo intensa e primitiva, e Race,
um amante experimentado. Seu corpo  que respondera, no sua mente. O que no era um grande consolo, uma vez que isso nunca lhe acontecera, fosse com o corpo ou
com a mente.

       A primeira coisa que Helen fez, ao chegar em casa, foi telefonar para seu agente.
       - Quero que voc ligue para a Rio e retire a minha ficha. Agora! - disse-lhe, recusando-se a dar explicaes e a voltar atrs.
       Estava tensa como um animal enjaulado. Tinha que escapar, antes que Race encontrasse outro meio de acu-la. Temia-o, e no s porque ele a queria. Temia sua
prpria reao a ele e o desejo primitivo de possesso, que sentia nele. Estava bem financeiramente, poderia sair da cidade... concentrar-se em seu livro... Sim,
era isso! Desistiria da carreira de modelo, definitivamente. Podia se dar a esse luxo.
       Quando Jennifer chegou, encontrou-a andando de um lado para o outro da sala, ainda com uma expresso tensa no rosto.
       - O que aconteceu?!
       - Race Williams - Helen replicou, amarga. - Mas no quero falar disso. Jen, eu tenho que ir embora. Ele me amedronta...
       - Voc deveria  estar lisonjeada com o interesse dele. No comeo, pensei que ele s quisesse fazer mais uma conquista, mas agora no sei, no. Acho que ele
se apaixonou mesmo por voc, Helen.
       A natureza incuravelmente romntica da prima fez Helen gemer. No houvera amor no modo como Race Williams a tocara, s raiva e desejo. E seu corpo traidor
correspondera no mesmo tom! Seu consolo era que ele jamais saberia que fora o nico homem a conseguir dela essa reao.
       - Por que no lhe d uma chance? - Jennifer props. - Vocs comearam com o p esquerdo. Race est louco por voc, Helen. Terry me contou que ele se envolveu
mesmo, que j estava interessado em voc muito antes de saber que somos primas. Ele tem at revistas com fotos suas, em cima da escrivaninha! D-lhe uma chance.
Tenho certeza de que Race se apaixonou por voc. Est certo, eu concordo que aquela aproximao sexual foi de dar medo em qualquer uma, mas  que ele no sabe...
       - ...que eu ainda sou virgem? No sabe, e no quero que saiba. Prometa que no vai lhe dizer nada. Jen.
       - Claro que eu no vou dizer. Mas mais cedo ou mais tarde voc ter que lhe contar. - Um sorriso malicioso entreabriu os lbios de Jennifer. - A no ser que
prefira que ele descubra sozinho. Porque a verdade  que voc no  indiferente a ele, Helen. Nenhuma mulher poderia ser!
       - Talvez eu no seja, mas no tenho inteno de me transformar em outra conquista dele.
       - Acho que se lhe desse uma chance, poderia descobrir que ele se importa mesmo com voc.
       Helen no respondeu. Todas as suas emoes tinham se esgotado, menos um senso primitivo de medo. A imagem de Race no a deixava em paz. Cada vez que fechava
os olhos via-lhe o rosto, cheio de paixo, e tornava a sentir o ardor da prpria resposta. Parecia-lhe impossvel que isso estivesse acontecendo com ela.
       - Jen, preciso sair daqui - anunciou com voz rouca. - Preciso de tempo... para pensar. Mandei meu agente dizer  Rio que no estou mais interessada no contrato
com eles. - Helen sorriu, vendo a expresso da prima. - Eu sei que deixei o negcio ir longe demais, mas pensei bem e cheguei  concluso de que estou precisando
me afastar um pouco de Londres, talvez me concentrar em meu livro...
       - O que voc est querendo  fugir de Race. Posso saber para onde pretende ir?
- No fao a menor idia. Provavelmente um lugar quieto e isolado. Se souber de algum, no deixe de me dizer.

       - Ainda quer sair de Londres por uns tempos, Helen?
       Helen, que lia um jornal, ergueu os olhos para fitar a prima.
       Trs dias tinham se passado, desde que vira Race; trs dias durante os quais se assustara com cada toque de telefone e batida na porta. Mas ele no a tinha
procurado.
       No que isso quisesse dizer que no a procuraria mais. Ela tinha certeza de que ele estava apenas ganhando tempo,  espera de uma boa oportunidade. Race Williams
notara o ardor de sua resposta a ele e, como um caador sentindo cheiro de sangue, seguiria sua pista at desfechar-lhe o golpe final.
       - Quero, sim - respondeu, surpresa com a pergunta. Afinal, desde o incio Jen fora contra sua idia de se afastar. - Por qu? Tem alguma coisa em vista?
       - Terry tem um chal nas Terras Altas, na Esccia. Ele vai para l durante o vero, para pescar, e acho que no se importaria de emprest-lo a voc. Se quiser,
posso falar com ele...
       As Terras Altas da Esccia, com sua grandiosidade sombria e cus nevoentos. Um cenrio que iria bem com seu estado de esprito.
       - Parece uma boa idia!
       - Tem certeza de que est fazendo a coisa certa? - Jennifer perguntou, tensa de repente. - Por que no fica aqui, fala com Race...
       Ficar e permitir que Race derrubasse suas defesas novamente? Jamais! Iria embora, j que no era forte o bastante para ficar e lutar. Havia algo nele que
destrua sua invencibilidade, fazendo-a tem-lo e temer a prpria reao a ele.
       - No posso. Tenho que ir embora. Fale com Terry... Diga-lhe que preciso de paz e sossego para escrever meu livro.
       - Se  isso mesmo que quer...
       Helen franziu a testa. Por que estaria Jen hesitando, como se quisesse faz-la mudar de idia, depois de ter abordado o assunto? Seria possvel que acreditasse
que os sentimentos de Race iam alm de simples desejo? A tolinha romntica!

      CAPTULO III

       - E ento? Terry me emprestou o chal?
       - Emprestou. A chave est aqui. Ele s no quer que voc se esquea de levar bastante mantimentos, pois pode ficar presa pela neve. Quanto ao resto, no precisa
se preocupar: o chal tem gerador prprio e todas as comodidades modernas. J telefonei para mame e pedi emprestado o carro dela. Ela vir para c no domingo. Portanto,
no sbado faremos as compras necessrias.
       Quanto mais pensava no chal de Terry, mais Helen gostava da idia de ir para l. Talvez pudesse usar a Esccia como cenrio para parte de seu livro, um romance
onde histria e fico se misturariam, estendendo-se desde os tempos de Henrique II at os atuais. A pesquisa bibliogrfica j estava pronta, e nada havia que a
impedisse de fazer seus personagens visitarem ou mesmo morarem na Esccia.
       A semana passou sem que tivesse notcias de Race, mas isso no diminuiu sua ansiedade. Perdeu peso e andava to nervosa que at Jennifer notou. Parecia estar
vivendo no topo de um vulco prestes a entrar em erupo, to tensa e vulnervel se sentia. E com a lembrana de como se sentira nos braos de Race mantendo-a insone
parte das noites, estava a ponto de entrar em histeria.
       Jennifer tambm no ajudava, com sua atitude. Em vrias ocasies chegara quase a lhe implorar que desistisse de ir para a Esccia, enquanto em outras mostrara-se
contente com sua ida. Certa de que ela estava sendo pressionada por Race, Helen cada vez mais se convencia de que estaria a salvo na Esccia. O chal de Terry era
longe demais para que ele a seguisse, abandonando o cargo de chefe do departamento de documentrios da televiso onde trabalhava to pouco tempo depois de t-lo
assumido.
       De acordo com seus planos, partiria naquele fim de semana e estava justamente pensando no que deveria levar, quando a prima entrou.
       - Voc chegou cedo, hoje. Aconteceu alguma coisa?
       - Meu chefe me deu algumas horas de folga. Ele quer nos levar para jantar, hoje  noite. No precisa me olhar assim! No  nenhum truque para fazer voc se
encontrar com Race. Terry s quer lhe dar as ltimas instrues sobre o chal. Ou isso, ou ele est com medo de sair sozinho comigo. - Jennifer riu, antes de acrescentar
num tom mais baixo: - No que ele no tenha seus motivos. Eu o amo tanto, Helen, e acho que ele j desconfiou disso. O nico problema  que no tenho a menor idia
do que ele sente por mim.
       Terry pegou-as s oito, levando-as ao restaurante de uns amigos italianos. A atmosfera era agradvel e descontrada, e Helen se viu respondendo naturalmente
s perguntas dele. Sempre gostara de Terry e suspeitava que ele no era to indiferente a Jen quanto fingia.
       - Eu fiz um roteiro do caminho at l - Helen lhe disse, durante a sobremesa. - Minha tia vai me emprestar o carro, um Mini.
       - Um Mini? Ummm... O tempo  duro l em cima. e voc pode ficar presa pela neve. Mas Jen me disse que voc no  do tipo que tem medo da solido.
       - De jeito nenhum. Faz tempo que voc tem o chal?
       - Dois anos. Comprei-o com um amigo, e costumamos us-lo como um refgio.
       - Pena que ele s tenha um quarto - Jen comentou, com um arzinho provocante. - Seno eu ia sugerir que me levasse junto, da prxima vez que for.
       - Talvez eu leve mesmo - Terry concordou, brincalho. - Voc pode dormir no sof da sala.
       Helen sorriu, ao perceber que o rapaz no era to indiferente assim a Jennifer, e sim esperto o bastante para no facilitar demais a conquista. Jen que se
cuidasse!
- Mas j est na hora de irmos para casa, garotas. Tenho que estar no estdio amanh, s seis da madrugada. Voc  que  feliz, no tendo que trabalhar aos sbados
- Terry acrescentou, dirigindo-se a Jennifer. E vohando-se para Helen: - Antes que eu me esquea, no h telefone no chal, s numa fazenda a uns dez quilmetros
de distncia.

       Sbado foi um dia ocupado. Elas passaram a manh fazendo compras, e a montanha de mantimentos que resultou fez Helen duvidar de que pudesse colocar tudo no
Mini.
       - Leite em p, farinha, ch, ovos, caf... - Jennifer conferiu. - Compramos o essencial, pelo menos.
       - Isso vai dar para mais de um ms. Terry disse que h um fogo a gs, para o caso de o gerador falhar, no disse?
       - Alm de muita lenha para a lareira. Parece bem primitivo. Tem certeza de que quer mesmo ir?
       - Claro que tenho - Helen declarou, com firmeza. - O que mais falta? No posso me esquecer dos meus livros de pesquisa. Ah, e preciso comprar umas roupas
de baixo bem quentes!
       - O que voc precisa  de alguns jeans e suteres novos. Depois do almoo, vou lev-la a uma butique que tem coisas lindas!
       - Sem dvida a um preo mais lindo ainda! - Helen protestou.
       No fim da tarde Helen estava exausta. Jennifer devia t-la arrastado por quase todas as lojas de Londres. E o pior era que s comprara meia dzia de suteres,
duas calas de veludo, um casaco acolchoado e um par de botas de borracha, forradas de l de carneiro.
       - Comprei um presente de despedida para voc - Jennifer anunciou, quando entravam no apartamento. E colocando os embrulhos que carregava sobre o sof, pegou
um deles e abriu-o.
       - Oh, Jen, isso deve ter custado caro! - Helen censurou-a, ao ver o delicado conjunto de calcinha e suti, feito com seda e rendas.
       - Mas vale a pena. Voc vai usar jeans praticamente o tempo todo que estiver l, e no h nada como roupas de baixo sexies para fazer uma mulher se sentir
"toda mulher".
- Talvez eu no queira me sentir "toda mulher"! - Helen retrucou. Tivera uma boa dose dessa sensao nos braos de Race Williams e no pretendia renovar a experincia.
Em todo caso, a prima s quisera ser gentil, e seria uma indelicadeza criticar o presente, por mais que ele estivesse em desacordo com o lugar para onde ia.

       As duas garotas punham a mesa para o jantar, quando Lydia Murray chegou. Ela cumprimentou a filha e a sobrinha com beijos calorosos, dando notcias de toda
a famlia.
       - Est gelado l fora - comentou, momentos depois, quando Helen lhe servia um prato de sopa. - Tem certeza de que quer mesmo ir para a Esccia, Helen? Vou
ficar preocupada com voc dirigindo daqui at l. Ainda no entendi por que resolveu fazer essa viagem,
       - Ela est fugindo de um homem - Jen explicou, com malcia. E vendo o olhar perplexo da me, acrescentou, rindo:
       - Voc sabe, um homem daquele tipo que faz a gente ficar com os joelhos moles. Ele fez Helen descobrir o significado da palavra sex-appeal, e ela agora est
fugindo dele.
       - No brinque assim com a sua prima - Lydia protestou. - Isso no pode ser verdade. Helen  uma garota sensata. Sensata!
       Um sorriso sem humor surgiu nos lbios de Helen.
       Se sua tia soubesse! A vida inteira, por causa de sua natureza sria, fora chamada de prtica e sensata, mas desde seu encontro com Race Williams no se sentia
nenhuma dessas coisas. Muito pelo contrrio! Jennifer, naturalmente, sendo uma incurvel romntica, achava que sua relutncia em rever Race vinha do fato de ter
descoberto que no era imune a ele. Sua prima no fazia idia da angstia c do medo que a dominavam cada vez que se lembrava de como se sentira nos braos dele.
Depois de sua desiluso na adolescncia, jurara a si mesma que homem algum seria capaz de mago-la de novo, e fora assim at... at Race Williams tocar em seu corpo
e incendi-lo, destruindo as barreiras que construra com tanto cuidado.
       Sabendo que teria uma longa viagem pela frente no dia seguinte, Helen foi para a cama cedo. A tia e a prima levantaram-se para tomar o caf da manh com ela,
acenando-lhe depois na calada, at que dobrasse a esquina.
       Uma vez na autopista, uma parte da tenso que vinha sentindo desapareceu. Houvera uma grande queda da temperatura durante a noite, e ela no abusou da velocidade,
dirigindo com cuidado e parando para almoar um pouco antes de chegar ao Lake District, no pub de uma aldeiazinha.
       Revigorada pelo descanso e pela comida, continuou a viagem, refletindo que teria que percorrer uma distncia bem maior do que imaginara ao sair de casa. E
quanto mais para o norte avanava, pior ficava o tempo, com cada vez mais flocos de neve danando de encontro a seu pra-brisa. Resolveu parar e tomar uma xcara
de caf num posto  beira da estrada, sendo informada, pelo dono do local, de que uma nevasca estava prevista para o dia seguinte. Nessa altura, no entanto, j estaria
a salvo no chal.
       A noite caiu bem antes que chegasse a Fort William, dirigindo por uma estrada que parecia uma fita escura, em meio  paisagem branca. Pensou em passar a noite
ali, mas depois lembrou-se do que o dono do posto dissera sobre a previso de uma nevasca, e achou melhor continuar do que se arriscar a ter que voltar para Londres
no dia seguinte, devido ao fechamento das estradas. Alem disso, s faltavam quarenta quilmetros para chegar a seu destino.
       Os quarenta quilmetros mais longos de sua existncia, refletiu, exausta, depois do que lhe pareceram horas dirigindo em meio  escurido, numa estrada quase
deserta, cercada pelo silncio dos campos e montanhas cobertos de neve. Afinal encontrou a placa indicando o caminho para a aldeia mais prxima do chal, uma estradinha
assustadoramente ngreme, que corria entre bancos de neve de quase dois metros de altura.
       A aldeia, como logo descobriu, no passava de algumas casas reunidas em torno de uma loja e um posto de gasolina, este ltimo brilhantemente iluminado. Aliviada,
estacionou diante dele; no pretendia ir mais longe, a menos que tivesse certeza absoluta de que possua condies para isso. A neve rodopiou em torno de seu corpo,
quando abriu a porta do Mini, e o homenzinho que saiu do escritrio para ir atend-la logo ficou coberto de pesados flocos.
       -  para o chal McDonald que voc vai? - ele perguntou, no tom cantado dos habitantes das Terras Altas. - Duvido que consiga chegar l nesse carro, mocinha.
       O desapontamento que sentiu deve ter transparecido em seu rosto, porque de imediato ele acrescentou:
       - No vou prometer, mas talvez d para chegarmos l no meu Land Rover. Se quiser esperar eu fechar o posto, podemos tentar. Vai ficar muito tempo?
       - Dois meses. O chal  de um amigo da minha prima. Eu... eu sou escritora - Helen disse, sentindo que era necessria uma explicao para sua vinda. Tendo
vivido com os tios numa aldeia semelhante quela, conhecia bem a curiosidade de seus habitantes.
       - Oue coincidncia! - Sem explicar o porqu desse comentrio, o homem terminou de fechar o posto e abriu a porta do Mini, comeando a transferncia de suas
coisas para o Land Rover. - Voc veio bem preparada. Foi bom, porque a loja da sra. Mac fica a uns dez quilmetros do chal, a p. No se preocupe com o seu carro.
Ele fica aqui, e quando o tempo melhorar, eu arranjo algum para lev-lo at l. Vamos indo?
       A estrada para o chal era ngreme e coberta por quase trinta centmetros de neve em algumas partes, mas o Land Rover segua firme, embora derrapasse de vez
em quando, fazendo-a engolir em seco. Durante a viagem, a queda de neve tornou-se mais intensa, cobrindo o pra-brisa e tirando a viso do cenrio em volta. Em certo
ponto, eles comearam a descer, mas logo retomaram a subida, e num dado momento Helen vislumbrou um brilho de gua  luz das estrelas.
       - Aquele  o lago - o homem anunciou. - O chal est perto, agora.
       O "perto" ficava a quase dois quilmetros, e Helen apertou os dentes enquanto sacolejavam pelo que s podia ser uma trilha de fazenda.  luz do Land Rover,
o chal apareceu junto  encosta de uma colina, sombrio e nem um pouco convidativo. Abrindo a bolsa, ela procurou a chave. Seu companheiro, que se apresentara como
Fergus, j descarregava sua bagagem. Recusando com firmeza sua ajuda, ele lhe disse que fosse abrindo a porta.
       Para sua surpresa, o chal estava quentinho.
       - A Sra. MacNeil deve ter vindo ligar o aquecimento - Fergus lhe disse. - A fazenda dela  a mais prxima daqui. Assim que o tempo melhorar, eu mando avisar
que voc chegou.
       - E olhando em torno com ar de dvida, ele acrescentou: - Tem certeza de que quer ficar?
       Por um momento, Helen no soube o que dizer, mas depois lembrou-se de que no havia sentido em vir at ali para voltar no ltimo instante. O gerador estava
em ordem, a casa quente, trouxera mantimentos em abundncia e no tinha nada a temer, a no ser a prpria companhia. Enquanto que, se voltasse para Londres...
       - No se preocupe comigo, eu vou ficar bem - garantiu.
       - Gostaria de lhe oferecer uma xcara de ch, mas ainda no sei onde esto as coisas por aqui. Se quiser esperar...
       Alegando que j era tarde, Fergus recusou o convite e partiu. Helen fechou a porta, sentindo-se horrivelmente solitria.
       Uma hora depois, j tinha desfeito as malas e explorado todo o chal. Os armrios e a geladeira estavam muito bem estocados, o que a levou a imaginar que
Terry devia ter telefonado e pedido  Sra. MacNeil para ajud-la. A cozinha era antiquada, com cho de pedra e uma enorme mesa de madeira, no centro. A sala, surpreendentemente
espaosa, fora decorada em tons de verde e marrom. Uma escada de madeira levava ao segundo andar, onde ficavam um banheiro e o nico quarto. Curiosamente, para um
local to isolado e pouco freqentado, todos os cmodos tinham ar de estarem sendo usados, o que lhe pareceu reconfortante.
       De volta  sala, Helen estudou a mesa, tentando decidir se seria melhor trabalhar ali ou na cozinha. Sua mquina de escrever estava no cho, e notando um
lugar vago na estante que cobria uma das paredes, resolveu guard-la nele, at o dia seguinte. Um armrio sob a ltima prateleira da estante estava trancado, o que
a fez imaginar a razo. Havia tambm ali um sofisticado aparelho de som, na sua opinio caro demais para ficar num chal que s era usado uma ou duas vezes por ano.
       Sentindo-se de repente extremamente cansada, Helen foi at a janela e olhou para fora. A neve caa com maior intensidade, e a velocidade do vento aumentara.
Imaginando se o sistema de aquecimento do chal tambm produzia gua quente, ela apagou as luzes e subiu. Naquele momento, nada poderia lhe parecer mais atraente
do que um bom banho, seguido de uma longa noite de sono.
       Horas depois ela acordou, seu saber o que a perturbara, se ouvira mesmo ou tinha sonhado com o barulho de um Land Rover se aproximando. Minutos depois, quando
o nico som audvel em meio ao silncio que a rodeava eram as batidas de seu corao, decidiu que s podia ter sonhado.
       Bem, o importante era que tinha conseguido. Escapara! Agora, poderia esquecer-se definitivamente de Race Williams e dedicar-se a seu novo trabalho: o livro.

      CAPTULO IV

       Foi a intensa claridade do dia que a acordou, ferindo seus olhos, fazendo-a piscar enquanto olhava para a janela. Esquecera-se de fechar as cortinas, na noite
anterior. Empurrando as cobertas para o lado, ela notou que o travesseiro ao lado do seu tambm estava amarrotado, como se tivesse tido um sono agitado. Uma coisa
que vinha acontecendo com freqncia, desde que conhecera Race Williams, mas pensara que tinha dormido bem, na noite passada. Ficara at com uma sensao gostosa,
de calor e segurana.
       Deixando a cama, caminhou descala at a janela. A beleza do cenrio l fora fez com que prendesse a respirao. Tudo estava branco, nada se movia. Da estrada
em que viera no havia o menor sinal, e uma exclamao abafada escapou-lhe dos lbios, quando percebeu que estava completamente bloqueada, invisvel sob o manto
de neve que havia coberto o chal e os arredores.
       Um leve "click" atrs de si a fez voltar-se, empalidecendo ao reconhecer o homem parado na porta, usando um roupo curto, com os cabelos ainda midos de um
banho, e equilibrando numa das mos uma bandeja com duas xcaras de caf.
       - Ento, voc acordou. Pensei que fosse dormir para sempre.
       Involuntariamente, Helen fitou a cama, o pesado acolchoado, os dois travesseiros amarrotados, as roupas jogadas sobre uma cadeira, que no notara antes. Respirando
fundo, certa de que s podia estar tendo uma alucinao, lutou para sufocar a onda de pnico que a invadiu. Mas no, no se tratava de uma alucinao. Ele eslava
ali, em carne e osso, obscrvando-a com aqueles olhos cinza que pareciam enxergar tanto.
       - No ganho nem um "bom-dia"?
       Helen estremeceu, sabendo que ele zombava dela, louca para investir numa srie de perguntas indignadas, mas a nica frase que seus lbios conseguiram formar
foi uma acusao sussurrada:
       - Voc me enganou!
       O homem de quem tanto quisera fugir estava ali, naquele quarto com ela, usando um roupo que se abriu quando ele se inclinou para colocar a bandeja sobre
uma mesinha, dando-lhe a certeza de que aquela era a nica roupa que o cobria. A idia de que Jennifer tinha algo a ver com a presena dele passou-lhe pela mente.
Tola, romntica Jen, que na certa pensara estar lhe fazendo um favor!
       - Sua prima parece pensar que somos uma espcie de amantes desencontrados - ele zombou, como se tivesse adivinhado o rumo de seus pensamentos.
       - Porque voc a encorajou a pensar assim - Helen retrucou, tensa. Como pudera ser to tola? Tivera inmeros sinais de que as coisas no eram bem o que deveriam
ser. Jen lhe perguntara vrias vezes se queria mesmo vir para o chal, na certa sentindo-se culpada e querendo lhe dar a oportunidade de recuar. E Terry tambm se
mostrara meio nervoso, na noite em que as levara para jantar. - Por qu? - perguntou, afinal, zangada. - Por que teve todo esse trabalho? Devem existir dezenas de
mulheres que...
       - ...iriam para a cama comigo? Eu sei, mas  voc que eu quero. Desde o momento em que vi as fotos que seu agente apresentou, para o contrato com a Rio. Terry
e eu somos amigos h anos, e quando descobri que Jennifer era sua prima, achei que seria melhor conhecer voc atravs dela do que usar a minha posio na Rio. Por
falar nisso, por que desistiu do contrato?
       Deus do cu, ele no tirava os olhos de seu corpo, no deixando que se esquecesse da transparncia de sua camisola e da posio vulnervel em que se achava!
       - Pensou mesmo que eu no desistiria, depois do modo que tentou me subornar? Acha que eu haveria de querer o contrato, nesses termos? Nunca usei meu corpo
desse modo. Nunca!
       - Mas voc usa seu corpo para deixar os homens loucos, no usa, Helen? Usa-o para prend-los, antes de destruir-lhes o ego. J  tempo de algum lhe mostrar
que no pode vencer sempre; que no pode dar aos homens o sinal verde que d, para depois arras-los. Comigo no vai ser assim. J consegui que fugisse apavorada,
no consegui? Quando Jennifer me contou que voc pretendia se refugiar num lugar sossegado, para "escrever", soube de imediato o que devia fazer.
       Ele estava se gabando diante dela, revelando o modo sorrateiro como a manipulara, e Helen sentiu a raiva crescer dentro de si.
       -  assim que voc ? Um homem que s consegue o que quer com trapaas e enganando as pessoas? Terry mentiu para mim. Ele me disse que tinha esse chal com
um amigo!
       - O que  verdade; o amigo sou eu. E se isso lhe serve de consolo, saiba que tive que dar duro para convenc-lo a me ajudar. Ele acha que sou mais um companheiro,
vtima das setas de Cupido, e por isso acabou concordando.
       - E agora que voc me tem aqui, o que pretende fazer? - Helen perguntou, dominando a histeria. - Me violentar?
       - Bem que voc gostaria que eu fizesse isso, no ? Assim, reforaria seu dio pelo meu sexo. Porque voc nos odeia, Helen. E usa a sua beleza para se vingar.
Posso saber por qu?
       Race era esperto demais! No podia continuar ali. Ele poderia destru-la, e o que temia no era uma rendio fsica, mas algo muito mais perigoso. Que ele
queria destru-la, no tinha a menor dvida. Por que outro motivo teria se dado ao trabalho de sair do chal quando ela chegara, garantindo assim que no partisse?
Mas ela partiria. A aldeia ficava a poucos quilmetros, e seria capaz de fazer qualquer coisa para se livrar dele. Qualquer coisa!
       - Eu vou embora - declarou com voz rouca. - Assim que me vestir, vou embora!
       - Impossvel. Est prevista uma nevasca, e voc morreria congelada antes de andar dois quilmetros. Pode tentar, se quiser, mas eu irei atrs de voc e, de
ns dois, sou o que tem mais energia. - Um sorriso irnico surgiu nos lbios dele. - No fundo, voc  uma covarde, no? Por que est com medo de mim? No passo de
outro homem, outra vtima a ser torturada, como voc adora fazer. Ou o problema  que est com medo de si mesma?  isso, no ? Nenhum dos homens que passaram por
sua vida conseguiu atingir a mulher verdadeira, que existe em seu ntimo. Eles podem ter possudo seu corpo, mas isso no tinha importncia, porque voc o estava
usando como isca, para lev-los  destruio.
       -  verdade - Helen admitiu -, mas no ser diferente com voc, no importa o que pense. Eu vim para c porque queria trabalhar, porque estava cansada de
homens como voc, que acham que podem me comprar. Voc pode me manter aqui  fora, pode at me violentar, mas eu no quero voc e nunca vou querer!
       - Ento, vou ter que fazer com que mude de idia...
       Helen viu-o fitar seus seios e, por um instante, foi tomada pela lembrana do que sentira, quando ele os tocara.
       - Voc vir para mim de livre e espontnea vontade, eu lhe garanto - ouviu-o dizer, com um brilho febril nos olhos que percorriam seu corpo. - Agora, tome
seu caf e trate de se vestir, se no quer ficar doente. Este quarto no tem aquecimento. Mas, no se preocupe, que no vai passar frio, mesmo que o gerador deixe
de funcionar com a nevasca. Temos um belo fogo l embaixo e,  noite, podemos aquecer um ao outro.
       - Eu no vou dormir na mesma cama com voc!
       - Pode ser que no durma esta noite, mas eu no sou um cavalheiro, Helen, e no vou desistir do que quero.
       Race entrou no banheiro sem lhe dar chance de responder, e ela logo ouviu o barulho de gua correndo. Como conseguira se meter naquela situao? Ele a manipulara
de um modo quase diablico, sendo ajudado no s por Jen, como tambm pelo tempo. Naquelas condies, seria puro suicdio tentar caminhar at a aldeia. No entanto,
se ficasse...
       Passou-lhe pela mente que tudo que tinha a fazer era contar-lhe a verdade, admitindo abertamente que no possua a menor experincia sexual. Se fizesse isso,
com toda certeza estaria a salvo, mas seu orgulho impediu-a, pois seria o mesmo que dizer-lhe, com todas as letras, por que o temia, como era intensa sua reao
fsica a ele.
       Race havia lhe garantido que no a foraria a nada e provavelmente fora sincero. Queria que o procurasse espontaneamente e tinha bastante confiana na prpria
atrao sexual, para acreditar que isso aconteceria, e ficaria  espera. Portanto, desde que a neve derretesse logo e pudesse resistir  fora da atrao masculina
sobre seus sentidos, nada tinha a temer. Porque era bom no se iludir; corria um grande perigo, no que se referia a Race Williams. Seno, que motivo teria para deixar
Londres?
       Helen ouviu a porta do banheiro se abrir e enrijeceu, vendo Race surgir.
       -  bom voc vestir algo quente - ele aconselhou, indo at a cmoda e tirando um par de meias e uma cueca, de uma das gavetas. - O aquecimento est funcionando,
mas no como deveria.
       Mesmo ouvindo-o falar naturalmente, sem a presso sexual de costume, Helen sentiu suas emoes se agitarem e alegrou-se por ter vestido o velho roupo que
herdara dos gmeos. Fingindo um ar casual, pegou roupas limpas e foi para o banheiro, notando, aliviada, que a porta possua uma tranca.
       Estava tensa demais para demorar debaixo do chuveiro e saiu logo, vestindo-se com mos trmulas. Como sempre fazia quando no estava trabalhando, no se maquilou,
limitando-se a escovar os cabelos e prend-los na nuca. Ordeira por natureza, viu-se arrumando a cama quase que por hbito. Terminava de colocar o acolchoado, quando
um sexto sentido preveniu-a de que Race voltara, fazendo-a erguer os olhos e endireitar o corpo.
       - No deu certo, Helen - ele declarou, depois de examinar seu rosto e o modo como se vestira, com um suter e cala de veludo. - Sei que prendeu os cabelos
e no se maquilou, pensando em diminuir meu... entusiasmo, mas o resultado foi exatamente o contrrio. Maquilada, voc  uma mulher belssima, mas de cara lavada
tem uma sensualidade primitiva, extraordinria!
       Mas que atrevimento! Seria possvel que achasse mesmo que no se maquilara por causa dele?
       - Caso tenha se esquecido - ela disse, dirigindo-se  porta -, vim para c pensando em trabalhar. E  exatamente o que pretendo fazer!
       - Ah, seu livro... Por mim, est timo. Eu tambm estou escrevendo um. - Vendo-lhe a expresso, ele sorriu. - No  mentira. Meus negcios so bastante diversificados,
agora, mas eu ainda escrevo. Esse foi um dos motivos que me levaram a comprar o chal. Eu vinha para c de qualquer modo e quando soube que voc estava  procura
de um refgio...
       - Estou surpresa por ter se dado a tanto trabalho. Nunca pensei que pudesse querer distraes.
       Race riu, obviamente divertido.
       - Pobre Helen! Se voc espera que eu passe o dia todo tentando lev-la para a cama, vai ficar desapontada. Nada me distrai, quando estou trabalhando. Naturalmente,
voc pode tentar, se quiser.
       Fumegando de raiva, Helen desceu.  luz do dia, a sala pareceu-lhe mais atraente. Alguns papis e uma mquina de escrever ocupavam a mesa, confirmando que
Race no brincara ao dizer que pretendia trabalhar. O que por ela estava timo, decidiu, carregando suas coisas para a mesa da cozinha.
       - Eu j tomei caf.  bom voc comer alguma coisa tambm, antes de comear a trabalhar.
       Helen deu um salto ao ouvir a voz dele, deixando cair vrios livros. Para um homem to grande, Race movia-se de uma forma extraordinariamente silenciosa.
       - Meu Deus, mas voc est nervosa, hein?!
       Race abaixou-se para pegar os livros, e ela se forou a ficar imvel, enquanto ele os empilhava em seus braos, roando a ponta de seus seios com os dedos.
Deliberadamente,  claro, sem dvida consciente de que seu corpo registrava cada contato com todas as terminaes nervosas.
       Como pudera se julgar uma mulher fria? Por dentro estava queimando de vontade de toc-lo, deslizar as mos pelo peito rijo, sentir o gosto da pele masculina.
       - Sobre o que  o seu livro? - Race deu um passo para trs, libertando Helen do encanto de sua proximidade, permitindo-lhe raciocinar sem ter a mente embotada
por reaes fsicas.
       - A saga de uma famlia. Mas ainda no o comecei direito - ela respondeu, j em dvida sobre sua capacidade de mant-lo  distncia. Mas tinha que conseguir.
Tinha!
       - Pelo que vejo, voc fez uma boa dose de pesquisa.
       Falando daquele jeito amigvel, interessado. Race lhe pareceu um outro homem, impossvel de ser associado com o sujeito brutal que lhe dissera, momentos atrs,
que ela o procuraria espontaneamente. No agentaria por muito tempo aquelas mudanas rpidas de humor. Eram estafantes demais para suas emoes.
       No estava com fome, mas forou-se a comer alguma coisa, o tempo todo consciente da movimentao dele, na sala. Quase saltou da cadeira, quando ouviu o barulho
da mquina de escrever. Devia estar mesmo tensa, para se assustar com um barulho daqueles. Tentando concentrar os pensamentos no livro que iria escrever, levantou-se
para lavar a loua. Precisava sentir a emoo de seus personagens, dar-lhes vida na imaginao.
       - Vou dar uma olhada no gerador.
       Mais uma vez, ele conseguira peg-la de surpresa, e ela o seguiu com os olhos, vendo-o parar junto  porta para colocar botas de borracha e um casaco grosso,
antes de sair. L fora, o tempo havia piorado bastante, e o caminho at o gerador achava-se totalmente coberto de neve.
       - Bem que os MacNeil me avisaram que isso podia acontecer, quanto estive l, ontem  noite - Race comentou, voltando para pegar uma p.
       Os MacNeil! Ento fora l que ele ficara esperando sua chegada.
       Helen estremeceu, e no s por causa do ar frio que enchia a cozinha. Mais uma vez, seus olhos se fixaram no homem  sua frente, admirando a facilidade com
que ele trabalhava, quase que hipnotizada pelos movimentos do corpo masculino. A neve estava mais profunda do que imaginara, e ele levaria um bom tempo para limpar
o caminho. Talvez devesse se oferecer para ajud-lo.
       Foi o que fez, se bem que hesitante.
       - Qual  o problema? - ele respondeu, zombeteiro. - Est com medo de que eu me perca l fora e voc fique sozinha?
       Resmungando baixinho que era isso mesmo que desejava, Helen pegou um de seus livros de pesquisa e comeou a estudar. Race fechara a porta, e no podia mais
v-lo. Quanto tempo ele levaria para chegar ao gerador? Lanou um olhar para o relgio, tentando abafar a ansiedade crescente,  medida que vinte minutos, depois
meia hora, se passaram. Para se tranqilizar, s tinha que abrir a porta e ver onde ele estava, mas o orgulho a impedia. Imagens cada vez mais tenebrosas comearam
a atorment-la. E se Race tivesse se ferido?
       Uma onda de pnico invadiu-a. A luz que acendera para trabalhar piscou, e ela olhou apreensiva para a porta, censurando-se mentalmente quando a folha de madeira
se abriu e ele entrou, enchendo a cozinha com sua presena e o cheiro msculo de seu corpo.
       - O gerador vai parar logo - ouviu-o dizer, enquanto tirava o casaco. - Ainda bem que temos bastante lenha. O nico problema  que o fogo s vai aquecer a
sala.
       J sem botas e cansado. Race aproximou-se da mesa, parando atrs de Helen e inclinando-se para ler o ttulo do livro que ela estudava, as mos apoiadas de
cada lado de seu corpo e a respirao tocando-lhe a nuca. Consciente de que ele brincava com suas emoes de propsito, Helen se retraiu imediatamente.
       - Precisamos organizar os trabalhos domsticos - disse ele surpreendendo-a. - Que tal eu fazer o almoo e voc, o jantar? Amanh, podemos trocar.
       Helen concordou, escondendo seu espanto. No estava acostumada com homens que dividiam o trabalho domstico, pois nunca vira o tio e os primos levantarem
um dedo, em casa, e jamais chegara a partilhar qualquer intimidade com os outros homens de sua vida.
       Algum tempo depois, ela se levantou para fazer um ch. Na sala. podia ver Race examinando alguns papis, completamente absorto. Deveria lhe oferecer uma xcara?
No seria mais sensato tentar estabelecer um relacionamento amigvel, em vez de permanecer naquela hostilidade? Pensando nisso, pegou a lata de ch e tentou abri-la,
mas a tampa resistiu a todos seus esforos. Impaciente, colocou-a sobre a mesa e foi desligar o fogo, pois a gua j fervia.
       - Algum problema?
       Ela no ouvira Race entrar, mas virou-se a tempo de v-lo destampar a lata, aparentemente sem o menor esforo. Um estremecimento percorreu-a da cabea aos
ps, quando pensou no poder daqueles dedos longos.
       - Algumas coisas exigem sutileza, no fora - ele comentou, como se tivesse lido sua mente. E acrescentou, examinando-a de alto a baixo e fazendo-a corar:
- Qual  a sua altura? Um metro e oitenta?
       Helen comprimiu os lbios.
       - Na verdade, eu tenho um metro e setenta e oito - disse, certa de que ele percebera o quanto era consciente da prpria altura. - Quer uma xcara de ch?
       Race fez que sim, e ela pegou mais uma xcara, imaginando por que todo local em que ele entrava parecia encolher. Momentos depois, levando uma xcara de ch,
ele voltou para a sala.
       De novo sozinha, Helen se ps a bebericar seu ch, sentindo os msculos tensos comearem a relaxar. Ainda no havia superado o choque de levantar, aquela
manh, e descobrir Race Williams em seu quarto. O destino no poderia ter lhe reservado um golpe mais cruel!
       - Por que voc fica to tensa quando falam de sua altura? - Race perguntou a poucos passos, sobressaltando-a novamente. -  a sua altura que a torna to agressiva?
Talvez seja hora de algum lhe ensinar que as amazonas tambm so mulheres.
       - E voc na certa se julga o homem certo para isso, no ? Nunca lhe passou pela cabea que uma mulher pode no precisar de um homem, para ter conscincia
da prpria feminilidade?
       - Nunca! E no venha me dizer que voc no precisa. Voc pode no admitir, mas no  imune ao desejo sexual, Helen. - Com um gesto rpido, Race abraou-a
pelas costas, prendendo-a de encontro ao corpo.
       - Me solte!
       - S quando eu achar que est na hora. Por que insiste em me rejeitar? Eu sei que no  indiferente a mim.
       E no era mesmo. A prova estava na conscincia que tinha da proximidade, do calor e da fora do corpo dele. Seu corao batia como louco, e a necessidade
de se submeter  sensualidade que emanava de Race comeou a domin-la. Mas tinha que resistir! No podia ceder a um homem que s a considerava uma diverso momentnea.
       Quando Race deslizou as mos para cima, explorando a forma de seus seios, Helen teve que lutar para no reagir, para no trair seu tormento com uma respirao
alterada. Ele no estava apenas tocando seu corpo, mas usando cada grama do poder mental que possua para domin-la e subjug-la.
       - Voc me quer, Helen - ele murmurou de encontro a sua orelha, traando-lhe o contorno com a ponta da lngua. - Pare de lutar contra mim - disse, girando-a
nos braos e beijando-a na boca, dando-lhe um prazer to grande que a fez estremecer de horror.
       E Race sabia exatamente o que estava lhe fazendo. Seno, por que deixaria escapar aquela exclamao de triunfo, enquanto deslizava as mos possessivas por
seu corpo?
       - Quando eu a levar para a cama, quero que v de livre e espontnea vontade, desejando sentir o meu corpo contra o seu, tanto quanto desejo sentir o seu contra
o meu - ele disse. - Quero sua rendio total, Helen. No vou aceitar nada menos que isso.
       E de repente, ela se viu livre. Era bvio que Race pretendia brincar com suas emoes, at subjug-la por completo. Mas preferia morrer a deixar que isso
acontecesse. No aprendera, anos atrs, que uma mulher s recebia dor e sofrimento, quando se entregava a um homem?
       - Quero possuir seu corpo e sua alma - Race prosseguiu, - E vou conseguir, Helen.
       Por um instante, ela vislumbrou o homem por trs da fachada fria e zombeteira, e seu corpo respondeu instintivamente  necessidade sexual expressa na voz
dele. Respirou fundo, lutando para se dominar, mas mais de cinco minutos se passaram, antes que se sentisse calma o bastante para voltar ao trabalho. Inexplicavelmente,
comeou a achar a vida de suas personagens montona e desinteressante e teve que se esforar para se concentrar nelas, algo que nunca lhe acontecera, antes de encontrar
Race. Ele a dominava e assustava, com as reaes que despertava em seu corpo. Seria to fcil ceder, entregar-se de corpo e alma ao desejo, deixando-o dirigir sua
vida.
       Mas, se cedesse, teria que eventualmente enfrentar o fato de que Race no mais a desejava, como j vira acontecer com outras garotas, em relacionamentos como
aquele. No, teria que estar louca para ceder, principalmente sabendo que ele a atrara ao chal para faz-la pagar por t-lo rejeitado,
       Helen comeou a trabalhar, devagar a princpio, mais depressa a medida que seus nervos relaxavam, embalada pelo som da mquina de escrever na sala ao lado,
uma prova de que Race no mentira ao dizer que nada conseguia distra-lo, quando se concentrava em alguma coisa. Gradualmente, suas personagens readquiriram o velho
encanto, e ela se assustou mesmo quando a sombra de Race caiu sobre seu livro de anotaes. Num gesto protetor, cobriu com a mo o que escrevera, pois no queria
que ele visse e criticasse. Mas. para sua surpresa, ele no fez nenhum dos dois, estudando sua expresso hostil por um momento, antes de comentar:
       - Terry me contou que voc comeou a escrever na adolescncia, como eu. Minha me queria que eu fosse mdico, e ficou desapontada quando arranjei um emprego
num jornal, mas eu sempre quis escrever.
       A me dele? Estranho que ele mencionasse a me e no o pai.
       - Mas voc acabou largando o jornalismo.
       - Porque eu j tinha atingido o mximo que poderia. J havia perdido o excitamento, aquela vontade de fazer uma reportagem, por mais difcil que fosse. Tambm
j vira mais que o suficiente de pases estrangeiros, arruaas polticas, guerras e crianas aleijadas. Foi por isso que parei e comecei a escrever, entre outras
coisas. O que voc quer, para o almoo?
       Foi uma pergunta to banal, que Helen quase riu. Eles poderiam ser duas pessoas h muito casadas, trabalhando confortavelmente juntas, partilhando...
       - Pode ser uma omelete?
       - Claro!
       Em vo ela tentou no observ-lo, enquanto ele preparava a refeio, com rapidez e eficincia.
       - Est esfriando - ouviu-o comentar logo depois, entregando-lhe o prato que pedira. - No sei se  um problema com o gerador ou  a temperatura que est caindo.
       No instante seguinte, as luzes piscaram, terminando por se apagar de vez.
       - Droga,  o gerador! Espere aqui. - Levantando-se, Race foi at um armrio e pegou dois antiquados lampies a querosene. - Roy MacNeil me emprestou esses
lampies o ano passado. Com um pouco de sorte, talvez eu consiga acend-los.
       Sem a eletricidade, o chal estava escuro e esfriando rapidamente. Helen estremeceu, apesar das roupas quentes que usava, e a noo do frio que teriam que
enfrentar, sem o aquecimento central, atingiu-a.
       - Deixe que eu acendo esses lampies - ofereceu-se. - Meus tios moram numa aldeia e tm um desses, para emergncias. V ver se consegue ligar o gerador de
novo.
       Race entregou-lhe os lampies sem cerimnia, dirigindo-se  porta. Voltou depois de quinze minutos, com os braos cheios de lenha, e Helen sentiu o corao
apertar-se, ao perceber o significado daquilo. Ela j conseguira acender os lampies, e sua luz amarelada enchia a cozinha.
       - O gerador no tem jeito - Race comunicou. - Vou buscar mais lenha e o gs para o fogo. D para voc manter o fogo aceso? .Estranho, nunca pensei em voc
como uma pessoa prtica.
       - S porque sou modelo? Nunca pensei que voc fosse to previsvel.
       Ele riu do comentrio irnico, olhando-a picar papel para o fogo.
       -  bvio que voc no  s um rosto bonito e um corpo sexy. Fale-me da sua famlia; tem irmos?
       Ento, havia algumas coisas que Jennifer no lhe contara!
       - No. No  melhor voc ir buscar o gs?
       Helen j estava com o fogo bem aceso, quando Race terminou de ligar o gs ao fogo.
       - Nota dez - ele aprovou, segurando-lhe o queixo e passando o indicador pela ponta de seu nariz, antes que ela pudesse protestar. - Uma mancha de fuligem.
Por que voc no gosta de falar de si mesma?
       Oh, por que ela sempre tinha que cair na armadilha, relaxando um momento para ser pega de surpresa no seguinte, com uma pergunta inesperada?
       - Eu? Por que acha isso?
       - Voc, sim. Responder uma pergunta com outra  altamente defensivo. Por que se preocupa tanto em manter o mundo a distncia? Geralmente, essa  uma atitude
de pessoas que foram muito magoadas. Voc foi magoada?
       - Se eu fui ou no, no  da sua conta! - ela replicou, furiosa. Quem ele pensava que era, para lhe fazer esse tipo de pergunta? Um Freud amador?
       - Quando foi que isso aconteceu? Conte-me tudo.
       - Para qu? Para que voc possa rir de mim? Est bem, eu vou lhe contar. Eu fui magoada, e tudo por minha causa, porque fui louca o bastante para achar que
algum poderia me amar! Logo a mim, a garota de quem todos os rapazes adoravam caoar! Est feliz agora? - Sua voz elevou-se, soando alta e tensa. - Ouviu o que
queria? Seu crebro j est pensando em como tirar vantagem disso? Mas no vai adiantar nada! O que aprendi naquela poca me inoculou contra homens como voc...
       - E ningum mais vai ter a chance de feri-la, no ? - Race disse, em tom baixo. - Mas eu no quero ferir voc, Helen. Eu s quero fazer amor com voc.
       Seria possvel que ele no soubesse que era a mesma coisa? Que no fim ele acabaria por mago-la, quando a rejeitasse? Quando a fizesse am-lo? Um estremecimento
sacudiu-a de alto a baixo. Mas ele no falara em amor, s em possuir seu corpo. Qual era o problema com ela?
       - E seus pais? - Race prosseguiu. - Onde eles moram?
       - Meus pais esto mortos. Fui criada pelos pais de Jennifer. No quer saber tambm se meus dentes so todos meus?
       - So? - ele replicou, irnico. - Nunca vi uma pessoa to relutante em falar de si mesma, como voc!
       - No gosto de falar de mim para pessoas que esto me dissecando, na esperana de que eu baixe minha guarda e...
       - E o qu? Se lembra de que  uma mulher? - Race perguntou, levantando-se abruptamente e saindo.
       Sem o aquecimento central, a cozinha gelou, e Helen estava com tanto frio que no protestou, quando Race sugeriu que partilhassem a mesa da sala. Ele ajudou-a
a levar tudo para l, fazendo perguntas inteligentes e interessadas sobre seu trabalho. Em outras circunstncias, os dois poderiam ser amigos. Ela o admirava profissionalmente
e sabia que ele poderia lhe ensinar muitas coisas, se lhe pedisse. S no fazia isso por medo do pagamento que lhe seria exigido.
       Logo depois das seis, Race reclinou-se na cadeira e estirou os msculos cansados. No havia um grama de gordura suprflua em seu corpo, e Helen se viu imaginando
que tipo de esporte ele praticaria, para manter-se assim.
       - A que horas  o jantar? Ela olhou para o relgio.
       - Quando preferir. Quer comer agora?
       - Mas que pergunta capciosa! - Rindo dela, por ter corado. Race levantou-se e segurou-a pelos ombros, que de imediato enrijeceram. - Relaxe! Voc est tensa
como uma corda de violino. Veja s estes msculos. - Apertou-lhe os ombros. - No sente o quanto esto tensos?
       No adiantaria protestar que, at ele toc-la, estava perfeitamente bem. As mos masculinas j afastavam seus cabelos, insinuando-se por baixo de seu suter
para lhe massagear os ombros. Gostaria de dizer-lhe que parasse, mas as palavras no vinham, e um delicioso calor comeou a se espalhar por seu corpo. Dizendo-se
que seria melhor relaxar, fechou os olhos, inconsciente da mudana em sua respirao, indiferente a tudo, menos ao movimento sensual das mos de Race. Mos que ele
afastou de repente, inclinando-se para lhe beijar a nuca, antes de dizer:
       - Voc parece bem mais relaxada agora. Bater a mquina  que faz isso.
       - Muito obrigada.
       Deus. tomara que ele no adivinhasse o quanto seu toque a afetara!
       - De nada. Se voc for boazinha, eu lhe ensinarei como fazer massagem corporal...  muito teraputico.
       Vendo o divertimento no olhar dele, Helen corou, a mente cheia de imagens perturbadoras. Sabia que frases como aquela faziam parte de uma campanha proposital,
em que Race usava sua prpria vulnerabilidade para atingi-la, tornando-a consciente da presena fsica dele, apertando o cerco e depois recuando para logo em seguida
apert-lo mais ainda.
       Explicando que o fogo da lareira mantinha a gua quente Race subiu para um banho, enquanto Helen preparava um cozido de carne e legumes para o jantar. Voltou
quando ela j estava com tudo pronto, usando cala preta, de veludo, e uma camisa de seda, combinando.
       - Certos refinamentos no devem nunca ser abandonados - disse, vendo a surpresa dela. - Por que no segue meu exemplo? Algo como aquele vestido preto, que
usou na festa do estdio, seria perfeito!
       Helen sentiu vontade de soc-lo, pelo modo como a olhou. Como era possvel um nico homem despertar emoes to variadas e contraditrias em seu ntimo? Uma
parte de seu ser queria subir e refutar a insinuao de que no parecia feminina, colocando a roupa mais sexy que trouxera; outra, no entanto, queria deixar claro
a pouca importncia que dava  opinio dele, permanecendo exatamente como estava. No fim, terminou por lhe dizer que estava com muito frio para trocar de roupa,
o que no ficava longe da verdade. Ele devia ser bem mais resistente que ela, pois parecia perfeitamente  vontade em mangas de camisa.
       Enquanto Race lhe dizia que era tima cozinheira, Helen decidiu que tomaria um bom banho, antes de ir para a cama. O nico problema era saber onde iria dormir.
O sof da sala era pequeno, mas teria que servir.
       Para sua surpresa, Race insistiu em ajud-la a lavar a loua. Quando terminaram, ele foi se sentar junto ao fogo. com um livro nas mos. Por quanto tempo
teria a inteno de permanecer ali? Ela no poderia se deitar, enquanto ele no subisse.
       No armrio do quarto, Helen achou mais roupa de cama e dois cobertores leves, que no a aqueceriam muito, mas que eram melhor do que nada. No pegou o acolchoado,
porque sabia que Race o tomaria de volta. Ao descer, encontrou-o ainda lendo e foi para a cozinha, pensando em preparar um caf para ambos. A temperatura l havia
cado mais ainda, e ela ligou o rdio de pilhas que trouxera, para ouvir a previso do tempo.
       - V se sentar junto ao fogo. No pretendo pular em cima de voc e devor-la.
       Mais uma vez Race a pegara de surpresa, e, sem reao, Helen deixou-o terminar o caf e lev-lo para a sala.
       - Voc me intriga - ele comentou, quando j estavam sentados lado a lado. -  uma massa de contradies...
       - E porque eu o intrigo, voc me quer! - ela exclamou, zangada pelo modo como ele parecia despi-la com o olhar.
       - Por isso... e outros motivos. Pelo menos, eu sou honesto, voc tambm me deseja, mas no reconhece. Eu poderia lev-la para a cama agora e faz-la admitir,
mas no  isso que quero, Helen.
       - No, voc quer uma vitria completa, uma rendio total... - A voz dela continha um mundo de amargura.
       - Isso mesmo. E  o que pretendo ter.

      CAPTULO V

       No adiantava! Apesar de estar morta de sono, Helen no conseguia dormir. Estava com muito frio, alm de consciente demais da presena de Race, provavelmente
dormindo a sono solto, no quarto l em cima. No pensar nele era impossvel, e era isso que mais a chocava, pois desde Brad nenhum homem pudera atingir suas emoes.
       Seus ps estavam quase insensveis de frio, e afastando as cobertas ela vestiu o velho roupo que herdara dos gmeos, j bastante pudo. Talvez uma bebida
a esquentasse um pouco.
       A cozinha estava completamente fria, e as pedras do cho pareciam pedras de gelo, sob seus ps. Enchendo a chaleira, Helen estendeu a mo para pegar uma caneca,
mas tremia tanto que acabou por derrub-la, felizmente sem que quebrasse. Olhando o ar que saa de seus pulmes embranquecer em contato com a atmosfera, ela esperava
que a gua fervesse quando ouviu passos atrs de si e enrijeceu automaticamente.
       Race! Por que teria ele resolvido descer?
       - Que barulho foi aquele?
       Ele usava o mesmo roupo daquela manh, e Helen desviou depressa o olhar do tringulo de pele exposto, junto ao pescoo.
       - Eu... eu estava com frio e resolvi tomar alguma coisa quente. O barulho foi de uma caneca que derrubei.
       - Com frio? - Race segurou-lhe as mos, antes que pudesse evitar. - Voc est  gelada! Mas agora chega, Helen. Por mais que proteste, no vou deixar que
congele aqui embaixo. Voc vai para a cama, comigo.
       Ela realmente protestou, mascarando a onda de sensaes que a invadiu com uma raiva fingida.
       - Eu j lhe disse que no tenho inteno de for-la a nada, Helen. Quando eu a possuir, vai ser porque ns dois queremos. E para ser franco, nesse momento
quem est com sexo na cabea  voc; eu s estou preocupado com a possibilidade de descer amanh e encontrar voc sofrendo de hipotermia. Voc no est acostumada
com essas condies. Aposto que h anos no sabe o que  viver sem aquecimento central!
       De repente, Helen foi invadida por uma vontade to grande de se sentir quente de novo, que mal protestou quando Race ergueu-a nos braos e carregou-a para
a porta. Automaticamente, agarrou-se aos ombros dele, prendendo a respirao, com medo de que ele a deixasse cair. Afinal, no era nenhuma garotinha pequena e delicada.
Mas a respirao dele no registrou o menor esforo, e s um sorriso breve e zombeteiro mostrou-lhe que Race estava ciente dos motivos de seu susto.
       - Ponha seus braos em volta do meu pescoo. No vou deixar que caia. Pelo menos, no sem um aviso.
       A sensao de estar nos braos dele foi levemente traumtica, fazendo-a lembrar-se dos tempos em que seu pai ainda era vivo e a carregava do mesmo modo. Seu
tio nunca a pegara nos braos, apesar de am-la, pois alm de no ser desse tipo de homem, era poucos centmetros mais alto que ela, quando a acolhera em casa. Sendo
alta, todos esperavam que ela se arrumasse sozinha, e nem para si mesmo ela chegara a admitir o quanto lhe fazia falta ser tratada como frgil e vulnervel, de vez
em quando.
       - Relaxe - disse Race no topo da escada, abrindo a porta do quarto com o p. - No vou pular em cima de voc.
       Um dos lampies estava aceso, e sombras longas danavam no teto e nos cantos do quarto. O ar estava gelado, mas a cama ainda retinha o calor do corpo dele,
e esse calor foi to gostoso de encontro a seus membros gelados que Helen mal notou quando ele apagou o lampio e deitou-se a seu lado. Ainda assim, um trao de
medo invadiu-a, at que percebeu que ele eslava de costas para ela, aparentemente nem um pouco perturbado por sua presena.
       Os minutos se arrastaram, enquanto lutava para relaxar os msculos tensos, desejando que pudesse parar de tremer logo. O frio parecia ter lhe atingido at
os ossos, e, batendo os dentes, ela apertou mais o roupo de encontro ao corpo. Um calor delicioso irradiava-se de Race e pouco a pouco foi se aproximando dele,
levada pela mesma atrao primitiva que faz mariposas se aproximarem do fogo.
       Durante a noite, Helen acordou de um sonho em que, com o rosto molhado de lgrimas, dizia a Brad que sabia por que ele a queria. Seu corpo estava deliciosamente
quente e relaxado, aconchegado a algo to slido e reconfortante, que a infelicidade causada por seu sonho evaporou-se. Com um suspiro de satisfao, ela se aconchegou
mais ao calorzinho que a envolvia, voltando a dormir.
       Manh. Helen abriu os olhos, piscando diante da claridade que inundava o quarto, e enrijeceu de alto a baixo, ao perceber que o calor que a esquentava vinha
de Race. Ele tinha um dos braos em torno de sua cintura, segurando-a de encontro ao corpo. Helen tentou afastar-se devagarinho, mas a mo dele deslizou por seu
corpo, indo parar sobre um de seus seios, enquanto um murmrio sonolento a avisava de que ele estava a ponto de acordar. Logo, um polegar comeou a se mover preguiosamente
sobre seu mamilo, tornando-a consciente de que, para Race, no era novidade acordar com uma mulher nos braos. Mais uma vez, tentou se levantar, enrijecendo ao senti-lo
se mexer e aumentar a presso dos dedos que a acariciavam.
       - Hum, voc  tudo que uma mulher deve ser - ouviu-o murmurar s suas costas, tocando com os lbios sua nuca. - Sabe que voc se sentiria bem mais quente
sem toda essa roupa?
       Um tremor incontrolvel sacudiu-a da cabea aos ps, enquanto vises de seu corpo nu, nos braos dele, enchiam-lhe a mente. Fora um erro ter vindo para aquela
cama. Melhor seria ter passado frio, mas estar a salvo, no sof da sala. Em todo caso, era tarde demais para pensar nisso. Ele j lhe afastava a camisola dos ombros,
prendendo seus braos s costas e fazendo-a imobilizar-se de choque, ao permitir que seus dedos o tocassem no ventre.
       Race riu baixinho, e ela sentiu a respirao dele em sua pele. O fato de estar de costas para ele facilitou a retirada de sua camisola, pois, alm de bater-lhe
com os ps e mexer-se com violncia, tentando libertar as mos, nada mais podia fazer. Race s a soltou para terminar de despi-la, virando-a depois com um movimento
gil e aprisionando-a com o peso de uma coxa. Uma exclamao assustada escapou de seus lbios, quando notou a nudez do corpo masculino, e de imediato suas mos ergueram-se
para empurr-lo.
       - Voc disse que no tocaria em mim - lembrou-o com voz rouca, sabendo que essa era sua melhor defesa, pois jamais conseguiria super-lo fisicamente
       - A menos que voc quisesse.
       - Mas eu no quero!
       - No?
       Helen teve a impresso de que sua respirao entalava na garganta, quando Race inclinou a cabea para seus seios expostos. Queria gritar-lhe que parasse,
admitir sua derrota, mas teimosamente se recusava a mostrar seu medo. Ordenando a si mesma que no reagisse, fechou os olhos e enterrou as unhas no colcho, antecipando
o contato dos lbios dele com sua pele. Apesar do frio, o suor porejou sua testa, sua boca secou, e seu corpo comeou a tremer, enquanto esperava... e esperava...
at, afinal, tornar a abrir os olhos para dar com Race a observ-la, zombeteiro.
       - Agora diga que no me quer, Helen - ele murmurou, fazendo-a olhar em direo aos mamilos de seus seios, engurjitados e ansiosos para sentirem novamente
o toque dele.
       A humilhao invadiu-a, sufocando qualquer outro sentimento. Odiando-o por faz-la sentir-se daquele modo, libertou-se com um safano, dobrando-se sobre si
mesma, enquanto tentava esconder-se dele.
       - Est contente agora? - perguntou com voz abafada. - Agora que venceu, que...
       - Helen! - Ele a segurou pelos ombros. - Helen, nos no estamos em guerra. No tenho vergonha de querer voc, e no h motivo para que voc tenha vergonha
de me querer. Faz idia do que eu sinto, sabendo que voc me deseja e est disposta a negar esse desejo at o fim?  capaz de imaginar o efeito negativo que isso
tem sobre meu ego? Esta noite, voc chorou enquanto dormia, porque algum a magoou, muito tempo atrs. Mas quando eu a abracei, parou de chorar e aconchegou-se a
mim com a confiana de uma criana. Eu quase a acordei e possu, naquela hora - admitiu, com voz subitamente rouca. - Mas voc no tem idia do que faz comigo, no
? O que partilhamos agora acontece uma vez em um milho, Helen. Ns nos queremos, nossos corpos clamam um pelo outro, e basta um olhar seu para que meu desejo desperte.
       Race tornou a vir-la para si, e Helen estremeceu de medo e desejo quando ele descruzou os braos com que protegia os seios, fitando-a com a respirao alterada.
Um gemido escapou da garganta masculina, antes que lbios quentes procurassem seus mamilos, fazendo uma corrente de prazer atravessar seu corpo. Race murmurou alguma
coisa, o corao batendo forte, ao libertar o mamilo e passar a descrever crculos em torno dele com a ponta da lngua, provocando nela um desejo intenso. Ela s
pde arquear o corpo, sussurrando o nome dele, enquanto o agarrava pelos ombros, perdida num mar de sensualidade.
       - Diga... diga... que me quer...
       Race intercalava a exigncia com caricias, atormentando-a, roubando-lhe a vontade at que nada mais restou, alm do desejo que a consumia.
       - Race... por favor! - implorou febrilmente, s conseguindo com isso que ele se apossasse de seus lbios, com uma paixo to grande quanto a sua.
       - Eu quero voc, Helen - ele declarou, enquanto deslizava a boca por seu rosto, pescoo, colo... - Quero voc inteira, corpo, mente e alma! Quero que se d
a mim, como nunca se deu a mais ningum.
       Meio assustada, meio excitada pelo tom intenso de Race, Helen sentiu a clamorosa resposta de seu sangue a essas palavras e se maravilhou com o brilho que
havia nos olhos masculinos, agora fixos em seu corpo.
       - Eu quero voc desde a primeira vez em que a vi... numa festa. Voc estava com outro homem e no me notou. Minha vontade foi partir o sujeito em pedacinhos
e depois fazer amor com voc.  assim que  a paixo, Helen! Uma mistura de desejo, raiva e ressentimento por este mesmo desejo, alm de uma fome feroz e elementar,
que tem que ser satisfeita.  assim que eu quero voc, Helen... E  assim que desejo que me queira, com uma intensidade to grande a ponto de ficar louca de desejo,
esquecendo-se de todos os homens que j conheceu. Beije-me agora, Helen. Beije-me...
       Helen obedeceu quase s cegas, ainda tentando assimilar o significado do que ouvira, ainda procurando aceitar o fato de que ele pudesse quer-la tanto. Porque
os sentimentos que Race descrevera eram os de um homem obcecado pelo desejo de possuir uma mulher, de forma violenta e at selvagem, se necessrio. E o pior era
que, enquanto ele falava, imagens vividas dos dois juntos tinham se desenhado em sua mente, enchendo-a de uma excitao sexual que nunca sonhara pudesse existir.
       Race conseguira que o desejasse, que sentisse vontade de tocar, acariciar e excit-lo, entregando-se completamente a ele... Mas isso no era s desejo, era
amor! Ela fechou os olhos, lutando contra a nusea que a acometeu, com o reconhecimento da verdade. Amava Race Williams. Desde o incio reagira a ele, e como se
ressentia dessa reao, classificara-a de antipatia. Aquela vez, na casa dele, seu corpo j sabia o que sua mente se recusava a admitir. Apaixonara-se por Race 
primeira vista, como uma adolescente. E ele a desejava.
       Mas o que era o desejo, a no ser um apetite que, uma vez saciado, acabava-se? A sbita percepo do que poderia ser sua vida, sem Race, assustou-a. De imediato,
ela soube que era imperativo que se afastasse dele. Se ficasse, no poderia esconder o que sentia, e ele, como todo homem, na certa procuraria tirar proveito de
seus sentimentos. Quanto a isso, no tinha iluses. De posse de seu segredo. Race se deliciaria em forar sua submisso, esquecendo-se por completo de que lhe dissera
que s a queria de livre e espontnea vontade.
       Race no mentira, ao confessar que se ressentia por quer-la. Esse ressentimento envolvia-o como uma aura, e ele no se deteria diante de nada, para acalm-lo.
Agora, as mos dele deslizavam de forma compulsiva por seu corpo, tocando e reconhecendo a textura de sua pele, registrando as respostas que no tinha condies
de esconder. Com um brilho de satisfao nos olhos e o corao batendo forte, ele murmurou seu nome, separando suas pernas com o joelho, deixando que sentisse a
excitao que o assolava. Colou os lbios aos seus, fazendo com que gemesse de prazer e arqueasse o corpo para diante, num oferecimento mudo e instintivo.
       - Helen, me toque!
       A ordem sussurrada despertou nela uma vontade primitiva de responder, e seus dedos pressionaram febrilmente os ombros dele, explorando os msculos com a ajuda
de seus lbios, antes que casse em si e percebesse exatamente a que isso levaria.
       De repente, zangada com Race e consigo, Helen retraiu-se. Vinte e quatro horas! Esse fora o tempo que ele tinha gasto para lev-la para a cama. Nem mais,
nem menos'
       Ergueu os olhos, certa de que seu distanciamento no poderia ter passado despercebido, encontrando os dele, brilhantes de fria, fixos em seu rosto.
       - Eu lhe disse que no a foraria a nada, Helen, mas voc ser uma hipcrita... e muito pior... se me fizer parar agora. Voc sabe que me quer tanto quanto
eu a quero!
       - Eu pensei que queria - Helen admitiu, devagarinho. Tinha que ter cuidado, agora, para que ele no descobrisse seu amor e o usasse contra ela, forando-a
a uma submisso aparentemente espontnea. Entregar-se a ele, nessas condies, seria sacrificar seus princpios e destruir seu auto-respeito. - Pensei mesmo, Race,
mas acabo de ver que s desejo sexual no basta.
       Foi quase insuportvel a mistura de amarga frustrao e desprezo, que surgiu nos olhos dele.
       - Maldita! - ouviu-o xingar baixinho, acrescentando outra palavra que no entendeu direito, mas que a fez corar. - Faz isso com todos os homens? Deixa-os
to excitados a ponto de implorar, para depois se divertir rejeitando-os? Esse  um jogo perigoso, Helen.  o mesmo que pedir para ser violentada. - Ele a soltou,
mas sua respirao alterada mostrava que ainda no conseguira se controlar por completo. -  disso que gosta? De enlouquecer os homens que a querem? Sente-se feliz
vendo os pobres diabos a seus ps, implorando um carinho? S que comigo isso no vai acontecer, Helen. Eu no devo ser to cavalheiro quanto os outros, porque vou
gostar de ver voc to insatisfeita quanto eu. E outra coisa, mesmo que agora voc me implorasse de joelhos essa satisfao, eu no lhe daria nada!
       Helen ouviu uma porta se fechar e percebeu que Race fora para o banheiro. Sabia que deveria se levantar e vestir, em vez de ficar ali, enrolada num lenol
que ainda tinha o cheiro dele, mas sentia-se magoada demais para se movimentar. J enfrentara raiva masculina, causada por frustrao sexual, mas nunca daquele modo,
de forma to dolorosa. Naturalmente, isso era porque o amava e sentira vontade de entregar-se e conhecer o prazer de ser possuda por ele. Seu corpo ainda ardia
de desejo, e ficava com os mamilos duros s de se lembrar de como...
       Depressa, saiu da cama e separou roupas limpas, prometendo-se um banho quando Race descesse.
       A cozinha estava gelada, e ela abriu a torneira, rezando para que a gua no tivesse congelado no cano. Para seu alvio, isso no acontecera. Do lado de fora,
o sol brilhava, mas de forma fraca, sem calor, e seu reflexo na neve quase a cegou, quando olhou pela janela.
       A gua j fervia na chaleira, quando Race entrou. De costas para a porta, Helen perguntou-se como iria enfrent-lo. Ajudava saber que ele devia estar zangado
demais para julgar seus sentimentos com acuidade, mas o fato de que nunca se sentira to excitada com homem algum permanecia. Mesmo agora, sua vontade era dizer-lhe
que mudara de idia, que queria sentir o corpo dele colado ao seu, como antes.
       Enterrando as unhas nas palmas das mos, ela se virou e, com voz rouca e incerta, perguntou-lhe se queria uma xcara de caf.
       -  a minha vez de fazer o caf da manh - explicou, procurando forar alguma normalidade entre eles.
       - Que jogo est fazendo agora, Helen? - A expresso com que Race a fitou era a imagem do desprezo. - Por acaso est querendo me mostrar o quanto  civilizada?
Se  isso, fique sabendo que, neste momento, no me sinto nem um pouco civilizado. Para ser franco, se no fosse pelo fato de eu dar muito valor ao meu auto-respeito,
possuiria voc aqui e agora, obrigando-a a gemer com o mesmo desejo que me atormenta. - Ele fez uma ligeira pausa, depois acrescentou: - Mas a coisa ainda no acabou
entre ns. Est vendo esse sol? Isso significa que a temperatura vai cair mais ainda e, mesmo que no neve, ficaremos presos aqui por dois ou trs dias, no mnimo.
Antes de irmos embora, voc estar me implorando para terminarmos o que comeamos esta manh. Implorando - repetiu, num tom que era uma promessa e uma ameaa.
       - Eu, se fosse voc, no pensaria mais nisso - Helen murmurou, forando-se a assumir aquela expresso impenetrvel, atrs da qual se escondia do mundo. -
Ao menos,  claro, que seja capaz de sentir prazer com um estupro.
       - No vai ser estupro, Helen. Se quer mesmo dar um nome ao que vai acontecer, diga que ser um golpe dado em honra dos pobres diabos que cruzaram sua vida.
Tenho estado cego. Pensei num milho de razes diferentes para a sua frieza, mas nenhuma delas chegou perto da realidade. Voc  uma mulher que gosta de excitar,
sem nunca dar o que promete. Para o seu prprio bem, j  tempo que aprenda como isso pode ser doloroso.
       O controle e a determinao de Race eram armas formidveis e aparentemente indestrutveis, Helen foi obrigada a admitir.
       Um ponto de vista reforado vezes sem conta nos dois dias seguintes, quando foi torturada por inmeros mtodos sutis, destinados a minar seu autocontrole
e torn-la consciente da presena dele. Coisas pequenas, como toques leves e aproximaes desnecessrias, que em si no eram nada, mas que foram tornando seu corpo
cada vez mais ciente do dele, at o ponto em que seus nervos ficavam  flor da pele cada vez que ele surgia em seu campo de viso.
       No houvera mais nenhuma sugesto de que partilhassem a mesma cama. Na verdade, Race aparecera com um saco de dormir, onde agora ela dormia, na sala. Mas
aquela manh, descera usando apenas jeans e fora se lavar na pia da cozinha, alegando que a temperatura ali estava melhor que no quarto. Em vo ela se esforara
para no olhar, mas seus olhos fugiam sempre ao seu controle, procurando, fascinados, as costas musculosas, enquanto sua mente a torturava com imagens que teria
preferido esquecer.
       Dos dois, Helen sabia muito bem quem conseguira trabalhar melhor - e no fora ela. Naturalmente, fingira trabalhar, abrindo livros e tomando notas, mas todo
o tempo sua ateno estava fixa em Race, que trabalhava do outro lado da mesa, numa concentrao real e patente. Que ele no ligava para ela, no havia a menor dvida.
Race a queria fisicamente e estava com o orgulho ferido, por ter sido rejeitado. Alm dessa, existiam inmeras outras razes pelas quais no deveria ceder, e era
inteligente o bastante para conhecer todas elas.
       Ento, por que passava as noites acordada, pensando nele, desejando que estivessem na mesma cama, que o corpo dele fosse sua nica coberta?
       Desejo sem amor era algo que no queria experimentar, mas Race exercia uma atrao incrvel sobre seus sentidos, aumentada ainda mais pelo amor que sentia
por ele. E o pior era que, a cada dia que passava, sua capacidade de resistncia diminua mais. Tentou se concentrar em seu livro, sabendo que era impossvel um
nobre medieval, que desafiara a famlia para lutar ao lado de Ricardo III, ter todos os atributos fsicos de Race. E a garota que ele amava, uma prima que, desde
o incio, tivera a inteno de rejeit-lo, em favor de um vizinho favorvel aos Lancaster, acabou por se entregar a ele com uma paixo assustadora, em sua intensidade.
       Helen no era tola e logo percebeu que escrevera sobre seus prprios sentimentos e desejos, to fortes que haviam mudado o curso de seu livro. Ainda assim,
no teve coragem de reescrever nada

CAPTULO VI

       - A lenha est acabando; vou buscar mais um pouco - O comentrio foi to lacnico quanto os outros que Race havia endereado a Helen, durante os ltimos dois
dias. - No posso negar que espero com ansiedade o degelo; vai ser bom voltar  civilizao e ver mulheres que agem como mulheres.
       Palavras cheias de percepo, mas que no afetaram Helen. Ela trouxera muitas roupas bonitas e atraentes, mas um mecanismo ntimo de defesa vinha fazendo
com que usasse as menos femininas e que mais disfaravam as formas de seu corpo.
       No era a primeira vez que Race saa para buscar lenha. Helen no se preocupou quando mais de quinze minutos passaram sem que ele retornasse. Era seu dia
de preparar o almoo, e ela fizera uma torta de carne, ignorando deliberadamente as calorias a mais que estava ingerindo, em sua estada no chal.
       Foi s quando viu que Race estava fora h quase quarenta minutos que comeou a se preocupar. Abriu a porta da cozinha, estremecendo ao sentir o vento gelado,
e examinou as pegadas impressas na neve. Um medo sbito assaltou-a. E se Race tivesse partido?
       Uma onda de pnico tomou conta de seu ser, sufocando qualquer pensamento lgico, deixando-a incapaz de perceber outra coisa, a no ser a ausncia de Race.
Talvez ele tivesse se cansado daquele jogo de gato e rato e estivesse mesmo ansiando por companhias mais femininas...
       Tremendo de frio e reao nervosa, fechou a porta da cozinha, recostando-se nela. Esperaria mais quinze minutos e, se Race no tivesse voltado, iria atrs
dele. Se ele era capaz de chegar at a vila, ela tambm era. Mostraria que tambm podia partir, que detestava a companhia dele tanto quanto ele detestava a sua,
que ele no era o nico a estar ansioso para fugir daquela intimidade forada.
       Vinte minutos depois, de luvas, botas e casaco, saiu do chal. Recomeara a nevar, e os flocos gelados caam-lhe no rosto, colando-se a seus clios, mas
ela seguiu as pegadas de Race, recusando-se a ouvir a voz interior, que lhe dizia para voltar ao chal, e respirando cada vez com mais dificuldade o ar frio que
lhe feria os pulmes e a pele.
       - Helen!
       Ao escutar seu nome pela primeira vez, pensou que estivesse tendo uma alucinao, mas quando o chamado se repetiu, parou, tentando descobrir de onde vinha.
       - O que pensa que est fazendo, Helen?
       Desta vez, reconheceu a voz de Race e a zanga nela contida. Ele vinha em sua direo... do chal, com flocos de neve cobrindo-lhe o peito e os ombros.
       - No  possvel que seja to covarde! No acredito que possa mesmo preferir a morte a mim!
       - Oh, Race! - Mal registrando o comentrio cheio de menosprezo, ela correu para ele, abraando-o aliviada, murmurando-lhe o nome entre soluos. - Pensei que
tivesse me deixado! Vi suas pegadas na neve e...
       - Eu s estava avaliando nossas chances de sair daqui, vendo a profundidade da neve - ele respondeu. Mas seu tom era ausente, e havia em seus olhos algo que
a fez prender a respirao e entreabrir os lbios, num convite mudo.
       Uma onda de prazer incendiou o sangue de Helen, quando Race tirou as luvas e enfiou as mos por baixo de seu casaco, puxando-a de encontro a si e murmurando
seu nome com voz rouca, antes de possuir seus lbios. O beijo aumentou ainda mais a paixo que vinha crescendo em seu ntimo, h vrios dias. Estava louca de vontade
de sentir o toque dele, guiado por um desejo que era to grande quanto o seu, e j afundava numa sensao incrvel de prazer, quando ele se afastou, endireitando-lhe
as roupas e dizendo, com o rosto fechado e a voz sria:
       - Venha. Vamos voltar para o chal antes que congelemos.
       Mas ela no estava congelando. Na verdade, queimava de desejo e s queria tomar e aproveitar o que lhe era oferecido. Race no a amava, mas na certa seria
um excelente amante. Seu corpo sabia disso e transformara-se no traidor de sua mente. O tormento de achar que ele se fora, que o perdera para sempre, destrura a
barreira de seu autocontrole, deixando seus sentimentos a nu e seu corpo pulsando de desejo.
       Mas a realidade voltou a se intrometer, quando alcanaram o chal, e ela manteve o rosto abaixado, enquanto tirava o casaco e as botas. Tinha duas alternativas,
agora. A primeira era fingir que nada acontecera e confiar que Race fizesse o mesmo. A outra alternativa fazia seu corpo formigar de apreenso, mas que sentido havia
em se negar  satisfao final? Race no a amava, mas a queria, e com ele seu corpo experimentaria um prazer que no encontraria com mais ningum. Mas... e quando
ele se cansasse dela, quando se visse sozinha?
       "Terei as lembranas", disse a si mesma com teimosia, o corpo fazendo papel de advogado do diabo, insistindo para que cedesse.
       Aquela manh, sofrera durante uma hora a agonia de perd-lo. Como poderia suportar centenas de horas iguais? E era intil tentar se enganar, dizendo-se que
ele no se cansaria dela. Era sexualmente inexperiente, no passando de um desafio que, uma vez vencido, perderia a atrao.
       Nada disso, no entanto, tinha fora suficiente para abafar a necessidade fsica que sentia por ele. Pensar que o tinha perdido levara-a a um ponto crtico,
e o caminho que seguiria, dali em diante, seria uma escolha absolutamente sua. Race no dissera uma palavra sobre o beijo de momentos atrs, mas no tinha dvidas
de que ele sabia exatamente o que sentira. E s no descobrira que ela o amava porque para ele o amor era um sentimento que simplesmente no existia. Race na certa
achava que a nica coisa que a motivava era o desejo, como acontecia com ele. E no havia uma certa segurana em deix-lo continuar acreditando nisso? Assim seu
orgulho estaria a salvo, quando ele a abandonasse.
       Inconscientemente, Helen tomara uma deciso, mas agir a partir da exigia uma determinao que no tinha certeza de possuir. Race j terminara a refeio
e, agora, fitando seu prato intocado com um olhar perceptivo, perguntava:
       - No est com fome?
       Era a sua chance. Tudo que tinha a fazer era dizer: "Estou, mas no com esse tipo de fome", enquanto o olhava com a mesma expresso faminta que j vira nos
olhos dele... Mas sua coragem abandonou-a, e limitou-se a balanar a cabea num gesto negativo, enquanto tropeava em sua pressa de se levantar e sair da mesa.
       Race segurou-a pela cintura, ajudando-a a recuperar o equilbrio, enquanto lhe sussurrava junto ao ouvido:
       - Covarde...
       Ele sabia! Sabia exatamente o que estava sentindo e pensando, e no pretendia facilitar-lhe nada! Com o orgulho ferido por sua rejeio, desejava faz-la
sofrer. Jamais poderia pedir-lhe para fazerem amor. Jamais!
       Durante a tarde, o boletim meteorolgico previu o incio do degelo para logo, e quando Race foi fechar as cortinas, viu que comeara a chover.
       - Poderemos ir embora amanh, a no ser que a temperatura caia de novo. Acho melhor voc rezar para que isso no acontea - disse a Helen, mostrando que sabia
o quo perto ela estava de perder o autocontrole.
       Era a vez de Race fazer o jantar, e quando ele sugeriu uma pequena comemorao, ela fitou-o, desconfiada.
       - Podemos comemorar o incio do degelo, embora no fosse bem isso que eu tinha em mente, quando trouxe esta garrafa de champanhe comigo.
       Com o rosto em fogo pela insinuao contida nas palavras dele, Helen escapou para o quarto. Mais uma noite e estaria livre. Por que, ento, sentir-se to
deprimida?
       Mas ela j sabia a resposta, e foi de forma quase inconsciente que pegou o nico vestido que trouxera, de um modelo levemente puritano, de l fina, abotoado
na frente, com gola e punho brancos. Escolhera o caminho que ia tomar e, resolutamente, afastou da cabea todas as objees que ainda existiam. Afinal, por que no
deveria viver aquela noite? Por que no deveria experimentar o prazer doce, e ao mesmo tempo to amargo, de conhecer o amor fsico de Race?
       Preparou-se cuidadosamente, com as roupas de baixo que Jennifer lhe dera, seu perfume favorito, meias de seda e maquilagem caprichada. Coisas ridculas num
chal longnquo e isolado como aquele, mas era apenas por aquela noite...
       J ia fechar o vestido, quando mudou de idia e, num mpeto, tirou o suti. Sempre considerara seus seios um pouco cheios demais para andar sem suti, mas
aquela noite havia algo em suas formas arredondadas, realadas pela l fina, que fez seus dedos tremerem sobre os botes, enquanto os fechava rapidamente.
       Descer a escada foi uma das coisas mais difceis que j fizera. Race ergueu a cabea quando ela atingiu o ltimo degrau, o olhar registrando cada detalhe
de sua aparncia, anles de dizer num tom baixo:
       - Parece que vamos celebrar mesmo!
       - Esta pode ser nossa ltima noite - Helen respondeu, contente porque a luz fraca dos lampies escondia seu rubor. - Logo estaremos de volta  civilizao.
       - Se no se importar de dar uma olhada na comida, posso tentar fazer justia  sua... metamorfose.
       Intrigada com a pausa antes da ltima palavra, Helen perguntou-se o que ele poderia estar pensando, se acreditara mesmo na desculpa que dera para se arrumar
ou se adivinhara a verdadeira razo. A expresso dele nada dizia, e, concordando com um gesto de cabea, ela se dirigiu a cozinha.
       Race voltou quando Helen j estava a ponto de sucumbir a um ataque de nervos. Vestira cala escura, que lhe modelava os quadris estreitos, e uma camisa clara,
de seda.
       A refeio comeou com grapefruit em lata. Helen achou delicioso o vinho que Race pusera para gelar, do lado de fora do chal. Normalmente, ela bebia pouco,
mas algo no olhar dele fez com que bebesse mais, aquela noite.
       Ser que ele a obrigaria a colocar em palavras sua necessidade? E seria ela capaz?
       Enquanto bebia o vinho, Helen foi sentindo seu nervosismo diminuir. No protestou, quando Race tornou a encher seu copo, e observou-o com uma excitao cada
vez maior, enquanto ele lhe servia o frango que constitua o prato principal. Os movimentos dele eram intensamente masculinos, e ela foi tomada por uma vontade enorme
de toc-lo, explorando-lhe a pele bronzeada com a ponta da lngua.
       - Quer mais, Helen?
       Voltou bruscamente  realidade, corando ao ver que Race notara sua absoro. Durante o resto do jantar, mal tocou na comida, tomada por um excitamento nervoso
que era alimentado tanto pela presena dele quanto pelo vinho que estava tomando, para criar coragem.
       Quando chegaram ao fim da refeio, ofereceu-se para fazer caf. Sabia que Race no pretendia facilitar nada para ela. Depois de servir dois copos de champanhe,
ele se sentara diante do fogo, estirando as pernas diante de si e recostando-se no sof. Helen no poderia simplesmente pedir-lhe que fizessem amor. Mas poderia
mostrar-lhe o que queria, na esperana de que o desejo dele o levasse a fazer o resto, sem exigir uma paga tola pela rejeio que sofrer.
       Suas mos tremiam quando levou o caf para a sala. Colocando sua xcara sobre a mesinha junto  lareira, levou a de Race para ele, que a observava por entre
os clios, com uma expresso que j conhecia muito bem.
       - Coloque ali, por favor - ele pediu, indicando a mesinha ao lado do sof.
       Ela poderia ter dado a volta, mas em vez disso preferiu inclinar-se sobre Race, segurando a xcara com uma das mos e apoiando-se nas costas do sof, com
a outra. Sabia que o movimento delinearia a curva de seus seios e quase se escandalizou com a provocao deliberada de seu gesto. Nunca fizera uma coisa dessas.
       - Obrigado.
       O agradecimento lacnico esmagou sua fantasia de ser tomada nos braos dele, humilhando-a tanto que lhe deu vontade de fugir e se esconder em algum lugar
bem longe. Sua vergonha foi to grande que s percebeu que ele continuara a falar ao senti-lo segurar seu pulso.
       - O que foi, Helen? Fiz alguma coisa que a ofendeu? Ou foi algo que no fiz? No  bom ser rejeitado, ?
       Quando ela no respondeu. Race deslizou a outra mo por seu corpo, fazendo-a contrair-se de prazer e susto, ao se aproximar de seu seio. Seria possvel que
ele no pudesse ouvir as batidas de seu corao? Seria possvel que no soubesse o que estava fazendo com ela?
       - O que espera que eu faa? - ouviu-o perguntar, zombeteiro. - Isto? - Curvou os dedos em torno de um de seus seios, pressionando-o com o polegar, - Ou isto?
       Seu corao foi parar na garganta, quando ele desabotoou-lhe o vestido e insinuou a mo pela abertura. Soltando seu pulso e puxando-a pela cintura, ele procurou
com a lngua a pele arrepiada de seu mamilo, fazendo-a gemer. Depois empurrou-a para longe.
       - Di desejar tanto uma pessoa, no , Helen? Corri por dentro a gente saber que est reduzido a esse desejo. Mas voc sabe o que tem que fazer, no ? E
eu no vou facilitar nada!
       - Voc no me quer...? - Ela mal percebeu que tinha dito essas palavras, o crebro enevoado pelo lcool e pelo desejo.
       - Quero tanto que tenho uma vontade louca de me esquecer de tudo e aceitar o que me oferece. Mas eu teria que viver com isso, depois. Eu j lhe mostrei que
a quero; agora  a sua vez de me mostrar.
       - No posso... - Helen afastou-se, tremendo, certa de que no poderia fazer o que ele pedia.
       - Pode e vai fazer!
       Mais uma vez Race puxou-a para si, fazendo com que perdesse o equilbrio e casse sobre seu colo. E a manteve prisioneira, enquanto explorava com os lbios
e a lngua a forma de sua orelha, excitando-a. Com dedos hbeis, ele terminou de desabotoar seu vestido, empurrando-o at a cintura, o tempo todo beijando-lhe o
rosto e o pescoo. Era guiado por uma necessidade estranha de evitar-lhe a boca, para continuar a atorment-la.
       A seda da camisa dele, mida de encontro a seus seios, tornou-se de repente uma barreira intolervel entre seus corpos. Mal percebendo o que fazia, ela forou
os minsculos botes, enlaando-o pelo pescoo e permitindo que seus seios lhe tocassem o peito. Gemidos de prazer escapavam-lhe dos lbios por entre beijos, enquanto
seus dedos se enterravam nas costas dele, na nsia de faz-lo corresponder e partilhar sua necessidade.
       Race no via que estava lhe dizendo, sem palavras, o quanto o desejava? No era suficiente que seu corpo a trasse com cada movimento?
       Zangada, ela desejou atorment-lo tanto quanto ele a estava atormentando, ouvi-lo gemer seu nome, sentir no corpo dele a mesma tenso que havia no seu, for-lo
a perder o controle. Movendo os lbios de encontro ao pescoo masculino, acariciou-lhe as costas com a ponta dos dedos. Race havia parado de beij-la, e isso agiu
como um incentivo. Como podia ele se manter to indiferente? Faria com que correspondesse!
       De repente, sem ligar para as conseqncias, correu os dedos pela faixa de plos que se estreitava em direo  cintura de Race, certa, por instinto, de que
ele no lhe era to indiferente quanto fingia. Com a palma da mo, alisou-lhe o peito, registrando uma resposta inesperada e inconfundvel e sentindo uma onda de
calor percorr-la, ao se lembrar da resposta febril de seu prprio corpo, quando ele a tocara com a lngua. Inclinando a cabea, depositou uma srie de beijos nos
ombros de Race, descendo depois at sentir o mamilo masculino sob sua lngua. Sua satisfao foi total, ao senti-lo contrair subitamente os msculos e murmurar com
voz rouca:
       - Pelo amor de Deus, Helen! Diga que me quer e pare de atormentar a ns dois.
       Isso tornou mais fcil, para ela, admitir a verdade entre beijos. Agora era ele a atormentar o bico de seus seios. Logo, Helen viu-se murmurando pedidos incoerentes
que Race parecia no ter dificuldade em interpretar corretamente e satisfazer, acariciando com os dentes sua pele sensvel, enquanto ela arqueava o corpo, num oferecimento
total.
       Mas Race afastou-a de si, estudando-a com um olhar ardente.
       - No vou apressar nada - disse em tom baixo. - Esperei muito tempo, para isso.
       Ele tocou-lhe os cabelos e acabou de tirar-lhe o vestido, examinando seus tornozelos delicados, antes de voltar o olhar para suas coxas, envoltas em meias
de seda. Helen permaneceu imvel, s enrijecendo quando ele subiu a mo por sua perna e afastou a barreira de sua calcinha francesa, depositando na pele descoberta
um beijo que pareceu queimar. As meias foram removidas, e seu corpo comeou a tremer sob o assalto das mos e lbios masculinos. O rosto de Race traa a extenso
do desejo que o dominava.
       - Tire minhas roupas, Helen - ele pediu, quando afinal a teve nua nos braos. - Me toque... me beije...
       Helen obedeceu. Sentia ondas de prazer causadas pelo movimento dos dedos dele, na parte interna de suas coxas, enquanto o livrava das roupas. Ao se ver livre
explorou-lhe o corpo rijo, to vulnervel ao desejo quanto o seu. Passando as mos pelo abdmen chato, seguiu a linha dos plos escuros com a lngua, estendendo
as carcias at suas coxas, fazendo Race estremecer e aprision-la de encontro a si. Acariciando-a de alto a baixo, ele arrancou de seus lbios um gemido de prazer,
ao alcanar a parte mais ntima e feminina de seu corpo.
       - Diga-me do que gosta, minha cigana... diga... - Race sussurrou, continuando a beij-la at t-la implorando em seus braos, tomada por uma mistura de prazer
e vergonha, enquanto depositava beijos febris em sua pele suada e o fitava com olhos enevoados de paixo.
       Race guiou-lhe as mos por seu prprio corpo, instruindo-a num tom de voz grave e arrastado, acariciando-a tambm e sentindo satisfao em mant-la a um passo
de um prazer que ela apenas podia imaginar e iniciou uma vagarosa penetrao, segurando-a pelos braos, impedindo-a de se movimentar por um momento.
       - Agora. Helen... Agora! - murmurou logo depois, soltando-lhe os braos para aproxim-la de si, enquanto a silenciava com um beijo ardente,
       O corpo de Helen correspondeu por completo ao de Race, durante a tempestade de emoes que os envolveu ento. A pontada de dor foi vagamente notada e logo
esquecida, ao sentir o prazer explodir dentro de si e ouvir Race gritar seu nome,
       Quando a paixo se acalmou, flutuou tranqilamente de volta  terra, ainda entre os braos dele. Nunca se sentira to bem, to em paz consigo mesma. Seu corpo
estava cansado, mas tambm tomado por uma sensao total de prazer e satisfao. Suspirando, virou-se para Race e gelou ao ver a expresso de amarga incredulidade
refletida nos olhos dele.
       - Foi sua primeira vez, no foi?
       No esperava essa reao, Para ser sincera, o que esperava era que Race mostrasse um certo prazer em ser o primeiro. Em vez disso, ele parecia zangado, como
se ela o tivesse privado, deliberadamente, de alguma coisa,
       - Isso importa? - Helen tentou falar de forma casual, mas no conseguiu banir um trao de angstia em suas palavras.
       - Claro que importa! Por que no me disse?
       - Quando?
       A euforia que Helen sentira, momentos atrs, acabou depressa diante da frieza de Race. Sua vontade era romper no choro, mas no faria isso, Como podia ele
ser to duro a ponto de fazer-lhe perguntas como aquela depois do que acabavam de partilhar? Na certa porque no houvera nada de especial naquilo, para ele. Provavelmente
partilhara o mesmo com inmeras outras mulheres.
       - No  bem o tipo de assunto que a gente usa para comear uma conversa, ? - continuou com amargura. - "Ah, antes que eu me esquea, sou virgem".
       - Voc teve outras oportunidades,
       - Quando? Quando voc estava me acusando de prometer muito e no dar nada? Ou quando estava falando de todos os homens que j tive?
       - Quando percebeu que eu a estava tratando como se j tivesse muita experincia sexual - Race respondeu brutalmente, observando-a estremecer. - Deus do cu,
voc no acha que eu teria...
       - ...feito amor comigo? - Helen levantou o queixo, olhando-o com hostilidade. - Pensei que esse fosse o objetivo de todo o seu esforo.
       - E era. Mas existem modos e modos, e esse no era o que eu teria escolhido para... iniciar uma virgem.
       Race girou o corpo, dando-lhe as costas, e Helen imaginou o que poderia estar pensando. Ficara to desapontado assim? Ele deveria estar sentindo vergonha
e desespero, mas tudo que conseguia experimentar era raiva. Raiva dele, por estar rejeitando o presente mais precioso que tinha para lhe dar.
       - Por que nunca fez amor com ningum, antes?
       Como ele se atrevia a lhe fazer tal pergunta?!
       - Talvez porque ningum tenha me pedido - comeou com petulncia. Mas logo mudou de tom, ao ver a expresso determinada com que Race a fitava. - Talvez porque
ningum tenha me excitado como voc. Para ser sincera, sempre tive o cuidado de no dar essa chance a nenhum deles.
       - E agora culpa a proximidade pelo que aconteceu. Provavelmente tem razo, mas o que no tem remdio, remediado est. Ainda bem que logo poderemos sair daqui.
       "Pelo menos ele no adivinhou meu segredo", Helen pensou. No era bem esse o fim que visualizara para a noite. Em sua imaginao, vira-se adormecendo aconchegada
ao corpo de Race, para acordar de manh e experimentar de novo o prazer de ser possuda por ele.
       Seu ltimo pensamento, antes de adormecer em sua cama solitria diante da lareira, foi que no tomara seu champanhe, afinal. Mas tambm no tinha nada a celebrar.
Race deixara brutalmente claro que no a queria mais. Obviamente, virgens no eram uma raa que ele achava desejvel, e agora s lhe restava torcer para que o degelo
viesse logo e pudesse deixar o chal com o orgulho intacto e seu amor ainda em segredo.
       S agora podia admitir para si mesma que fizera seu jogo pensando encontrar mais que desejo em Race, esperando que carcias fsicas pudessem acender nele
um amor to grande quanto o seu. Deveria ter refletido melhor, antes de se arriscar. Jogara e perdera, mas talvez isso lhe ensinasse uma coisa que, obviamente, precisava
aprender. No vira, anos atrs, que nenhum homem poderia am-la? Teria se sado bem melhor aquela noite se no tivesse se esquecido disso.

CAPTULO VII

       - Helen! Eu no esperava voc to cedo.
       - Eu sei, mas agora j estou aqui - Helen respondeu com secura, enquanto a prima abria um pouco mais a porta do apartamento. - Que tal me deixar entrar?
       - Claro, voc est com cara de cansada. Quando foi que saiu da Esccia? Viu...
       - Esta manh. E vi Race, sim. - De repente, a compostura abandonou-a. - Oh, Jen, como teve coragem?
       - Eu sei que lhe devo um milho de desculpas - Jennifer exclamou, pegando a mala de Helen. - Mame j quase me arrancou a pele. Eu lhe contei tudo, depois
que voc foi embora. Na minha opinio, voc estava apaixonada por Race, e ele no lhe era indiferente. Mame achou que voc ficaria furiosa comigo, e tinha razo,
mas ele foi to persuasivo...
       Esse ltimo comentrio terminou num suspiro, e Helen esforou-se para afastar da lembrana o quanto Race Williams podia ser persuasivo, quando queria.
       - O que aconteceu entre vocs? - Jennifer perguntou. - Quando voc no voltou logo no dia seguinte, achei que tinha feito a coisa certa, que vocs s precisavam
mesmo de algum tempo sozinhos para se entenderem,
       - Se no tivssemos ficado presos por uma nevasca, eu teria voltado - Helen replicou friamente, ansiosa para que no houvesse mais erros ou mal-entendidos,
Quando Race voltasse a Londres, no queria que Jennifer a embaraasse, tentando junt-los.
       - Ento no deu certo, no ?
       - No tinha o que dar certo. Race me queria sexualmente, mas ele no me ama, e eu...
       - ...e voc o ama. Meu Deus, Helen, voc no imagina o quanto estou arrependida! Ele tambm voltou?
       - No. Ele ainda tinha trabalho, e eu resolvi...
       Helen mordeu o lbio, no querendo recordar a ltima manh que haviam passado juntos. A situao tornara-se intolervel depois que Race a rejeitara, e ela
ficara contente com a chegada do degelo, dois dias depois. Race pedira emprestado o Land Rover dos MacNeil e a levara at a vila. Tinham se separado sem falar no
que acontecera. Race, por ainda estar zangado, e ela, por orgulho.
       - Oh, Helen, eu sinto tanto! - Jennifer exclamou, cheia de remorso. - No tive mais coragem de telefonar para mame. Voc sabe como ela , quando fica zangada.
E tem um instinto de proteo dez vezes maior por voc do que por mim. Sabe o que ela me disse? Que voc  to vulnervel que at lhe d medo!
       Helen sentiu as lgrimas que vinha contendo, desde o chal, obstrurem sua garganta. A tia a conhecia melhor do que pensava; sempre soubera o quanto se sentia
uma estranha no meio deles, o quanto se julgara abandonada depois da morte dos pais.
       Esforando-se para afastar as lembranas, Helen foi para a cozinha e encheu a chaleira de gua. Sentira-se enjoada durante toda a viagem de volta, provavelmente
porque no havia parado para comer. Fora estranho, dirigir para o sul e ver a neve ceder gradativamente aos campos verdes e rvores desfolhadas pelo inverno. O que
estaria Race fazendo agora? Procurando, em Fort William, uma mulher mais experiente que ela? Ele rira quando lhe dissera que estava de partida, confessando brutalmente
que se sentia contente com isso. Deveria odi-lo, mas estava sem energias at para odiar a si mesma. Dentro de si s tinha um vasto, interminvel vazio.
       Depois de dois dias em casa, telefonou para seu agente e comunicou sua deciso de abandonar a carreira de modelo. A princpio, ele no acreditou, mas depois
convenceu-se de sua sinceridade.
       - O que voc vai fazer? - Jennifer perguntou-lhe uma noite, quando viam televiso.
       - No sei. O destino me mostrar o caminho - respondeu com humor, sem ter idia do quanto eram profticas suas palavras. Desde que voltara a Londres no tinha
nimo para nada, limitando-se a existir, apenas.
       Quando sua tia ligou, uma tarde, no pde deixar de imaginar se a prima no estaria por trs disso. Jennifer se sentia culpada pelo que acontecera e andava
fazendo o possvel para melhorar seu nimo.
       - Ser que no d para voc vir passar alguns dias conosco, querida? - a tia lhe perguntou. - Seu tio no anda bem; pegou uma gripe forte, e o Dr. Barnes
mandou-o ficar de cama pelo menos uma semana. Neil est se arrumando como pode, no escritrio, mas o trabalho est se acumulando e eu prometi ajud-lo. O nico problema
 que no tenho quem fique com o seu tio.
       O tio de Helen era dono da imobiliria local, e Neil, seu scio minoritrio. Antes da chegada dos filhos, a esposa costumava ajud-lo, quando as coisas apertavam.
       - Com a chegada da primavera, estamos numa das nossas temporadas mais ocupadas - a tia continuou, preocupada. - No sei o que vamos fazer, se voc no puder
vir.
       Era a primeira vez que ouvia algo semelhante a pnico na voz calma da tia, e, impressionada, Helen prometeu dar-lhe uma resposta no dia seguinte. Antes de
se comprometer, no entanto, ligou para Neil, para saber se aquele pedido no era resultado de mais uma das maquinaes de Jennifer. Foi atendida pela secretria
eletrnica, o mesmo acontecendo em todas as ligaes que fez depois, o que afastou suas dvidas. Quando a prima voltou, disse-lhe que decidira ir passar uns dias
em casa, ajudando a tia.
       - Voc precisa pelo menos um ltimo passeio, antes de ir se enterrar no campo. No sai desde que voltou - Jennifer censurou-a. - Terry e eu fomos convidados
para uma festa de caridade, esta noite. Por que no vem conosco? Eu entendo seu desejo de ficar sozinha, mas isso no vai lhe fazer nenhum bem. Na verdade... Olhe,
vrias pessoas j me perguntaram se  verdade que voc e Race esto juntos. Quando se espalhar por a que voc est de volta a Londres e anda se escondendo, os piores
boatos vo circular, e Race  capaz...
       - ...de adivinhar o que sinto por ele? - Helen terminou, com amargura. - Algum sabe do... que ns...
       - No. Todos acham que Race est no exterior, trabalhando num livro. Ao que parece, ele tem uma vila nas Ilhas Cayman, e correram boatos de que vocs tinham
ido para l juntos. Do modo como ele olhava para voc naquela festa, no  de admirar que o pessoal tenha comeado a falar. Mas eu andei espalhando que voc estava
numa viagem profissional.
       Jennifer tinha razo. Se j estavam falando dela e de Race, e ela continuava a se esconder, todos achariam que ele lhe havia dado o fora. Seu orgulho no
agentaria a especulao. O baile de caridade seria no Dorchester, e Helen arrumou-se de acordo, com um vestido de Anthony Price, um famoso costureiro para o qual
trabalhara e que o vendera pelo preo de custo. Ainda assim, fora terrivelmente caro, e, enquanto o fechava, ela se lembrou de Race chamando-a de "cigana". Um ttulo
que bem merecia, naquele vestido dourado, com um decote baixo, que modelava seus seios, e rendas na barra e nas mangas cadas, que deixavam seus ombros nus.
       Deixou os cabelos soltos, prendendo-os de um lado com um pente dourado e usando toda a sua habilidade de modelo para realar os malares salientes e o tamanho
dos olhos. Ouando terminou, parecia mesmo uma selvagem garota cigana, despertando admirao at mesmo na prima.
       - Minha nossa! - Jennifer exclamou. - Voc est maravilhosa! S falta aparecer um prncipe encantado para rapt-la em seu cavalo branco e...
       - O que, com toda certeza, no vamos encontrar no Dorchester - Helen interrompeu-a, com secura. - A que horas o txi deve chegar?
       O txi chegou quinze minutos depois, j com Terry, que as cumprimentou com um sorriso caloroso e amigvel. Mas o beijo que ele deu em Jennifer no tinha nada
de amigvel, decidiu Helen, que os observava com uma mistura de inveja e divertimento.
       O salo de baile estava cheio de rostos famosos. Helen reconheceu vrias colegas de profisso, metade do mundo da mdia e uma infinidade de polticos, nobres
e negociantes bem-sucedidos. Danou com um lord, um cantor popular e um capito de indstria, logo de incio. Todos eles gostariam de fazer mais do que apenas danar,
mas ela os conservou a distncia com o sorriso frio de sempre, at que se virou e deu com Race parado a menos de cinco metros, observando-a com um sorriso zombeteiro
e olhar indolente.
       Como num sonho, Helen viu-o aproximar-se, enquanto Jennifer corria com Terry para o seu lado e seu par fechava a cara. Um conhecido colunista social no tirava
os olhos deles, e Helen estudou Race com o corao batendo de dor e prazer.
       Roupas de noite lhe caam bem. Mas tambm o que no caa? Aquela noite ele tinha um ar elegante e despreocupado, e a garota que o acompanhava dependurava-se
possessivamente a seu brao.
       - Ol, cigana!
       Ningum, alm deles, poderia entender o significado dessas palavras. E ningum, alm dela, poderia saber a dor que lhe causavam. Helen esforou-se para sorrir,
consciente dos olhares interessados e do espocar dos flashs. Jennifer tinha razo, ela e Race estavam correndo perigo de se tornarem assunto de fofocas.
       - Ol, Race.
       Sem saber como, conseguiu permanecer fria, dando-lhe a mo num cumprimento rpido, apresentando-o a seu par e suportando ser apresentada  loira pegajosa,
que odiou com toda a fora de seu cime, principalmente quando ouviu-a dizer com voz melosa:
       - Querido, voc me prometeu que no ficaramos muito tempo. Quero ir para casa... com voc.
       Helen foi tomada por uma profunda nusea, enquanto examinava a garota. No mais que um metro e sessenta e frgil como porcelana de Dresden!
       - Aposto que no  virgem. - Ela s percebeu que havia murmurado sua opinio quando viu as sobrancelhas de Race se erguerem.
       - No - ele concordou. E aps um instante acrescentou, com devastadora crueldade: - Graas a Deus!
       Dizendo-se que tivera sorte em no haver ningum por perto para ouvir essa troca de palavras, Helen permitiu que seu par a conduzisse de volta  pista de
dana. Tudo o que queria era ir se esconder num lugar bem longe, mas o orgulho fez com que ficasse, rindo, danando, bebendo e fingindo comer, at poder se retirar
sem despertar comentrios.
       J estava na cama, quando Jennifer chegou, e no pde reprimir uma pontinha de inveja ao ver o rosto feliz e corado da prima.
       - Terry me pediu em casamento! Ah, Helen, pensei que esse dia nunca chegaria! Estou to feliz que acho que vou chorar - Jennifer declarou, fazendo exatamente
isso.
       - Isso no  felicidade,  champanhe - Helen disse, abraando-a. J decidira o que fazer: agora que sabia que Race estava em Londres, precisava partir. O
pedido de ajuda da tia no poderia ter chegado em melhor hora.
       Comunicou sua deciso a Jennifer durante o caf da manh - uma refeio a que fora incapaz de fazer jus. Sentira-se pssima ao acordar, o que atribura ao
nervosismo e  quantidade de lcool que tomara na noite anterior. Agora, estava com a cabea leve, quase area.
       Deixou Londres na hora do almoo, resolvida a pedir ao tio que lhe arranjasse uma pequena casa, assim que ficasse bom. Tinha dinheiro suficiente para no
precisar trabalhar, mas como sempre se interessara por antiguidades, talvez acabasse por montar uma loja. Alem disso, tinha o livro para se distrair.
       Neil estava na estao  sua espera, e abraou-a com calor. H muito ele havia ultrapassado sua altura, e riu alegremente, girando-a no ar.
       - Voc perdeu peso - comentou, quando j entravam no carro. - Alguma coisa errada?
       Ela e Neil sempre tinham sido muito unidos. Ele  que lhe arranjara o primeiro trabalho como modelo, nunca deixando de mandar-lhe cartas encorajadoras depois,
quando fora para Londres. Apesar da rudeza exterior, era um rapaz muito sensvel s necessidades emocionais dos outros, e s o orgulho impedia-a de contar-lhe tudo
o que sentia ali mesmo. Alm disso, deixara tudo aquilo para trs e no tinha inteno de desenterrar nada.
       - Como vai seu pai?
       - A gripe dele  sria - Neil admitiu. - O Dr. Barnes disse que no h a menor possibilidade de ele voltar ao trabalho, por enquanto.
       - No que eu puder ajudar, podem contar comigo. Tia Ldia vai dar uma mozinha a voc, no vai?
       - Vai. O que  timo, pois ando ocupadssimo. Abriram uma nova fbrica de material eletrnico em Tytherton, e muita gente tem vindo atrs de casas para morar.
Posso at dizer que estamos atravessando um mni-boom imobilirio.
       Seus tios moravam numa casa de tijolos vermelhos que Helen adorava. Ela ainda se lembrava da primeira vez em que a vira, depois da morte dos pais; chegara
num dia frio e mido, e a casa a aquecera com seu ar aconchegante, dando-lhe as boas-vindas exatamente como a tia fizera.
       E mais uma vez ela recebeu uma acolhida calorosa.
       - Jen me contou o que fez - Ldia disse, abraando-a, enquanto Neil guardava o carro na garagem. - Ela no  como voc, Helen; no pensa antes de agir, Mas
como vo as coisas?
       - Pssimas! Eu me apaixonei por Race. Ele me queria... Eu tentei me convencer de que no era o bastante, mas...
       Havia entre elas uma franqueza a que Helen dava muito valor. Mas no era de sua natureza fazer confidncias a ningum, e ela se interrompeu bruscamente, ao
perceber o quanto j dissera.
       - Eu entendo, Helen. Quando era jovem, tambm estive loucamente apaixonada por algum. Foi antes de conhecer seu tio. John era piloto numa das bases areas
aqui perto. Estvamos no fim da guerra e uma espcie de loucura, difcil de entender hoje em dia, dominava todos ns. Eu o amava e o desejava, e nunca me arrependi
ou me senti culpada pelo que partilhamos, embora ache que tudo poderia ser diferente, se...
       Ldia parou de falar em sua mocidade para censurar o filho, que entrava na cozinha sem limpar os ps. E aceitou com gratido o oferecimento de Helen para
levar o ch do tio, quando o telefone comeou a tocar.
       Quaisquer dvidas que Helen pudesse ter ainda, sobre o pedido de ajuda da tia acabaram quando viu o aspecto frgil do tio. Ele a cumprimentou com um sorriso,
indicando a cadeira ao lado da cama.
       - Afinal, algum com tempo para bater um papinho comigo! Como vai, minha filha?
       - Bem. Ao contrrio do senhor, pelo que vejo.
       - Quem lhe disse isso? O Dr. Barnes? Ele no sabe nada! Eu me sentiria muito melhor se pudesse me levantar e ir ver o que Neil anda fazendo.
       Rindo, Helen ajeitou-lhe os travesseiros e sentou-se para conversar, enquanto ele tomava o ch. Mais tarde, a ss com Neil, comentou o quanto ficara chocada
com o abatimento do tio.
       - Ele  mais forte do que parece - Neil garantiu-lhe. - J superou o pior. Voc sempre se preocupa demais. Ainda me lembro do estado em que ficou por causa
daquele pardal que nosso gato trouxe.
       Helen tambm se lembrava do incidente. O gato da famlia trouxera para casa um pardalzinho com a asa quebrada, e, por sua insistncia, Neil o salvara, acomodando-o
numa caixa de sapatos, na estufa. Todos os dias ela ia v-to, torcendo para que melhorasse, mas um dia achara-o morto. Neil encontrara-a soluando de dar d, e ela
no pudera lhe explicar que seu sofrimento no era apenas pelo passarinho, mas tambm por si mesma. Seus pais tinham morrido h pouco tempo, e lhe parecera que no
podia amar nada sem que o objeto de seu amor lhe fosse tomado. Da em diante, fora tomada por um medo quase obsessivo de perder sua nova famlia, e s com o passar
do tempo conseguira tirar esse medo da cabea.
       - Voc sempre foi to intensa em seus sentimentos - Neil comentou, surpreendendo-a. Sempre pensara em si mesma como fria e controlada. -  verdade que nunca
manifestou, mas eu sempre soube. Como sei que h alguma coisa errada, agora. O que , Helen? Um homem?
       No conseguiu lhe contar. Sacudiu a cabea, cega pelas lgrimas, e sentiu-se contente quando a chegada da tia ps um fim a sua conversa.
       Uma semana depois, ao contrrio do tio, que se achava a caminho de uma recuperao completa, Helen sentia-se cada vez pior. Cansava-se com facilidade, sofria
de ataques repelidos de nusea, e sua mente e seu corpo andavam to letrgicos que tudo era um sacrifcio.
       Uma manh, quando descia as escadas, teve um enjo to grande que foi obrigada a parar, lutando contra a horrvel sensao com o rosto plido e coberto de
suor. A porta da cozinha abriu-se quando estava sendo dominada por uma tontura incrvel, e mal percebeu Neil segur-la, enquanto gritava pela me.
       Meia hora depois, j estava acomodada numa confortvel poltrona, tomando ch e comendo os biscoitos que a tia dissera que lhe fariam bem, com Neil ao lado,
ansioso e preocupado.
       - No sei o que h comigo. H dias no me sinto bem - admitiu.
       Me e filho trocaram um rpido olhar.
       - V buscar uma xcara de ch para mim, Neil - a tia pediu. E quando ele se foi, virou-se para Helen: - Helen, minha filha, para uma garota inteligente, voc
est se mostrando muito obtusa. Na minha opinio, voc est grvida.
       Grvida! Fez as contas depressa, imaginando como pudera ser to cega. A verdade era que, envolta em seus sentimentos por Race, nunca pensara que isso pudesse
acontecer. E ele, julgando-a experiente, no tomara nenhuma precauo. Um filho de Race! Uma onda de prazer assolou-a, fazendo-a estremecer de alto a baixo.
       - Pode ser - murmurou com voz trmula, enterrando a cabea nas mos e cedendo afinal s lgrimas. - Ah, tia Ldia, nunca pensei...
       - A gente nunca pensa. Mas agora, reflita com cuidado no que vai fazer. Eu sei que somos de geraes diferentes e voc deve fazer o que achar melhor, mas
a minha opinio  de que a vida  um dom raro e precioso, a no ser em casos excepcionais. De qualquer modo, quero que saiba que seu tio e eu estaremos do seu lado,
seja qual for a deciso que tomar. Creio que no h chance de um casamento...
       - No, no h. Eu nem vou contar nada a ele. No... no seria justo. No  o que ele queria, e a culpa... a culpa de tudo  s minha.
       Entre elas ficou a hesitante afirmao de que aquela gravidez seguiria seu curso normal, e a resoluo de Helen foi se tornando mais firme  medida que o
dia passava. No teria foras suficientes para agentar a sensao de culpa se fizesse um aborto. Sabia que enfrentaria muito sofrimento, mas pelo menos haveria
tambm a alegria de ter um filho de Race. Se tinha ou no o direito de p-lo no mundo, sem o carinho e o amor do pai, era outro ponto de angstia. No entanto, milhares
de garotas haviam enfrentado a mesma situao e se sado bem, e ela na certa tambm conseguiria. Tinha dinheiro e o apoio da famlia,
       O assunto no foi mais mencionado. Helen fez uma visita ao consultrio do Dr. Barnes e esperou, ansiosa, o resultado dos exames. Surpreendeu-se com a alegria
que sentiu, ao ter uma resposta positiva. Teria um filho de Race, uma pequena parte dele, que sempre seria sua.
       Seu tio j estava em p e prestes a voltar ao trabalho, e Helen decidiu que comunicaria suas intenes  famlia durante o jantar. Esperou at a tia servir
o caf e ento lhes contou, com calma e simplicidade.
       - Fico contente, querida - a tia disse de imediato, beijando-a com carinho. - Sou franca em dizer que acharia melhor se isso no tivesse acontecido. No por
nossa causa, mas por sua. No entanto, conhecendo-a como a conheo, sei que no seria capaz de agentar a presso emocional acarretada por um aborto,
       O tio olhou-a, meio embaraado, mas Neil levantou-se e abraou-a com calor.
       - Faremos o que pudermos para ajudar - prometeu. - E eu vou ser o padrinho. Quero s ver a cara do Rich, quando soube.
       Rich, o irmo gmeo de Neil, estava trabalhando na Austrlia, para uma companhia de explorao mineral,
       - Tio Roy, d para o senhor arranjar uma casa pequena para mim, no muito longe daqui? A minha gravidez vai provocar muitos comentrios, e acho melhor eu
me mudar, para no embaraar vocs,
       Helen mordeu o lbio, incapaz de continuar, e sentiu os olhos encherem-se de lgrimas, quando a tia disse com energia:
       - De jeito nenhum! Ento voc no sabe que hoje em dia  a ltima moda ter uma filha solteira e grvida em casa?
       - O que vai fazer com Jen? - Neil perguntou. - Voc conhece a lngua de trapo que aquela minha irm tem. E ela sabe quem  o pai do beb, no sabe?
       Helen sara para respirar um pouco de ar fresco, no jardim, e ele a seguira.
       - J pensou que eu mesmo posso no saber? - ela respondeu, sendo recompensada com um olhar zangado do primo.
       - Esqueceu-se de que est falando comigo, Helen? Aposto que at conhecer esse homem ainda era virgem. - Ele sorriu, ao v-la corar. - Voc sempre foi uma
princesa sonhando em sua torre de marfim, pura e inviolada. Seja ele quem for, deve ser um sujeito e tanto.
       - Ele . S que no sente por mim o que sinto por ele.
       No fim, seu problema em relao  prima foi resolvido quando Jennifer apareceu no fim de semana, com Terry a reboque. Eles vinham comunicar o noivado, e Jennifer
chamou-a  parte para dizer que tinha feito a coisa certa, ao sair de Londres.
       - Race anda saindo com Lady Davnia Pane. Os dois esto em todas as colunas sociais, mas eu acho que no vai durar muito. Estou to arrependida do que fiz,
Helen, mas eu pensei que ele gostava mesmo de voc. Foi bom voc ter sado de Londres. Com a cara que est, qualquer um ficaria sabendo o que sente por Race s de
olhar para voc. - Jen fez uma pausa, depois acrescentou: - A propsito, o que foi que deu em Neil? Ele andou me fazendo uma sria de perguntas a seu respeito, quem
so seus amigos, com quem voc sai, etc, etc.
       Helen percebeu que teria que contar a verdade  prima.
       - Estou grvida, Jen. Todos j sabem. Eu s no lhes disse o nome do pai.
       - Grvida?! E o que pretende fazer? Livrar-se do beb? - Jen fez uma careta, ao ver a cara da prima. - Desculpe, Helen. No fui delicada e, conhecendo voc,
deveria ter visto que isso no lhe passaria pela cabea. No vai contar a Race?
       - Que sentido haveria nisso? Ele no me queria antes e deve me querer menos ainda, agora. No, esse beb  meu, Jen. Minha responsabilidade, completamente
meu...
       - A no ser pelo fato de que Race  o pai dele. No sei se voc est certa em no lhe contar, Helen. Pode ser que ele tenha outro ponto de vista sobre o filho.
       - Se ele tem, no pretendo descobrir. No se intrometa desta vez. Jen. No quero que ele saiba. D-me sua palavra de honra de que no dir nada.
       S quando Jennifer concordou Helen se acalmou. Aquela criana era sua, a nica coisa que lhe restava, e pretendia conserv-la.

CAPTULO VIII

       Os tios de Helen recusaram-se terminantemente a permitir que ela se mudasse, e seu amor era to reconfortante que ela acabou cedendo. Ao contrrio do que
esperava, no circularam comentrios maldosos na vila sobre seu estado, nem mesmo quando a primavera chegou e sua gravidez tornou-se indisfarvel. Ela se sentia
estranhamente contente, apesar da dor e do sofrimento de no ter Race.
       O beb comeou a chutar, e o movimento vigoroso de seus bracinhos e pernas convenceu-a de que s poderia ser um menino. Neil cobria-a de mimos, recusando-se
a deixar que se escondesse, insistindo para que o acompanhasse ao pub local e levando-a para jantar fora, at que ela foi forada a dizer-lhe, gentilmente, que as
pessoas j deviam estar achando que o filho era dele.
       - De jeito nenhum - ele garantiu, colocando a mo sobre sua barriga avantajada. - Se fosse meu, voc estaria usando minha aliana, Helen. E como eu gostaria
que fosse! Acho que me apaixonei por voc quando a vi no alto daquela macieira, coberta de arranhes por ter ido atrs de um gatinho. Minha vontade foi tomar voc
nos braos e cobri-la de beijos.
       - Em vez disso, voc gritou comigo at eu chorar. Ah, Neil. eu nunca pensei...
       - Eu nunca quis que voc soubesse. Sou realista, Helen, e no duvido que um dia encontrarei uma garota que substituir voc. At l, no tenho a menor objeo
a que o mundo inteiro pense que sou o pai do seu beb.
       Neil levou sua mo aos lbios, beijando-a e deixando-a com uma dolorosa sensao de desperdcio e futilidade. Ele a amava, e nunca desconfiara! E era um desperdcio
to grande, pois nunca poderia am-lo da mesma forma.
 medida que o tempo passava, seu corpo desabrochava. Maio chegou, com suas brisas leves e cu azul.
       - No se torne obcecada pelo beb, Helen - a tia aconselhou-a, um dia em que estavam sentadas  sombra da castanheira em flor, no jardim. - Deixe lugar em
sua vida para outras pessoas.
       Helen sabia que a tia se referia a outro homem, mas no disse nada. No haveria outro homem capaz de preencher o lugar de Race em seu corao. Disso tinha
certeza,
       Neil chegou quando terminavam o ch. Deitou-se na grama, aos ps de Helen, apoiando a cabea nas mos entrelaadas.
       - Acho que vendi a casa dos Radford. Ela est  venda h mais de um ano, mas agora parece que consegui arrumar um comprador,
       - Seu pai ficar contente.
       - Eu, pelo menos, estou bem contente. Aquela casa estava virando um elefante branco. Quer celebrar comigo? - ele perguntou, dirigindo-se a Helen.
       - Na minha condio?! - Ela riu,
       - Por que no? Voc no tem uma doena contagiosa, s est grvida. E como sei que no tem vergonha disso, s pode estar com vergonha de ser vista comigo.
O que h? No sirvo para ser considerado pai dele?
       Zangado, Neil levantou-se e entrou em casa. Infeliz. Helen olhou para a tia, que estava muito quieta, com uma expresso triste nos olhos,
       - Ele est enganado - murmurou. - No  isso.  s...
       - ...que voc no o ama como ele a ama. Eu sei, querida, e fico contente por ter tido a honestidade de lhe dizer,
       - Seria melhor se me mudasse daqui. Talvez, se eu no estivesse constantemente perto dele...
       Helen notou que a tia sacudiu a cabea, mas no contestou seu argumento. Era mesmo ruim para Neil, estarem vivendo na mesma casa, e ela, conhecendo muito
bem a dor de um amor no correspondido, sofria por ele. Mas Neil era um homem, essencialmente, mais prtico do que uma mulher jamais poderia ser. Se encontrasse
outra moa, na certa se esqueceria dela.
       O problema era que ele no se permitia encontrar algum. Sua atitude em relao ao beb estava se tornando cada vez mais possessiva, e Helen j decidira que
teria que procurar outro lugar para morar. Uma pena, pois gostava muito dos tios e do primo. Mas no podia ser egosta.
       - Vou a Gloucester, hoje. Por que no vem comigo? - Neil sugeriu no dia seguinte, durante o caf da manh.
       O mau humor dele sumira por completo, mas Helen hesitou, s decidindo aceitar quando percebeu que aquela seria uma boa oportunidade de visitar algumas imobilirias
e comunicar a ele sua resoluo de se mudar para outra casa.
       Eles saram logo aps o caf da manh. Neil tomou todo cuidado para que Helen estivesse bem instalada no carro. Ele a tratava como se fosse de porcelana,
o que a fez sentir uma pontada de dor por no ser Race ao seu lado, cercando-a de todos esses cuidados.
       Race! No se passava um dia sem que pensasse nele. Tinha muita vontade de saber o que ele andava fazendo, mas decidira no perguntar nada a Jen, certa de
que assim seria mais fcil para si mesma. Falar dele s serviria para aumentar seu tormento.
       No foi difcil encontrar um bom lugar para estacionar, e eles resolveram tomar um cafezinho, antes de se porem a andar. Ldia encomendara vrias coisas a
Helen, e Neil queria comprar um novo equipamento fotogrfico. Fotografia ainda era o principal hobby dele.
       Na loja em que Neil costumava comprar seu material, Helen no pde deixar de notar o sorriso feliz com que a garota atrs do balco o recebeu. Um sorriso
que murchou um pouquinho, quando ela notou sua presena.
       - Helen, esta  Sue - Neil apresentou, depois de cumprimentar a garota. - O pai dela  o dono desta loja.
       - Eu sou prima de Neil - Helen explicou, com o corao apertado. Por que a vida no era mais simples? Por que no podiam todos amar quem os amava?
       Ao deixarem a loja. Helen comentou:
       - Que garota simptica! E voc sempre teve preferncia por loiras, no?
       Neil nem lhe deu resposta.
       - Reservei uma mesa para o almoo no Grand. Mas antes temos algo muito especial a fazer. Venha comigo.
       Helen no desconfiou do que ele pretendia, at chegarem  carssima loja de artigos para bebs. Roupinhas deliciosas e incrveis equipamentos infantis adornavam
a vitrine, mas ela hesitou e teria recuado, se Neil no a tivesse empurrado para dentro.
       - Neil...
       - Ele vai ser meu afilhado, no vai, Helen? Quando eu o levar para um passeio, no vai ser naquele carrinho horrvel da sobrinha do Vicrio. Alm disso, voc
sabe que eu sempre preferi modelos esporte.
       Mary Simmonds, a sobrinha do Vicrio, oferecera a Helen o carrinho que usara para os dois filhos, e ela aceitara, dizendo-se que seria uma extravagncia comprar
um novo. Mas agora, naquela loja cheia de modelos caros e elegantes, sentia-se como uma criana numa loja de doces. No entanto, era ridculo ficar excitada por causa
de um simples carrinho, e virou-se depressa para dizer a Neil que no ia permitir que lhe comprasse um, quando teve a ateno chamada por um homem que descia a rua.
Fixou nele o olhar, tomada por uma leve sensao de incredulidade. Era Race, sabia que era!
       Um tremor intenso comeou a se espalhar por seus membros, enquanto toda a sua ateno concentrava-se no homem alto, de cabelos escuros, que caminhava pela
rua. Ele parou, e ela vislumbrou suas feies, pela primeira vez. Era mesmo Race. Mas o que estaria ele fazendo em Gloucester? Achou que ele ia olhar para o interior
da loja e v-la, e os segundos transformaram-se em uma eternidade, enquanto esperava que isso acontecesse. Mas ele no olhou para a loja, e ela o viu desaparecer
de vista, com o corao contrado de dor e de decepo.
       - O que aconteceu, Helen? - A voz de Neil tinha um tom preocupado. -  o beb?
       - No... No foi nada.
       Race ali! Race to perto, que quase poderia t-lo tocado. O sofrimento explodiu em seu ntimo, dilacerando-a, fazendo com que tivesse vontade de correr atrs
dele. Mas isso era comportamento de adolescentes histricas, e ela se esforou para prestar ateno no que Neil lhe dizia. No conseguiu se concentrar, no entanto,
e s ao sarem da loja percebeu que dera permisso ao primo para comprar um novo carrinho.
       Durante o almoo, Neil observou-a com cuidado, e a ateno dele envolveu-a como uma capa quente e reconfortante, isolando-a do resto do mundo Mas de que lhe
valia uma capa protetora, quando o que queria era a realidade abrasiva representada por Race?
       Na volta para o carro, passaram pelo escritrio do jornal local, e sabendo que Neil sempre mandava fotos para l, Helen parou para dar uma olhada. Empalideceu
ao reconhecer uma sua, entre as vrias que estavam expostas.
       Mas a Helen que Neil fotografara estava muito longe da modelo que fora. Ele a surpreendera sentada no cho, recostada no tronco da cerejeira em flor, com
uma das mos sobre a barriga, um meio sorriso nos lbios e uma expresso vulnervel e sonhadora nos olhos. Era uma foto que gritava, aos quatro ventos, sua felicidade
em estar esperando o filho de Race, tendo sido tirada num momento em que estava completamente desprevenida.
       - Oh, Neil, como pde?!
       - No deu para resistir. Para mim, voc representa o que h de mais feminino numa mulher, Helen.
       E para consternao de Helen, Neil inclinou a cabea e beijou-a nos lbios, fazendo com que se sentisse totalmente feminina e protegida. E era exatamente
nisso que residia o maior perigo. Neil estava lhe dando o carinho e ateno que adoraria receber de Race, e ela j comeara a se tornar dependente dele, usando-o
para lhe dar coragem, o que no era justo.
       - Mesmo grvida, os homens ainda a admiram - Neil lhe disse com um sorriso, quando iam para o carro. - Havia um sujeito nos observando quando eu a beijei,
agora h pouco, e a cara dele era de quem gostaria de me matar!
       -  que ele no sabia que foi um beijo entre primos, apenas - Helen replicou, tirando a mo da dele.
       - E  s isso que somos, Helen?
       - Voc sabe que sim, Neil. Eu amo voc... como um irmo.
       - E eu amo voc como uma mulher.
       A voz dele soou amarga, e Helen sentiu uma pontada no corao. Como seria fcil ceder e fazer a vontade dele! Mas a lembrou-se de ter visto Race. Um rpido
olhar bastara para reativar seus sentimentos, confirmando que seu afeto por Neil no era mais que uma plida sombra do que sentia por Race. Seria errado fingir o
contrrio.
       Race. O que estaria ele fazendo em Gloucester? Pensou em telefonar para Jen, mas logo desistiu da idia, no querendo se torturar ainda mais.
       Neil insistiu em voltar por um caminho mais longo, parando numa das vilas do Cotswold para que Helen pudesse esticar as pernas.
       Em casa, encontraram Ldia bastante excitada. Ela recebera um chamado de velhos amigos, convidando-a e ao marido para irem visit-los no dia seguinte.
       - Papai no vai gostar disso - Neil comentou, servindo-se de um pouco de salada que ela estava preparando. - Ele sempre joga golfe, nos sbados de manh.
       - Voc vai no meu lugar - Roy anunciou, entrando naquele exato momento. E quando Neil j ia protestar, disse: - Est combinado. Sua me insiste em que eu
v com ela, mas no posso deixar Reg Barnes na mo.
       - Mas eu estava pensando em dar um passeio com Helen, amanh!
       - De qualquer jeito, no daria - Helen interferiu, no querendo estragar os planos dos tios. - Combinei ver algumas casas, amanh - E acrescentou, vendo o
rosto dele se fechar: - Vai ser melhor para todos e...
       - De jeito nenhum, Helen - a tia interrompeu-a, com uma firmeza inesperada. - Quero que me prometa que no vai sair de casa, amanh. Eu no terei um momento
de paz, se souber que voc estar por a, subindo e descendo escadas, sem ajuda de ningum.
       No fim, Helen cedeu. Neil no estava contente com sua deciso, mas o que poderia fazer? Era importante que ele encontrasse outra pessoa, o que dificilmente
aconteceria se continuassem a morar na mesma casa.
       Na manh seguinte, ela se levantou cedo. Dormira pouco, atormentada por lembranas de Race e por seus prprios sentimentos, intensificados por t-lo visto
no dia anterior. O que estaria ele fazendo em Gloucester? Seria a famlia Pane proprietria de uma casa de campo no Cotswold? Nesse caso, estaria Race hospedado
l, na companhia de Lady Davnia? Uma tremenda angstia invadiu-a, ao pensar nessa possibilidade, e para se distrair foi para a cozinha, preparar o caf da manh.
       A tia desceu, parecendo estranhamente nervosa e lanando-lhe olhares ansiosos. Achando que ela devia estar com medo de que quebrasse sua promessa, Helen procurou
tranqiliz-la.
       - Eu no vou pr o p na calada, tia No precisa se preocupar.
       Elas estavam lavando a loua juntas, quando Ldia disse, de repente:
       - Helen, voc sabe que eu a amo como se fosse minha filha, no ? Que se eu achasse...
       Parou de falar bruscamente, e Helen ficou sem saber se ela pretendia comentar alguma coisa a respeito de Neil.
       - Tudo vai dar certo - murmurou, adivinhando a angstia da tia, que amava e queria o melhor, tanto para ela quanto para o filho. - No se preocupe, no.
       Foi recompensada com um sorriso bastante vago, que a deixou com a impresso de que Ldia estava mesmo preocupada.
       Ao ficar sozinha, Helen resolveu aproveitar a oportunidade rara de ter a casa e o jardim s para si. Com a aproximao do vero, o ar tornara-se quente, e
os canteiros do tio pareciam um buqu de flores em boto. A castanheira cobrira-se de folhas novas, e, olhando-a, Helen sentiu vontade de ir deitar-se ao sol.
       Seu corpo mudara bastante, durante a gravidez, e ela se examinou com cuidado no espelho do quarto, aps tirar a camisola. Seus seios estavam trgidos, os
mamilos, mais escuros, e a pele, com uma maciez de seda. Havia um prazer primitivo em saber que seu corpo abrigava o filho de Race, e uma certa surpresa na lembrana
do desejo que fora capaz de sentir. Sempre se julgara uma mulher fria, mas agora no se passava uma noite sem que se lembrasse do que haviam partilhado, sem que
acordasse com uma vontade louca de se ver nos braos dele.
       Abafando um suspiro, ela se vestiu devagarinho, aproveitando a sensao do algodo frio contra os seios, agora livres do suti. O algodo no escondia isso,
mas teria tempo de sobra para se trocar, antes que Neil voltasse.
       Com um livro nas mos, foi para o jardim, onde se deitou debaixo da castanheira, com a cabea apoiada numa almofada. Era delicioso estar ali, embalada pelo
som da brisa passando entre as folhas, meio dormindo, meio acordada, com o cheiro das flores em torno de si, os pssaros cantando ao longe e o sol acariciando-lhe
a pele.
       No soube o que a acordou. Num momento, estava profundamente adormecida, no outro, encontrava-se absolutamente desperta, consciente de que algo perturbara
sua tranqilidade.
       - Ol. Helen,
       Abriu os olhos de sbito, o corpo tenso de incredulidade.
       - Race?
       Ele estava em p diante dela, as pernas longas e musculosas cobertas por uma cala jeans desbotada, a camisa de algodo at quase a cintura, os olhos fitando-a
com uma expresso sombria e remota,
       - O que voc est fazendo aqui?
       - Vim ver voc.
       - Eu? Mas...
       Seus pensamentos estavam em caos. Jennifer teria quebrado a promessa que lhe fizera? Por que teria Race vindo? Por achar que seria divertido fazer-lhe uma
visita, enquanto estava nos arredores? Uma leve exclamao escapou-lhe dos lbios, quando o beb chutou, e forte.
       - Helen! Voc est bem?
       Race ajoelhou-se ao lado dela, segurando-lhe os ombros daquele velho e to lembrado modo. Seria capaz de reconhecer o toque dele em qualquer lugar, mesmo
que estivesse de olhos fechados.
       - Eu estou bem. Foi s... o beb. Ele chutou. O que veio fazer aqui. Race?
       - Estou passando alguns dias com uns amigos que moram perto de Gloucester e vi sua fotografia no jornal.
       - Ento Jen no...?
       O rosto dele enrijeceu, espelhando zanga.
       - No, ela no me deu o seu endereo. No quis nem me dizer em que cidade voc estava.
       E por que ele quisera saber? Por se sentir culpado em relao a ela? Mas que importncia tinha isso, agora?
       O beb chutou de novo, e, automaticamente, Helen colocou a mo sobre a barriga.
       - Meu Deus, Helen! Por que voc no me disse?
       Ela nem tentou negar nada.
       - Quando eu vi aquela fotografia e percebi seu estado... soube que a criana era minha. Sa feito louco, procurando por voc. Consegui seu endereo no jornal
e vim para c ontem mesmo, mas voc no estava. Falei com a sua tia.
       Ento era por isso que a tia estava to estranha! Fizera um trato com Race, para que ele pudesse v-la sozinho.
       - Por que no me disse? - Race repetiu. - No achou que eu tinha o direito de saber?
       - Para ser sincera, no. Vamos encarar os fatos: foi um acidente. E de minha responsabilidade, porque voc com certeza pensou que eu tinha... tomado precaues.
Portanto, no havia sentido em lhe dizer.
       - No havia sentido?! Por Deus, Helen! - Zangado, ele agarrou-a pelos ombros. -  o meu filho que voc est esperando! Como poderia no haver sentido? E outra
coisa: por que decidiu continuar com a gravidez? Poderia ter feito...
       - ...um aborto? - Ela  que estava zangada, agora. - Poderia, e do seu ponto de vista isso na certa tornaria a vida bem menos... complicada. Mas no precisa
se preocupar, Race. Eu absolvo voc de toda responsabilidade. Tenho dinheiro suficiente para sustentar meu filho, e...
       - ...um primo pronto a se casar com voc? J me disseram, mesmo - Race admitiu, em tom spero. - Pois bem, voc pode ser nobre o bastante para me absolver
de qualquer responsabilidade, Helen, mas e quanto ao meu filho? Ser que ele vai se sentir do mesmo modo e me perdoar? Ou perdoar voc, por lhe negar o direito de
ter seu pai? Ah, eu sei que est na moda as mulheres tomarem conta de sua prprias vidas e fazerem tudo sozinhas, at mesmo criar os filhos.  muito bom para elas,
mas algum j pensou em analisar tudo do ponto de vista das crianas? Voc sabia que noventa por cento dos filhos de pais divorciados desejam, de todo o corao,
que os pais ainda estivessem juntos? Eu sei o que  no ter um pai, Helen. Minha me fez parte da vanguarda do movimento de liberao feminina e resolveu ter um
filho sozinha. Meu pai era um homem casado, e ela me disse, uma vez, que no o amava, mas sentira necessidade de ter um filho.  isso que voc pretende dizer ao
nosso filho? Que ele no foi concebido por amor, mas por necessidade biolgica? Se , pode desistir, porque no vou deixar. Ns vamos nos casar, e o mais cedo possvel.
No - interrompeu-a, quando ela j ia abrindo a boca para replicar -, deixe-me terminar:  o meu filho que voc vai ter, e prefiro v-la no inferno a permitir que
me negue o direito de ser pai. J temos alguns juzes esclarecidos, hoje em dia, e voc sabe muito bem que poderia ser obrigada a partilhar essa criana comigo.
 isso que voc quer? Porque eu no pretendo desaparecer e deixar que tudo corra a seu modo.
       Casar com Race! De imediato, Helen no conseguiu absorver o significado disso. Quis recusar, dizer-lhe que no o desejava sem amor. Mas... e seus tios? Sabendo
que Race era o pai de seu filho, no haveriam de querer que se casasse com ele? Se bem que eles nunca tentariam influenciar sua deciso.
       E tambm havia Neil a considerar. Ele a amava, mas se a visse como esposa de outro homem...
       Alm disso, havia a questo de seus prprios sentimentos. No fundo, no sentia ela uma enorme vontade de ser esposa de Race? No existia em seu corao uma
esperanazinha de que ele ainda viesse a am-la? Talvez, com o casamento e o filho a uni-los, o amor acabasse por nascer entre ambos.
       - Preciso de tempo para pensar. Race - murmurou, hesitante. - Eu...
       - No, Helen - ele respondeu de imediato, surpreendendo-a com a emoo presente em sua voz. - Ns dois somos responsveis por essa criana. Ns a concebemos
e lhe devemos nosso amor. Voc a quer, seno no deixaria a gravidez ir em frente. Mas no a ama o bastante para querer tambm que pertena a uma unidade familiar
normal? Voc perdeu seus pais e deve saber o que isso significa para uma criana, como eu sei o que significa crescer sem pai. Ou voc se casa comigo, ou eu arranjo
algum que se case e recorro  lei, para tirar o beb de voc!
       - Race... - Havia uma violncia nos olhos dele que a chocou, deixando-a incapaz de resistir. - Race... sem amor... - comeou a protestar. Mas ele a silenciou
de imediato, dizendo com aspereza:
       - Haver amor, Helen: nosso amor pelo beb. - E colocando a mo sobre a barriga dela, inclinou a cabea c beijou-a, no local onde o beb h pouco chutara.
       Uma emoo desconhecida nasceu no intimo de Helen, e ela sentiu uma vontade intensa de abraar e aconchegar Race ao seio, como se ele fosse to vulnervel
e indefeso quanto seu beb. Mas limitou-se a erguer a mo e acariciar-lhe os cabelos escuros.
       - Diga que sim. Helen.
       - Est bem - murmurou, sabendo que a luta estivera perdida desde o momento em que abrira os olhos e dera com ele diante de si. - Pelo...
       - Helen!
       Helen levantou a cabea e viu Neil aproximando-se deles, com o rosto transformado numa mscara de zanga e cime.
       - Helen, o que...
       Race ps-se de p com um movimento gil, e ela corou ao pensar na cena que deviam ter apresentado a Neil, abraados daquele modo, com a cabea dele aconchegada
a seus seios.
       - Voc deve ser Neil - Race comeou, afavelmente. - Eu sou Race Williams, seu futuro primo e... - olhou para Helen, sorrindo com humor - futuro pai do beb
que a vem.
       - Seu... cafajeste!
       A amargura presente no xingamento acabou com a paz da tarde, e Helen levantou-se desajeitadamente, odiando-se por fazer Neil sofrer. Sua inteno era ir atrs
dele e explicar tudo, mas Race segurou-a pelo pulso, dizendo com voz zangada:
       - Deixe, Helen. Mais cedo ou mais tarde ele ter que aceitar que voc e o beb so meus...
       O que era uma coisa bastante estranha para se dizer, Helen concluiu mais tarde, pois, apesar de querer o beb. Race sem dvida no a queria, O comentrio
fora, na certa, motivado apenas por cime masculino.
       Race no foi embora enquanto seus tios no chegaram. Pelo olhar ansioso que a tia lhe lanou, Helen viu que ela estava preocupada com sua reao.
       - Eu disse a seus tios que pretendia me casar com voc - Race comentou. - Por que deixou que eles pensassem que eu no queria meu filho, Helen?
       - Porque achei que um homem deveria ter desejado conceber uma criana, para quer-la. A maioria no teria a sua atitude.
       - E resolveu nem me dar a chance de mostrar o que eu queria, no ? E Jen se fechava como uma ostra, cada vez que eu perguntava por voc. Levei semanas para
descobrir que voc tinha sado de Londres e abandonado a carreira de modelo.
       Se ele a quisesse mesmo, poderia ter ido atrs dela assim que voltara da Esccia. Uma verdade que Helen sempre soubera, mas que nem por isso deixava de ench-la
de amargura, cada vez que lhe vinha  cabea.
       Uma vez tendo obtido o consentimento de Helen, Race no perdeu tempo em providenciar o casamento, que deveria realizar-se por licena especial, na igreja
local. Jennifer e Terry viriam de Londres.
       Jennifer havia confirmado a Helen, pelo telefone, que Race andara realmente atrs dela.
       - Mas eu no disse nada, porque no queria que voc se aborrecesse.
       - Fez o certo - Helen garantiu-lhe, quando se encontraram pessoalmente, no dia do casamento, e Jen manifestou alguma dvida quanto  prpria conduta.
       - Mame me disse que se sente culpada por ter deixado Race falar com voc. Ela tem medo de que voc esteja se casando com ele contra a vontade.
       - Contra a vontade, no. Eu s no sei se estou fazendo a melhor coisa. Mas o que mais me preocupa  Neil; ele est reagindo to mal!
       - Ele supera - Jen afirmou, com insensibilidade. - E  melhor assim. Eu j estava achando que Neil havia se convencido de que o beb era dele. Ele e Race
no simpatizaram muito um com o outro, no ?
       - No. Neil resolveu ir para a Sua, logo depois do meu casamento, com um grupo de amigos. Vo tirar fotos.
       No grupo, ia tambm Sue Reynolds, da loja de material fotogrfico, e Helen estava torcendo para que o primo encontrasse algum consolo na companhia dela.
       Helen escolhera um vestido de corte simples, creme, para a cerimnia. Nada poderia esconder sua gravidez, e ela no tinha inteno de tentar: o beb deveria
chegar dentro de trs meses.
       Ela rezou para que tivesse tomado a deciso mais acertada, enquanto caminhava para o altar, de brao com o tio. Race estava  sua espera, alto e moreno, virtualmente
um estranho, e o medo assolou-a, ao pensar no quanto sua vida poderia se tornar rida. Se quisesse, Race encontraria consolo em outra parte, mas e ela? Que consolo
poderia encontrar com outra pessoa, amando-o como o amava? Sua esperana era de que o filho os unisse. E Race lhe dissera, na noite anterior, que eram sexualmente
compatveis e seu casamento seria como todos os outros.
       - E quanto ao amor? - ela havia murmurado.
       Um espasmo de dor toldara o rosto de Race, como se ele tambm estivesse renunciando a velhos sonhos. Mas logo a indiferena voltara.
       - Teremos que nos contentar com o que sentimos pelo nosso filho, no , Helen?
       Eles teriam uma breve lua-de-mel. Helen no queria, mas Race havia insistido, alegando que precisava de frias e sempre visitava a vila que possua nas Ilhas
Cayman durante essa poca do ano. Ele tambm insistira em acompanh-la ao exame mdico mensal, algo que ela nunca deixara Neil fazer, e questionara o mdico, com
cuidado, sobre o perigo que um vo poderia acarretar, tendo em vista sua gravidez.
       Race passara os trs dias anteriores ao casamento com ela levando-a para passear e falando de seus planos para o futuro, inclusive de sua inteno de s permanecer
com a companhia de televiso para a qual estava trabalhando durante um ano.
       - Quero me concentrar em meus escritos - dissera, dirigindo o carro por uma das estradinhas estreitas do Cotswold. - Mas voc no precisa ter medo de passar
necessidade. Tenho outras fontes de renda.
       Fora nesse passeio que Helen vira a casa, um pouco afastada da estrada, rodeada por um muro de pedras e j apresentando sinais de falta de conservao, com
uma tabuleta de "Vende-se" presa a um dos portes. Talvez devido  sua gravidez, ela fora assolada por um desejo intenso de restaurar a velha casa, devolvendo-lhe
a beleza original com amor e carinho. Sua tia sempre tivera razo, ao dizer que nascera para ser me e esposa. Algumas mulheres precisavam do desafio de uma carreira
para se sentirem realizadas, mas sua satisfao pessoal estaria sempre ligada ao lar e  famlia. Definitivamente, no sentiria a menor falta da vida que levava
em Londres.
       Na volta do passeio, Helen surpreendeu-se pensando na casa, imaginando se teria dinheiro suficiente para compr-la, se no fosse se casar com Race. Provavelmente
no. Mas, na sua opinio, Londres no era o lugar ideal para se criar um filho. O ideal seria que ele pudesse ter a mesma infncia de cidade pequena que ela tivera
e tanto amara.
       A frieza da aliana, deslizando por seu dedo anular, trouxe-a de volta ao presente. Seu corao disparou. Estava acabado, ela e Race eram agora marido e mulher.
Os sinos soaram, e a velha igrejinha encheu-se de msica. Ela notou que a tia estava chorando, enquanto caminhava para a sada, de braos com Race. O beb chutou
em seu ventre, e uma vontade enorme de rir assaltou-a.
       -  a primeira vez que vejo voc sorrir com vontade, desde que a encontrei.
       Helen olhou para Race, surpreendendo-se com sua seriedade. Para ele tambm no deveria estar sendo fcil. Ela o amava, pelo menos, mas ele no tinha nada
alm de um profundo senso de responsabilidade pela criana que deveria nascer.
       Ao sarem para o sol, uma pontada de medo atingiu-a. Teria feito a coisa certa? S o tempo poderia dizer.

CAPTULO IX

       Como no havia vo direto de Londres s Ilhas Cayman, Helen e Race foram at o Caribe e tomaram um dos avies pequenos, que faziam a rota entre as ilhas.
A ilha de St. James, onde ficava a vila de Race, era uma das menores e de mais difcil acesso, estando, por isso, bem preservado seu estado natural.
       - No h nem hotel na ilha, embora j estejam pensando em construir uma marina - Race contou - Eu mesmo estou com vontade de comprar um barco. E talvez compre,
se tiver um filho.
       - Uma filha tambm poderia se interessar por navegao - Helen disse, friamente.
       Ela ainda no havia definido bem os prprios sentimentos em relao  atitude possessiva que Race desenvolvera pelo beb. Acostumara-se a encar-lo como seu
apenas, mas Race estava tornando cada vez mais claro que teria pelo menos uma participao igual, na criao do filho. Quanto a seu casamento, poderia mesmo dar
certo? Ela no era ingnua e fora forada a admitir que Race tinha razo, ao dizer que eram sexualmente compatveis. Tambm era forada a admitir que ele estava
certo, ao afirmar que muitos casamentos de sucesso comeavam com menos, e que boa vontade e determinao faziam milagres.
       - No se engane, Helen - ele lhe dissera, um dia antes de se casarem. - Nosso casamento vai durar. No acredito nessa histria de tirar tanto prazer quanto
possvel da vida quando existem crianas envolvidas. Elas no pedem para nascer, e no pretendo fugir  minha responsabilidade. Farei o mximo para que nosso casamento
seja bem-sucedido e espero o mesmo de voc. Voc deve querer essa criana, seno j teria feito um aborto. O que deve perguntar a si mesma, agora,  se a quer o
bastante para fazer os sacrifcios que ainda sero exigidos de voc.
       Helen no tinha certeza. Tudo que sabia era que, apesar de querer muito o filho de Race, queria Race mais. As razes que a tinham levado a aceitar aquele
casamento eram extremamente complexas, mas a mais forte fora o amor que sentia por ele.
       - Cansada?
       A pergunta era exatamente a que um homem teria feito a sua esposa; breve, porm expressando preocupao. Sob o olhar simptico da aeromoa, Helen fez que
no. Seu vo custaria a terminar, e at agora ela ainda no conseguira decidir se queria mesmo fazer aquela viagem. Race dissera que ambos estavam precisando de
uns dias longe de todos, e ela no pudera deixar de imaginar se isso no seria devido  agitao que sua gravidez causaria entre os amigos dele. Homens como Race
no engravidavam suas mulheres por acidente nem saiam correndo para se casar com elas, quando isso acontecia. Sem dvida, seu casamento causaria muita especulao,
e na certa haveria gente convencida de que ela engravidara de propsito, para forar a deciso de Race.
       Helen suspirou.
       - Voc est cansada.
       Foi mais uma afirmao que uma pergunta, e ela tornou a balanar a cabea. Estava tensa demais para se sentir cansada.
       - Ainda temos muitas horas de vo pela frente. Por que no tenta dormir um pouco?
       Era mais fcil dizer do que fazer. Helen nunca fora amiga de voar, e a semana anterior havia deixado suas marcas. Eles haviam passado a noite no apartamento
que Race tinha em Londres, um lugar ricamente mobiliado mas frio, e ela dormira no quarto de hspedes, sentindo-se mais uma intrusa que uma esposa. Sabia que ele
se casara com ela por causa do beb, mas, depois daquela preleo sobre sua compatibilidade sexual, no esperava dormir sozinha.
       Talvez seu corpo grvido o repelisse. Alguns homens reagiam assim. No entanto, no houvera repulsa no modo como ele a tocara e beijara, no jardim da casa
dos tios.
       Mais uma vez, Helen tentou relaxar. Estavam na primeira classe e tinham espao de sobra, mas sentia-se pesada e bem pouco confortvel. Dando as costas a Race,
tentou dormir. Era evidente que ele no queria conversar com ela, pois estava lendo alguns papis que trouxera, completamente esquecido de sua presena.
       Helen, conseguiu cochilar, sendo acordada pela aeromoa, que trazia o almoo. Comeu sem entusiasmo, sentido os olhos pesados e a mente embotada. Recusou o
vinho, pensando com ironia que, se tivesse feito o mesmo em outra ocasio, provavelmente no estaria naquela situao. Ou estaria?
       Depois do almoo, dormiu de novo, acordando  tarde para ver que Race tinha passado o brao em torno de sua cintura e que sua cabea estava apoiada no ombro
dele.
       - Voc pode ter dormido - ele lhe disse, quando abriu os olhos -, mas o Jnior esteve ativo o tempo todo. - Espalmou a mo sobre sua barriga, adquirindo uma
expresso quase terna, enquanto sentia os movimentos do beb. - Parece que est treinando para jogador de futebol.
       Helen afastou-se, odiando-se pela resposta de seu corpo ao toque do marido.
       - Eu j lhe disse vrias vezes, que "ele" pode ser "ela". Voc quer tanto assim um menino?
       - No me importo, desde que tudo corra bem para vocs dois. Eu achei que faria bem a voc sair por algum tempo, mas agora j no sei se esse vo foi uma boa
idia. Em todo caso, falta pouco.
       Helen teve oportunidade de esticar as pernas, quando desceram em Barbados. A noite estava cheia dos cheiros e sons do Caribe, e o calor, maior em comparao
com a atmosfera fresca e pressurizada do avio, cobriu sua pele de suor.
       Ela conseguiu se controlar o bastante para no recuar, ao ver o aviozinho que os levaria a St. James. No entanto. Race percebeu seu horror, ela mordeu o
lbio, com a impresso de que ele j estava lamentando t-la trazido. Race seria a ltima pessoa a entender ou ter pacincia com uma pessoa amedrontada. Medo era
um sentimento que ele, provavelmente, nunca experimentara na vida.
       No fim, Helen no achou o vo to terrvel quanto imaginara. J estava escuro para ver alguma coisa, quando aterrissaram, e felizmente logo estavam acomodados
num jipe, para a ltima parte da viagem.
       - Jipes so a forma mais comum de transporte, por aqui - Race disse, dando a partida. - Outro tipo de carro seria um desperdcio, pois s temos uma estrada
boa.
       Cansada demais para prestar ateno em qualquer coisa, Helen percebeu vagamente um agrupamento de casas em volta do porto, e vilas e bangals espalhados pela
regio em torno. Pararam diante de uma casa caiada de rosa. Apenas o som das ondas morrendo na praia quebrava o silncio, quando Race desceu e caminhou para a porta.
       - Espere aqui - ele mandou, quando viu que ela pretendia segui-lo.
       Logo as luzes da vila se acenderam e ele voltou, erguendo-a nos braos e tirando-a do jipe, como se no pesasse mais que uma pena. Na adolescncia, Helen
sempre sonhara em viver uma experincia dessas, sabendo que isso era quase impossvel, para uma garota de sua altura. No entanto, ali estava ela nos braos de Race,
com o corao dele batendo de encontro  face.
       A casa tinha dois andares, e Race levou-a para o superior, abrindo uma porta com o p e acendendo a luz com o cotovelo.
       - Voc vai para a cama - disse. E quando ela protestou, alegando que tinha a mala para desfazer e uma refeio a preparar, acrescentou: - Voc est exausta,
Helen. Eu mesmo posso desfazer a mala e preparar o jantar, mas duvido que voc consiga ficar acordada o tempo suficiente para se alimentar.
       A cama de casal pareceu-lhe extremamente convidativa, com a brisa da noite entrando pela janela aberta e fazendo balanar as cortinas. Race j ligara o ar
condicionado, e o calor pegajoso que sentira do aeroporto at ali estava gradualmente diminuindo,
       - Race, eu no posso ir para a cama assim. Quero tomar um banho... trocar de roupas...
       - Vou buscar sua mala. Mas descanse um pouco, enquanto isso. Alm do mais, a gua ainda vai levar meia hora para esquentar. No, Helen - ele continuou, quando
viu que ela ia protestar. - Eu sou seu marido, agora.
       - Que no lhe d o direito de me dizer o que fazer!
       - Pode ser que no, mas pelo menos me d o direito de fazer isso.
       Inclinando-se para coloc-la na cama. Race beijou-a de leve nos lbios, num contato to fascinante que Helen nem sentiu o colcho em suas costas. Ele afastou
os braos e espalmou as mos de cada lado de seu corpo, continuando a explorar com a boca a forma da sua e usando a lngua para delinear seus lbios.
       Completamente mole, ela fechou os olhos quando ele comeou a mordiscar devagarinho seu lbio inferior, provocando-a at um gemido de protesto escapar de sua
garganta. Um protesto que foi desmentido de imediato, quando enlaou-o pelo pescoo e ps-se a acariciar-lhe os cabelos escuros, implorando-lhe para aprofundar o
beijo. No entanto, para sua surpresa, ele se afastou, tirando suas mos do pescoo e colocando-as sobre o colcho.
       - Voc no se esqueceu de que tenho que desfazer as malas, no ?
       Era sua imaginao ou havia mesmo um trao de zombaria na voz dele? Ser que ele tinha percebido que o amava?
       Estremecendo, Helen acomodou-se melhor na cama. Essa era uma possibilidade que no gostaria de encarar. Race estava mostrando considerao e ternura para
com ela porque esperava o filho dele, e no porque a amasse. Estaria enganando a si mesma, se pensasse o contrrio.
       Helen adormeceu quase de imediato, acordando bem mais tarde, sozinha e com um pouco de frio. Race fizera o que prometera, pois sua mala vazia estava junto
 janela, e sobre uma cadeira havia uma camisola, um rpido olhar para o relgio mostrou-lhe que ele ainda marcava o horrio da Inglaterra. Que horas poderiam ser?
L fora estava escuro, e a casa, em silncio. Resolveu descer, encontrando Race absorto com alguns papis.
       - Pensei que essas frias fossem para ns dois. - censurou-o, quando ele ergueu a cabea.
       - Achei que deveria deixar voc dormir. Uma deciso contra a qual voc no deveria protestar, pois me manteve longe da sua cama - Race caoou. - Se bem que
no vai ser por muito tempo. A vila tem dois quartos, mas s um est mobiliado, e eu no pretendo dormir aqui embaixo.
       Se ele sabia que s havia uma cama e no queria dormir com ela, por que a trouxera para a vila? Helen sentiu uma ponta de zanga ao pensar nisso, mas no disse
nada.
       Sozinha, explorou a vila, encontrando uma sala espaosa e agradvel, com portas francesas que se abriam para um ptio murado. A cozinha tambm era bem grande,
com equipamento dos mais modernos e cho de ladrilhos. Como, alis, todos os outros cmodos.
       - Ser que a gua j est quente? - perguntou a Race. Estava ansiosa por um banho.
       - Deve estar. Voc dormiu por quatro horas. - Vendo sua expresso, ele riu. - Bem que eu lhe disse que estava cansada.
       O banheiro era todo moderno, e Helen tomou um longo banho de chuveiro, deliciando-se com a sensao da gua escorrendo por seu corpo. Havia um espelho de
corpo inteiro numa das paredes, e ela se examinou com a objetividade prpria dos modelos, imaginando por que sentia tanto prazer em saber que um filho de Race crescia
em seu ventre.
       Sorrindo, tocou os seios trgidos, cujos mamilos j haviam escurecido. Estava com o corpo de uma mulher feita. Se pelo menos Race a amasse, como seriam bons
aqueles meses, partilhando a maravilha de terem criado outra vida! Muitas mulheres sentiam prazer em estar grvidas, por serem mes, incapazes de se realizar sem
um filho, mas seu prazer vinha mais do fato de a criana ser uma prova viva do amor que sentia por Race. Como era gostoso saber que seu ato de amor culminara com
a vinda de um beb!
       Balanando a cabea diante da complexidade de seus pensamentos, Helen descobriu, surpresa, que tinha o rosto molhado de lgrimas. J ia enxug-las, quando
a porta do banheiro se abriu e Race entrou, de testa franzida.
       - Helen, voc...
       Ele se interrompeu bruscamente, fazendo com que Helen tomasse conscincia da prpria nudez. Ela podia admirar e sentir prazer no modo como seu corpo se modificara
com o beb, mas era pouco provvel que ele sentisse o mesmo.
       - Voc est chorando. - Foi uma acusao, com traos de zanga. - Por qu? Porque no se casou com aquele seu primo? Porque no  dele o beb que est esperando?
Pelo amor de Deus, Helen, no faa isso! - gemeu, enquanto ela chorava mais ainda, levada no sabia por que emoo, a menos que fosse pela dor de am-lo e no ser
correspondida. - Helen... - Race abraou-a, beijando-a e sentindo na lngua o gosto de suas lgrimas. - Voc est to linda, assim!
       Trmula e muito tensa, Helen sentiu-o acariciar seus seios com as mos e os lbios, antes de se pr a explorar a forma de seu corpo. S que no havia naquele
toque o desejo desesperado que guardava dentro de si.
       - Race - protestou sem firmeza, com vontade de lhe dizer o que sentia, o quanto queria que a beijasse e possusse, como fizera antes.
       Race ergueu a cabea, murmurando junto a seu ouvido:
       - Est tudo bem. No vou machucar voc. S que  um sentimento estupendo saber que meu filho cresce no seu ventre. Venha, vou ajudar voc com isso.
       Ele pegou a camisola e vestiu-a como se estivesse cuidando de uma criana, no mostrando o menor trao de desejo no olhar com que a examinou, ao terminar.
Foi nesse momento que a ltima esperana de Helen morreu. Baseada no desejo que um dia vira nos olhos dele, ela chegara a pensar que seu casamento teria uma chance,
mas agora percebia que no. O que Race queria dela era o filho, e pelo bem de seu amor-prprio no deveria mais se esquecer disso.
       Helen acordou uma vez durante a noite e, ao sentir o corpo de Race junto ao seu, teve vontade de se aconchegar a ele. Uma vontade que controlou enquanto estava
consciente, mas  qual deve ter cedido durante o sono, pois acordou de manh abraada ao marido. Ele, por sua vez, tinha uma das mos sobre sua barriga. O beb chutava
com entusiasmo, e Helen pensou que ele ainda estivesse dormindo, at ver o brilho dos olhos cinzentos entre as plpebras semicerradas.
       - Meu Deus, Helen, por que isso tinha que acontecer? - ouviu-o perguntar com voz rouca e expresso angustiada, antes de se levantar rapidamente.
       Helen piscou para esconder as lgrimas, odiando-se pela agonia que a angstia dele estava lhe causando. Sempre soubera que Race se casara com ela por causa
do beb. Ento, por que toda aquela mgoa, agora?
       Os dias confundiam-se um com o outro. A vila tinha uma praia particular, e Helen sentia-se  vontade para tomar banho de sol. Race trouxera trabalho, e durante
as manhs em que descobrira ser melhor deix-lo sozinho, ela ouvia o som da mquina de escrever, pelas janelas abertas. Uma mulher da ilha vinha diariamente cozinhar
e limpar. Era gorda, alegre, e ria constantemente.
       - O senhor deve ter feito um belo beb - disse a Race, uma vez.
       E Helen divertiu-se vendo o marido corar. Nunca pensara que pudesse v-lo embaraado.
 tarde, Race mergulhava ou nadava. Helen s vezes o acompanhava em passeios ao longo da praia, mas andava preguiosa demais para se exceder. O mais difcil
era  noite, quando tentava dormir com ele a seu lado, to perto e to distante. De que valia a intimidade fsica sem a harmonia mental para enriquec-la?
       - Por que no tira a parte de cima?
       Helen sentou-se depressa, pondo de lado o livro que estivera lendo. No ouvira Race se aproximar.
       - A praia  particular, e o tecido est machucando a sua pele.
       Era verdade que a parte de cima do biquni estava apertada e machucando-lhe a pele. Desde sua chegada, h uma semana, seu corpo havia sofrido modificaes,
e ela no podia negar que seria agradvel sentir a caricia do sol e da brisa marinha em seus seios nus.
       - No vou olhar, se  isso que a est preocupando - Race falou, rspido. - Eu imagino se seria to tmida com o seu querido primo. Foi por isso que saiu de
casa, Helen? Porque sabia que ele a queria e seus tios no aprovariam? Era nele que estava pensando, quando fiz amor com voc? Ele a quer tanto que quase se convenceu
de que era dele o beb que voc espera!
       - Neil  meu primo, Race - Helen protestou, surpresa com a zanga que sentia nele. - Nunca desconfiei do que ele sentia por mim. Sempre fomos bons amigos,
mas...
       - Voc no sabia que ele a desejava? E se soubesse, Helen, o que faria? Seria ele a ouvir seus gritos de prazer? A engravidar voc?
       Por que estaria Race falando daquele modo? No poderia ser por cime de Neil. Provavelmente estava ressentido com o fato de Neil saber da vinda do beb, quando
ele no fazia a menor idia.
       - Nunca pensei que Neil me amasse - explicou com voz trmula. - E eu sa de casa porque... porque tive uma experincia ruim, com outra pessoa. Uma pessoa
que pensei que me amasse, mas que s queria se casar comigo porque meus pais me deixaram algum dinheiro. Eu no era uma adolescente popular; por causa da minha altura,
sempre me senti desajeitada e insegura. Quando Brad se interessou por mim, coloquei-o num pedestal. Foi Neil que me ajudou a encontrar a autoconfiana. Foi ele,
tambm, que sugeriu que eu seguisse a carreira de modelo. Ele sempre foi timo fotgrafo.
       - Como se eu no soubesse! - Race comentou, com selvageria. - Ele fotografou minha esposa, grvida do meu filho. Meu Deus, Helen! Voc no pode imaginar o
que senti, quando abri aquele jornal e vi a sua foto. E logo quando eu...
       - ...j tinha se esquecido de mim? Deve ter sido mesmo um choque. Race... Race, aonde voc vai? - Helen perguntou, quando ele lhe deu as costas e caminhou
para a vila.
       - Buscar uma bebida. Estou precisando de um trago!
       Para ajud-lo a se esquecer da armadilha em que se metera, casando-se com ela? Desanimada, Helen suspirou. Por que fora falar em Brad? O que a levara a confiar
em Race? Aquele sempre fora um segredo que escondera de todos...
       Race tinha razo sobre uma coisa, pelo menos, decidiu irritada, segundos depois. A parte superior de seu biquni estava mesmo apertada, e como ele voltara
ao trabalho - podia dizer pelo barulho da mquina de escrever -, no haveria inconveniente em tir-la.
       Com o sol batendo em sua pele nua, Helen esticou-se longamente, sentindo uma gostosa sonolncia apossar-se dela. Estava realmente ficando preguiosa, dormindo
daquele modo todas as tardes, mas como era gostoso relaxar o corpo e deixar a mente vagar.
       Acordou quando Race parou a seu lado, com uma bandeja de ch nas mos.
       - Achei que voc gostaria de um chazinho gelado.
       O olhar demorado que ele lanou a seus seios fez com que corasse profundamente. Ser que achava feio seu corpo, pesado pela gravidez? Sentiu vontade de recolocar
a parte superior do biquni, mas no teve coragem, pois no queria que ele soubesse o quanto a afetava com aquela proximidade.
       -  melhor eu ir buscar um bronzeador - limitou-se a dizer. - No quero me queimar demais.
       - H um aqui - Race replicou, pegando o tubo que ela esquecera. - Vire-se, que eu passo um pouco em voc.
       Torcendo para que sua expresso no a trasse, Helen virou-se de lado. Sentiu o creme frio na parte posterior das coxas e o movimento acariciante da mo de
Race. Quase rezou para que ele terminasse logo aquele pedao, suspirando de alvio quando a mo dele procurou a parte externa de suas coxas. Mas foi um alvio que
durou pouco, pois logo sentiu-o desamarrar as tiras que mantinham a parte inferior de seu biquni no lugar, deslizando os dedos pela curva de seus quadris e alcanando
a barriga, onde se ps a massagear com gentileza a pele retesada, at ela ser obrigada a fechar os olhos, lutando para no deixar escapar um gemido de prazer.
       - O que foi?
       A mo dele se deteve, e Helen abriu os olhos para v-lo observando-a de perto.
       - Voc ficou to plida! Est se sentindo mal? Eu a machuquei?
       O que poderia dizer?
       - Parece que o Jnior estava gostando da massagem - brincou, com voz fraca. - Acho que ele dormiu.
       -  bom saber que agrado pelo menos um membro da minha famlia.
       O tom de Race foi seco. Helen achou que havia imaginado a dor que vislumbrara nos olhos dele. No era possvel que ele tambm estivesse pensando em como seria
seu casamento se houvesse amor entre eles.
       - Fique onde est, ainda no terminei. - Colocando mais creme na mo. Race distribuiu-o pelos seios de Helen, envolvendo-os com os dedos e provocando nela
uma incrvel sensao de prazer. - Helen... - disse de repente, num tom de voz spero, que a tirou daquela lassido deliciosa.
       E acariciou-lhe o mamilo, observando-lhe as reaes com um rosto estranhamente plido. Ento, num gesto repentino de derrota, fechou os olhos e pousou a boca
entre os seios femininos, murmurando algo que ela no conseguiu entender, antes de prender com os lbios o mamilo que estivera acariciando, puxando-o at senti-lo
enrijecer contra a lngua.
       Helen sentiu-se assolada por uma violenta onda de calor e arqueou o corpo, relembrando o prazer experimentado em outra ocasio.
       - Helen. - A voz de Race estava quase irreconhecvel. - Deus me perdoe, eu no deveria estar fazendo isto, mas... - Passou a mo pelos cabelos, sentando-se
ao lado dela. -  que fiquei to excitado, vendo voc. Quando... quando o beb nascer... voc vai... Voc pretende amamentar o beb no seio?
       - No... no sei.
       Mentira! J no esperava com impacincia a hora de segurar o beb nos braos e senti-lo tirar fora e alimento de seu corpo?
       - Se resolver que no, vai priv-lo de algo maravilhoso. E se resolver que sim, vai me deixar com um cime dos diabos! - Com essa ele se levantou e voltou
para a vila, deixando Helen estupefata.
       Voltaram a Londres cinco dias depois, indo para o apartamento, que Helen achou to frio quanto se lembrava. No dia seguinte, ela no viu Race at a hora do
jantar, pois ele se levantou cedo e saiu logo depois do caf da manh. Como ela, ele parecia no se ter beneficiado muito das frias, estando com um aspecto cansado,
quase exausto.
       - Tenho que sair, depois do jantar - Race comentou  mesa, quando terminavam a refeio. - E antes que eu me esquea, tenho uma coisa para voc: um presente
atrasado de casamento, que ainda no est bem pronto.
       Entregou-lhe um envelope, que Helen abriu com curiosidade, imaginando o que poderia conter. Um presente de casamento era algo que no esperava. Afinal, no
tinham se casado em circunstncias normais. Soltou uma exclamao de surpresa.
       -  a casa... a casa que vimos... Mas Race, voc nunca me disse... Como foi que soube...?
       - Eu vi o modo como voc olhou para ela, e este apartamento no  um bom lugar para se criar filhos. Isso mesmo, filhos. No pretendo ser pai de um filho
nico - avisou-a, com dureza. - Os documentos estaro prontos a semana que vem. A casa  boa, mas precisa de alguns reparos. Se voc no quiser se ocupar disso,
posso contratar um decorador.
       - No! - O protesto foi espontneo. - Eu prefiro cuidar de tudo. Race. Sei que vou levar mais tempo que um profissional, mas se voc no se importar...
       - Faa como quiser - ele respondeu, indiferente. -  melhor eu ir andando. No precisa me esperar. Outra coisa... - esperou que ela o encarasse - quando estiver
fazendo seus planos para a reforma da casa, no se esquea de que a sute principal ser ocupada por ns dois.
       Ento ele ainda a desejava! Ou estava querendo apenas reforar a imagem de uma famlia normal? Ser que achava que ela poderia procurar outra pessoa se a
negligenciasse - Neil, talvez -, pondo em risco a segurana emocional de seu filho? Provavelmente nunca saberia a resposta, a menos que lhe perguntasse.
       Naquela noite, foi dormir bem mais feliz. Race lhe dera a casa, o que com certeza provava alguma coisa de bom. Mas sua felicidade desapareceu depressa no
dia seguinte, quando viu uma foto de Race com uma loira, na coluna de fofocas de um jornal.
       "O empresrio Race Williams e Lady Davnia Fane jantando juntos no novo restaurante, Raffles, inaugurado ontem pela personalidade da TV, John Richards", dizia
a nota embaixo, e Helen sentiu sua felicidade transformar-se em amargura.
       Ento, a casa no passava de um modo de Race afast-la de si, enterrando-a no campo para que pudesse continuar com sua vida de solteiro, na cidade. Como fora
ingnua!
       Dizendo a si mesma que no havia sentido em ficar se lamentando, Helen ligou para a tia, para contar da casa.
       - Eu sei, querida - Ldia disse. - Race pediu ao seu tio para cuidar de tudo. Acho que ele deveria ter pedido a Neil, que est agora  frente da imobiliria,
mas Neil andava to aborrecido com o seu casamento! Se bem que, agora, ele parece ter superado o pior. Recebemos um carto dele outro dia, dizendo que resolveu ficar
mais duas semanas na Sua, com Sue Reynolds. Quando  que voc vem nos visitar? Estamos com saudade.
       - Assim que os papis da casa ficarem prontos, eu vou. Eu gostaria de me mudar antes de o beb nascer, mas no sei se vai dar.
       Mais tarde, naquele mesmo dia, Jennifer apareceu para visit-la.
       - Meu Deus, como voc est bem! - comentou, admirando o bronzeado da prima. - Ao contrrio de seu amo e senhor, que est com uma aparncia horrvel. O temperamento
dele tambm no anda muito bom, o que prova que ele deve estar achando a paternidade uma carga. - Ela levou a mo  boca, ao ver a cara de Helen. - Meu Deus, essa
minha lngua! Desculpe, Helen, no foi isso que eu quis dizer.
       - Voc no tem que se desculpar. Ns duas sabemos que Race se casou comigo por causa do beb.
       - Mas ele deve sentir alguma coisa por voc, Helen. E voc o ama!
       -  verdade - Helen concordou. E mostrando o jornal  prima, acrescentou: - Mas no vou ser tola a ponto de acreditar que seremos felizes para sempre. Agora
 melhor mudarmos de assunto. Que pianos voc e Terry andam fazendo?

CAPTULO X

       - Que maravilha, Helen! - Jennifer exclamou. -  impressionante o que voc j fez. Como conseguiu?
       - Deve ser porque no tenho mais nada a me ocupar o tempo - Helen explicou, contente com a admirao da prima, principalmente porque Race no fizera o menor
comentrio, ao vir passar o ltimo fim de semana com ela.
       Ainda faltava muito para Helen terminar a decorao da casa, mas ela no pretendia fazer mais nada at o nascimento do beb, dali a um ms. Seria loucura
se exceder, naquela fase.
       - Faz tempo que voc mudou? - Jennifer perguntou, quando j estavam tomando caf na cozinha totalmente reformada, onde a instalao dos aparelhos eletrodomsticos
no havia estragado a aparncia antiga e charmosa, dada pelas traves de madeira e paredes de tijolos  vista.
       - Uma semana.
       - Mame est preocupada com o fato de voc ficar sozinha aqui, Helen. Esta casa  meio isolada.
       - Eu tenho um carro e telefone - disse Helen, desejando que Race se preocupasse tanto com seu bem-estar.
       - E Race vai ficar aqui, com voc?
       - Claro que vai - ela confirmou, abaixando os olhos para no trair suas dvidas.
       Depois do ltimo fim de semana. Race fora para Londres e no voltara mais. Ele no lhe dera explicaes, e ela no pedira nenhuma, tendo em vista o que lera
na coluna social.
       Como fora ingnua achando que fidelidade faria parte de seu casamento, pelo menos no incio, enquanto tentavam se entrosar. No era de admirar que Race tivesse
lhe comprado aquela casa.
       No querendo que Jennifer percebesse o quanto era infeliz, Helen engoliu em seco vrias vezes, tentando dominar a dor que fazia sua garganta se contrair.
Agora, com a reforma da casa temporariamente suspensa, no tinha nada a fazer, a no ser esperar pelo beb. Alm de preocupar-se com o fim de seu casamento,  claro.
       A sute principal fora preparada como Race havia instrudo, mas at agora ela vinha dormindo sozinha na enorme cama de quatro colunas, que combinava to bem
com o estilo antigo da casa. Complementando o quarto havia um banheiro novo e uma saleta cheia de armrios, grande o suficiente para acomodar as coisas do beb,
at ele ter idade para dormir no quartinho que ela havia preparado com tanto amor e carinho.
       - Voc sabe que Neil ainda est saindo com Sue, no sabe? - Jennifer perguntou, quando acabaram o caf. - Algum arrependimento?
       - Nenhum.
       E era verdade. Race podia no am-la, mas ela o amava e nunca poderia ter se casado com Neil.
       - Rich vem passar o Natal aqui. Mame est felicssima. Ela quer que voc e Race participem da ceia de Natal.
       - Eu gostaria muito, mas no sei quais so os planos de Race - Ainda faltavam cinco meses para o Natal, mas Helen conhecia bem a mania da tia, de organizar
tudo com muita antecedncia.
       - Terry queria que fssemos para a Sua, mas eu dei um jeitinho de fazer com que ele mudasse de idia.
       - Vocs j marcaram a data para o casamento?
       Suspirando, Jen descreveu a dificuldade que estavam tendo para encontrar uma casa adequada, prxima ao centro do Londres.
       - Ns nos casaremos assim que este problema for resolvido. - Lanou um rpido olhar para o relgio. - Preciso ir. Voc tem certeza de que ficar bem?
       - Race vem amanh - Helen tranqilizou-a. Ele lhe telefonara aquela manh, para avis-la de sua vinda.
       Como era doido ver que ele se considerava uma visita na casa que deveria ser seu lar!
       Race chegou quando Helen estava colocando umas roupas no varal. Ela havia aproveitado o bom tempo para lavar uma pilha de camisinhas e fraldas, que tinham
sido entregues aquela manh, juntamente com um bero e outros equipamentos infantis. Comprara-os na mesma loja em que Neil encomendara o carrinho, que agora exibia
lodo seu esplendor no hall, pois no resistira  tentao de empurr-lo um pouquinho pela casa.
       - Uma cena bem domstica - comentou Race, quando Helen terminou de dependurar as fraldas. - A reforma da casa j acabou ou voc pretende fazer mais alguma
coisa?
       - Por enquanto, ela vai ficar como est. E voc? O que pretende fazer com o apartamento de Londres?
       Com o final da gravidez, seus movimentos tinham se tornado mais lentos, e Race ajustou o passo ao seu, enquanto a observava de alto a baixo. O que a fez corar,
embaraada. Que beleza devia estar, com os cabelos despenteados e sem maquilagem! No era de admirar que ele preferisse ficar em Londres.
       - Por enquanto, nada.
       Uma onda de desnimo invadiu-a. Suas suspeitas tinham fundamento: Race pretendia continuar em Londres. Sabia que ele j lamentava seu casamento, mas nunca
pensara que lamentasse tanto. Para sua surpresa, o que ele disse em seguida contrastou tanto com seus pensamentos que tropeou e teria cado, se no fosse a reao
dele, segurando-a depressa.
       - A Sra. Dunn concordou em tomar conta do apartamento para mim. Depois que o beb nascer, decidiremos o que fazer com ele.
       - Quer dizer que voc vai ficar aqui, comigo?
       Race franziu a testa, e Helen sentiu uma pontada de dor ao imaginar que ele estava considerando que veria menos Davnia se ficasse ali.
       - Este  o nosso lar, e voc est muito perto de dar a luz para ficar sozinha.
       Decepo e infelicidade foram logo substitudos por raiva, dentro dela.
       - Se  s isso que preocupa voc, posso ir para a casa dos meus tios. - Com passadas firmes, Helen entrou no hall.
       - No... Droga! - Race exclamou de repente, ao dar um encontro no carrinho. - Que...
       - Neil me deu de presente - ela explicou depressa. E acrescentou, ao v-lo arrancar um papel que estava preso ao carrinho e levantar o fone do gancho, discando
com violncia. - O que , Race? O que vai fazer?
       - Vou devolver esse carrinho! No quero aquele sujeito comprando coisas para o meu filho, seja ele seu primo ou no.
       Helen fitou-o, boquiaberta. Por que estaria ele to zangado?
       - No faa isso, Race - pediu, enquanto ele dava ordens ao pessoal da loja para virem buscar o carrinho. - Neil ficar to magoado...
       - Neil que v para o inferno! - Com uma violncia ainda maior, Race recolocou o fone no gancho. -  s nele que voc sabe pensar, no ? E eu, Helen? Meus
sentimentos no contam? - Comprimiu os lbios, num gesto de raiva. - A verdade  que ns dois conhecemos a resposta para essa pergunta no ? Meu Deus, como eu gostaria
de nunca...
       - Eu entendo como se sente, Race, e prometo fazer o possvel para facilitar tudo ao mximo, para voc - disse, num tom rouco e fraco.
       - Promete, ? - Dando-lhe as costas. Race caminhou para a escada. - Quanta generosidade da sua parte! O nico problema  que no  generosidade que eu quero
de voc, Helen.
       "No,  a sua liberdade", Helen pensou, infeliz, vendo-o desaparecer no quarto que deveriam partilhar. No sabia se ia atrs dele ou no. No fim, acabou resolvendo
no ir.
       Race ficou por dez dias, durante os quais ambos se trataram educadamente, mas como estranhos. O carrinho desapareceu, substitudo por outro mais caro e bonito
ainda, que Helen encarou com repulsa. A intimidade dada pelo fato de partilharem a mesma cama tambm no serviu para melhorar as coisas entre eles. Race geralmente
passava as noites trabalhando, s indo se deitar quando ela j havia adormecido. Na opinio de Helen, ele na certa teria sugerido que dormissem separados, se os
outros quartos da casa estivessem prontos.
       No dcimo primeiro dia, o telefone tocou e Helen ouviu Race atender no escritrio que tinha decorado com tanto carinho, escolhendo uma escrivaninha grande
o suficiente para conter o telefone e a mquina de escrever. Estantes de madeira cobriam uma das paredes, e na parte inferior achavam-se embutidos os equipamentos
de som e vdeo. Para forrar as poltronas que ficavam num dos cantos, ela havia se decidido por um chintz de fundo amarelo, estampado com flores azuis e cinza, que
davam ao ambiente um ar quente e alegre,
       Helen ouviu os passos de Race cruzando o hall, enquanto ele a chamava. Estava na cozinha, preparando o almoo, e quando ele a achou, comunicou com secura:
       - Tenho que ir a Londres, a negcios. Volto amanh, em tempo para o jantar.
       - Acho que vou para a casa de minha tia, ento. - Ela no era medrosa, mas no gostou da idia de ficar totalmente sozinha, to perto de dar  luz.
       - No... No, eu quero que voc fique aqui - Race replicou. E depois de uma ligeira pausa, continuou, com amarga selvageria: - No vai dar certo, no ? Voc
no vai deixar que d. Afinal, como pode dar certo, se cada vez que eu viro as costas voc aproveita para correr de volta para o seu precioso primo?
       Sem fazer idia do que provocara aquele ataque, ela no tentou se defender. Meia hora depois, ouviu o carro dele sair. Em p, junto  pia, continuou automaticamente
a lavar a loua do caf, enquanto as lgrimas lhe escorriam pelo rosto.
       Por quanto tempo conseguiriam continuar daquele modo? Race a odiava e ressentia-se de seu casamento. No havia entre eles o menor sinal da unio com que tanto
sonhara, na volta das Ilhas Cayman. O Race que a tratara com tanto carinho e ternura, naquela poca, desaparecera por completo, e ela estava achando cada vez mais
difcil acreditar que o homem frio e amargo de agora era o mesmo que a levara a alcanar um nvel to grande de prazer, no chal.
       Dois dias depois, Helen estava na cozinha, tentando retirar a cortina da janela, quando ouviu um carro chegar. Logo, Neil apareceu na porta dos fundos.
       - Meu Deus, Helen, voc ficou maluca? - exclamou, ao v-la esticar o corpo, para tirar uma argola. E deu um passo rpido para a frente, conseguindo segur-la
antes que ela perdesse o equilbrio por completo. - Voc no deveria estar fazendo isso! Onde est o Williams? Ele no se importa? A obrigao dele era estar aqui,
com voc!
       - Race est em Londres, a negcios, e eu no sou nenhuma invlida, Neil. - Helen soltou-se das mos deles. - Sente-se a que vou fazer um cafezinho para ns.
       - Quem vai se sentar  voc, Helen. Meu Deus, voc quase me matou de susto! O que estava querendo fazer?
       - Lavar a cortina. E agora que est aqui, voc pode me ajudar e terminar de tir-la. Por falar nisso, o que veio fazer aqui?
       - Visitar a minha prima. No posso? - Neil comprimiu os lbios. - Recebi um telefonema, esta manh... sobre o carrinho.
       - Race no me deixou ficar com ele - explicou Helen, massageando a base da espinha. Suas costas estavam doendo desde cedo, mas de uma hora para c a dor havia
piorado muito.
       Neil preparou o caf e entregou uma xcara a ela, estudando-a com ateno.
       - Helen, voc  feliz? Isso me preocupa tanto!
       - Sou, sim - Helen mentiu. E soltou uma exclamao de susto, ao ser atingida por uma dor maior.
       De imediato, Neil estava ao seu lado, plido e ansioso.
       - Helen...
       - Eu estou bem. Deve ser um alarme falso, mas se voc puder telefonar para a sua me...
       Por sua vontade, Helen chamaria Race em primeiro lugar. Mas ela nem sabia onde ele se encontrava! Uma hora depois, a tia lhe disse, com firmeza:
       - Se quer minha opinio, no  alarme falso. Vamos j para o hospital, minha filha. Neil pode nos levar.
       "De ns trs, Neil  o mais nervoso", Helen pensou, tentando se lembrar de tudo que aprendera durante as aulas de preparao para o parto. As dores estavam
ficando cada vez mais seguidas.
       - Est tudo bem. Temos muito tempo ainda - a tia lhe garantiu. - Neil, preste ateno na estrada.
       "No, est tudo mal", Helen refletiu, cheia de infelicidade, enquanto entrava no hospital, apoiada no primo e na tia, meia hora depois. Race  que deveria
estar ali com ela. Era Race que gostaria de ter junto de si.
       - Por aqui, Sra. Williams - a enfermeira instruiu. - E no se preocupe, que vai dar tudo certo.
       - Race. Eu quero Race...
       - Ele logo estar aqui - a tia lhe garantiu. - Neil vai telefonar para Jen e para o apartamento de vocs. No se preocupe com isso agora, Helen. Concentre-se
no seu beb.
       " de espantar que eu ainda tenha foras para me preocupar com Race", Helen pensou, cansada, depois do que lhe pareceu uma eternidade de dores e instrues.
       - Vai indo tudo muito bem, Sra. Williams - a enfermeira disse, enxugando o suor de sua testa.
       - Meu marido...
       - Ele j deve estar chegando.
       Depois disso, o mundo se transformou num mar de dor; o pior havia comeado.
       - No faa fora ainda no, Sra. Williams - ouviu algum dizer a seu lado. E em seguida, dirigindo-se a outra pessoa: - Ela est ficando exausta. Seria bom
se o marido dela chegasse logo, para lhe dar o encorajamento de que precisa.
       - Como esto os batimentos cardacos? - outra pessoa perguntou, e um medo intenso pelo beb e por si mesma invadiu-a.
       Ouviu algum chorando e s ao ver o rosto ansioso da tia percebeu que o choro era seu.
       - Race... eu quero Race... - implorou, lutando contra a dor e a certeza de que Race no se importava o suficiente com ela para estar ali.
       - Ele j vem.
       Ento, mais dor assolou-a, at que, de repente, sentiu dedos fortes curvarem-se em torno de sua mo, transmitindo-lhe fora e coragem, enquanto limpavam com
ternura o suor de seu rosto. Ergueu as plpebras, e os olhos cinza de Race, cheios de medo e angstia, retriburam seu olhar, por cima da mscara de cirurgia.
       - Oh, Race... - Estranhamente, o nervosismo dele ajudou-a a se acalmar.
       - Vamos, Sra. Williams - o mdico falou, animado. - Agora no  hora de ficar lanando olhares apaixonados a seu marido. Temos muito trabalho a fazer. - E
dirigindo-se a Race: - Muito bem, rapaz, continue ajudando sua mulher. Vamos l, sra. Williams... Fora! Isso mesmo...
       Estava acabado, e ela conseguira! Tinha um filho, um menino perfeito, que s havia parado de berrar a plenos pulmes quando a enfermeira o colocara sobre
seu corpo.
       Maravilhada com o olhar firme que ele lhe dirigia, Helen tocou-lhe o rostinho com a ponta do indicador.
       "Quem foi que disse que bebs no so capazes de focalizar nada?", perguntou-se, assolada por uma onda de amor.
       - Helen...
       Distrada, ergueu os olhos para Race. Por um instante, quase se esquecera de que ele estava ali.
       - Desculpe eu no estar aqui... - ouviu-o murmurar, tocando o rosto do beb, inclinando-se para examinar-lhe os dedinhos da mo.
       Com toda certeza no podiam ser lgrimas o que via brilhando nos clios dele. Ou seriam? Cheia de curiosidade, estendeu a mo e passou-a pelos olhos de Race,
admirando-se ao perceber que estavam midos.
       - Deus do cu! - Race respirou fundo, com uma expresso agoniada nas feies simpticas. - Eu nem estava aqui, quando voc mais precisava de mim. Neil  que
estava. Neil...
       - Hora de ir, Sr. Williams - a enfermeira interrompeu-o, com ar animado. - Temos que fazer a higiene de sua esposa e de seu filho, agora. O senhor pode voltar
depois.

       - Hum, meu primeiro neto! E como  lindo - Ldia comentou, inclinando-se para cheirar o pescocinho do beb. - J notou que bebs tm um cheirinho todo especial?
       - J - Helen concordou, rindo. - De vmito e...
       - No foi isso que eu quis dizer! - Devolvendo Robert Paul Williams ao bero junto  cama de Helen, Ldia continuou: - Olhe, querida, no quero que pense
que estou interferindo na sua vida, mas a maternidade  to maravilhosa e absorvente, que s vezes nos esquecemos de que a paternidade no representa o mesmo, para
os homens.
       - Est me prevenindo para no negligenciar meu marido?
       Helen franziu a testa. Como poderia explicar  tia que Race  que a estava negligenciando? Ele passava a semana inteira em Londres, vindo para casa somente
nos fins de semana. E nem isso faria, no prximo fim de semana. Antes de partir, no domingo, ele lhe dissera para no esper-lo, no sbado seguinte.
       - Bem - Ldia prosseguiu, levantando-se -, o nascimento de um filho, principalmente do primeiro filho, pode ser traumtico para ambos os pais. s vezes, um
homem mais sensvel acha difcil fazer o primeiro contato fsico. Dar  luz  duro, e ver algum dar  luz pode ser mais duro ainda. Nem sempre os homens so capazes
de ver o quanto um corpo feminino  resistente. Em resumo, minha filha - ela concluiu, com franqueza -, o que estou tentando lhe dizer  que Race pode estar se mantendo
longe daqui por ter medo de machucar voc. Ele na certa acha que, se ficar, poder...
       - ...ser dominado pela paixo que tem por mim? - Helen completou, com um leve sorriso. Se pelo menos fosse esse o caso! Jamais poderia dizer  tia que, se
Race ficava longe dela, era, provavelmente, por se aborrecer na sua companhia.
       No sbado  tarde, Helen estava terminando de amamentar Robert, quando ouviu um carro chegando. Estivera descansando e no achara necessrio tirar a camisola
e vestir outra roupa para alimentar o beb. Seu corpo j voltara  forma anterior, e ela olhou com ternura a cabecinha morena do filho, to parecida com a do pai,
enquanto ele sugava seu seio com avidez.
       O grito de raiva e frustrao que ele soltou, quando o tirou do seio, fez com que risse. Um riso que morreu de imediato, quando se aproximou da janela e viu
que o carro era de Race.
       O medo assaltou-a. Ele teria vindo para um confronto final? Para lhe dizer que seu casamento fora um erro? Ouviu-o subir as escadas, chamando seu nome.
       - Estou aqui, Race - respondeu, indo at a porta. Robert ainda estava dormindo na saleta junto ao quarto. No vira sentido em transferi-lo para outro local
com Race passando tanto tempo longe. E pensar que havia planejado o quartinho do filho, certa de que Race apreciaria uma privacidade maior para eles. Como pudera
o desejo que ele sentia por ela acabar de forma to definitiva?
       Talvez porque desejo fosse assim mesmo. Desejo no era amor, e uma vez saciado...
       - Pensei que voc no viesse este fim de semana.
       - No...
       Helen corou ao perceber que Race estava olhando para seus seios. Mas logo um grito zangado do filho lembrou-a de que ele ainda devia estar com fome.
       - Eu estava amamentando Robert. Parei, quando ouvi o carro...
       - E ele, naturalmente, ficou zangado.
       Race caminhou at o bero e pegou o filho. Observando-os, Helen no pde deixar de notar o quanto o menino parecia pequeno nos braos do pai, apesar de ser
grande e pesado para a idade que tinha.
       Race aproximou-se e, assim que chegou perto de Helen. Robert parou de chorar, abrindo a boquinha  procura de sua fonte de alimento.
       - Acho que ele s pensa nisso - Race comentou, entregando o menino a Helen.
       -  o instinto da sobrevivncia.
       Com o filho nos braos, ela voltou a se acomodar na cadeira de balano. Gostava daqueles momentos com o menino, sentindo um inegvel prazer em seu contato
fsico e em observ-lo. Daquela vez, no entanto, procurou o marido com os olhos, assim que Robert recomeou a mamar. Mas ele estava em p junto  janela, olhando
para fora, com as mos nos bolsos, e sua ateno voltou a se concentrar no filho. Como sempre, a expresso satisfeita no rostinho encantou-a, provocando uma onda
de emoo em seu ntimo.
       - Helen...
       Ela ergueu os olhos, dando com Race

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       - E se eu quiser? - Ela ergueu a cabea, espantando-se com a intensidade da dor que viu nos olhos dele.
       - Helen!
       Seu nome foi um gemido de protesto, e uma emoo deliciosa cresceu em seu ntimo, levando-a a se deitar e enlaar o pescoo de Race, suspirando de prazer.
Ele a queria!
       Cobriu-lhe o rosto com beijos, delineando-lhe os lbios com a lngua, adorando o murmrio rouco que arrancou dele, um instante antes de Race envolver seus
seios com as mos e enterrar a boca na curva de seu pescoo.
       - Helen... Voc no deveria fazer isso. Deus sabe que no quero machuc-la... Mas, querida, faz tanto tempo que desejo isso...
       Querida. Ele a chamara de querida! O corao de Helen explodiu de alegria, dando-lhe a confiana necessria para afastar o lenol e colar seu corpo ao de
Race, provocando uma reao imediata e calorosa. Race devorou-a com as mos e os lbios, fazendo-a ofegar de excitao ao explorar o interior de sua boca com a lngua,
inteiramente dono da iniciativa, agora.
       - Meu Deus, Helen! Quero tocar e sentir o gosto de cada centmetro de seu corpo... Voc no imagina o que faz comigo...
       - Me mostre - ela sussurrou. E vendo a incredulidade surgir nos olhos dele, foi invadida por uma felicidade intensa, que expressou acariciando o quadril masculino.
       Incapaz de esconder o desejo que sentia. Race pronunciou seu nome com voz rouca e comeou a se mover de encontro a ela, acariciando-lhe os seios.
       - Por que est fazendo isso, Helen? - A agonia na voz dele paralisou-a. -  impossvel que no saiba o quanto me esforcei para que isso no acontecesse, ficando
em Londres, me mantendo afastado de voc at meu corpo doer de desejo. Pensei que pudesse fazer voc me amar... Com a fora do pensamento, tentei fazer com que me
amasse - confessou, os olhos enevoados de dor. - Eu a quis, desde o primeiro momento em que vi sua fotografia. Fiquei obcecado por voc. Quando descobri que Jennifer
era sua prima, persuadi Terry a nos apresentar, s que no deu certo. Voc me rejeitou, mas eu continuei a quer-la... tanto, que at perdi um pouco a razo. Eu
tinha ouvido falar da sua reputao e no entendia porque voc no me aceitava. Foi quando planejei a ida ao chal. Achei que se ficssemos sozinhos... eu queria
engravidar voc! - admitiu.
       E, incapaz de resistir  atrao dos mamilos rosados, to perto de seu rosto, tomou um deles entre os lbios.
       Helen sentiu uma doce emoo nascer em seu ntimo, ao escutar o som satisfeito que Race deixou escapar, ao ceder  tentao. E, acariciando-lhe gentilmente
os cabelos, tentou absorver o que ele acabava de lhe dizer.
       - Achei que voc teria que se casar comigo, se eu a engravidasse - Race prosseguiu, momentos depois- - Eu no queria que me descartasse como acreditava que
fazia com os outros, depois de deixar que partilhassem sua cama por algum tempo. Eu a desejava muito para isso. Ento, descobri que ainda era virgem.
       Race balanou a cabea, como se a lembrana daquela descoberta ainda o fizesse sofrer.
       - Tive vontade de me matar! Que grande idiota eu tinha sido, no percebendo antes... Minha nica justificativa  que eu estava to apaixonado por voc, que
no enxergava nada alm disso...
       - Voc me amava?!
       - Amo, presente do indicativo... Amava, amo e sempre amarei... - Race admitiu baixinho, alternando as palavras com beijos.
       - Mas voc ficou to zangado... me mandou embora...
       - Porque eu no estava conseguindo encarar o que tinha feito. No entende? Eu achei que seria justo deixar que voc se fosse, mas isso no me impediu de vasculhar
Londres,  sua procura. Jen no queria me dizer onde voc estava, e quando eu vi sua fotografia naquele jornal... Deus, pensei que estivesse tendo uma alucinao!
No descansei, enquanto no descobri o endereo de Neil. Fui atrs dele de imediato, mas s encontrei seus tios. Sua tia viu logo quem eu era... e combinamos um
jeito de eu ver voc. Depois que soube que o beb era meu, eu estava decidido a me casar com voc.
       - Ento, tudo aquilo que me disse...
       - Era verdade, mas o mais importante era que eu a amava. Eu tinha um cime doentio de Neil... Ainda tenho. Esta noite, pensei que voc s estivesse querendo
descarregar sua frustrao de no t-lo, mas depois, quando voc me disse que queria...
       - ...ter outro filho seu? - Helen complementou, sorrindo. - Eu estava falando srio. Race - admitiu, acariciando-lhe o pescoo com a lngua. - A nica coisa
 que, desta vez, eu preferia que no consegussemos na primeira tentativa.
       Oh, Deus, se no o tivesse procurado aquela noite, por quanto tempo continuariam a viver em sua mtua infelicidade?
       Como se tivesse lido seus pensamentos. Race disse:
       - Eu no teria agentado por muito mais tempo. Quando cheguei, hoje, e vi voc com o beb... - Fechou os olhos, mas ela percebeu o brilho mido nos clios
escuros. - Meu Deus, eu tive cime de meu prprio filho! E quando voc estava dando  luz... Eles me disseram que voc chamou por mim o tempo todo. No consegui
acreditar. E me senti to impotente, vendo voc lutar... Eu queria sentir a dor por voc, mas tudo que tinha feito era causar essa dor. Nunca me senti to apavorado
em toda minha vida!
       - So necessrios dois para isso - Helen lembrou-o, beijando-lhe o ombro. - Ns dois andamos cegos, Race. Olhando para trs, eu vejo que me senti atrada
por voc desde o incio. Acho at que me apaixonei por voc  primeira vista, mas o problema era que no estvamos nos vendo como realmente ramos, e sim o que imaginvamos
que fssemos. Eu tambm tive muito cime - confessou. - De Davnia Fane.
       - De Davnia?!
       - Vocs foram mencionados vrias vezes, nas colunas de fofocas. Eu pensei que preferisse ficar em Londres por causa dela.
       - Quando, na realidade, eu ficava l porque sabia que era o nico meio de no tocar em voc. Quando voc me procurou, esta noite... por que foi... ?
       - Eu achei que voc tinha vindo para me dizer que ia se divorciar... e eu o queria tanto!
       - Quanto? - ele quis saber, acariciando-a de alto a baixo.
       - Demais! Nesses ltimos meses, cheguei a pensar que nunca tnhamos feito amor, que tudo no passava de imaginao.
       - Hum... E foi assim que voc imaginou isto... e isto... ?
       Sentindo o corao dele bater de encontro ao seu, Helen correspondeu febrilmente s caricias que recebeu, ouvindo as palavras de amor, seguindo o ritmo de
seus corpos.
       - Race... oh... oh. Race - protestou fracamente, s em parte satisfeita com o deslizar da mo dele pela parte interna de sua coxa. Seu corpo reconheceu e
alegrou-se com a respirao alterada que ele adquiriu, ao perder o controle e segurar seus quadris, erguendo-os em direo a si.
       - Helen, eu no quero machucar voc - ouviu-o dizer, ao arquear o corpo para cima. - Quando Robert nasceu...
       - O nico jeito de voc me machucar, Race Williams,  no me amando - respondeu, maravilhada com a intensidade da excitao que ele procurava controlar. -
Eu desejo voc, quero voc, preciso de voc, amo voc!
       Suas unhas enterraram-se nas costas de Race, quando ele se colocou sobre ela e dentro dela. Sua exclamao de prazer foi silenciada por lbios firmes e ternos,
e seu corpo arqueou-se em xtase, para corresponder s exigncias do dele...
       Foi o choro de Robert que a tirou de um sono profundo e tranqilo, algum tempo depois. Adormecera nos braos de Race, o corpo colado ao dele- encantada com
o prazer que haviam partilhado e a revelao de que ele a amava. Mas Race no estava mais ao seu lado.
       Abrindo os olhos, sentou-se com esforo, espantando-se ao v-lo sentado ao p da cama, com Robert nos braos.
       - Ele estava chorando. Acho que deve estar com fome.
       - Pois eu tenho certeza - Helen concordou, com uma olhada para o relgio.
       - Estou com fome, tambm - Race comentou. - Vou descer e preparar alguma coisa para comermos, enquanto ele mama. Eu estava muito tenso antes, para me alimentar.
Tinha resolvido que no viria este fim de semana, que no me atormentaria desse jeito, sabendo que no me queria, mas quando percebi j estava no carro, a caminho
daqui. No fundo, eu esperava encontrar Neil com voc.
       - Neil anda muito feliz, com Sue. Ele sempre soube que eu amava voc.
       - Quando vi aquele maldito carrinho, quase cometi um assassinato. Mas aquilo no foi nada comparado ao que senti quando soube que ele  que tinha levado voc
para o hospital. Ele...
       - Mas era voc que eu queria - Helen interrompeu-o. - Eu amo Neil como um irmo, mas era voc, meu amante, meu marido, o pai do meu filho, que eu queria comigo...
       -  melhor eu descer logo, seno nosso filho  bem capaz de ficar sem outra refeio.
       Com um olhar terno, Race entregou Robert a Helen, ajeitando os travesseiros para que ela pudesse se recostar. Por alguns momentos, observou, fascinado, o
beb sugar; depois, beijou-a gentilmente na cabea e caminhou para fora. Na porta, no entanto, parou e olhou-a.
       - Eu te amo, Helen - murmurou, e ela viu o amor em seus olhos, sentindo-o espalhar-se pelo ambiente, como algo quase tangvel,
       - No demore muito, ento, para que possa me mostrar.
       A expresso que surgiu nos olhos de Race a fez lembrar-se do olhar que ele lhe lanara quando o vira pela primeira vez, e seu corpo respondeu de imediato.
       Foi necessrio um grito de protesto de Robert para que seus pais se lembrassem de sua existncia. Enquanto ouvia Race descer a escada. Helen sorriu, sonhadoramente,
para o filho.
       - Ele me ama - sussurrou, recebendo do menino um olhar de total incompreenso - e eu o amo... E acho que voc, meu amorzinho, logo, logo estar em seu quarto!

